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segunda-feira, 11 de março de 2013

Manifesto de (im)postura.





By Gilberto Miranda Junior,

Manifesto de (im)postura.


1 – Minha primeira preocupação sempre será em relação a de que forma um suposto fato é interpretado. O fato por trás das interpretações é uma preocupação posterior minha. Sempre minha primeira preocupação é epistemológica, ou seja, se aquilo que está sendo dito reflete a possibilidade de algo existir ou se se apoia em bases frágeis. Não sei se isso é bom ou ruim, ou mesmo ao que serve essa postura, mas é a minha postura e a minha preocupação.

2 – Não parto do pressuposto de que mundo espiritual ou espíritos não existam. Não é uma descrença em planos espirituais que movem meus questionamentos. Meus questionamentos sempre partem da possibilidade ou não de se justificar nossas crenças. Eu não questiono o objeto da crença e da fé de ninguém em um primeiro momento, mas sim se aquilo que se diz se sustenta.

3 – Questionar o que a pessoa diz e as bases pelas quais ela afirma suas crenças, para mim, é desvendar o real fato que está por trás da crença, independente da existência ou não do objeto da crença. É isso que me interessa e é isso que eu investigo primordialmente.

4 – Não há ódio que a religião me provoque. Quando eu vivia a religião eu só aprendi amor, união e solidariedade, portanto não tenho nenhuma experiência individual negativa com a religião. O que me incomoda, devo confessar, é simplesmente crer e não investigar os motivos da crença, o que te faz crer e se aquilo que acreditamos ser o objeto de nossa crença é justificável, em que nível é justificável e se essa justificativa leva a proposição de que o objeto da crença é real. Não há nenhum ódio envolvendo isso. Há irritação quando existem reações falaciosas e que desviam o foco das intenções em jogo.

5 – Eu jamais combato crenças e fé se a pessoa as desfila sem querer dar o status filosófico ou científico para elas. Conforme nos ensina Stephen Jay Gould toda controvérsia acontece pela confusão entre os MNIs (Magistérios não interferentes). O desrespeito aos MNIs me impulsionam aos questionamentos que faço, mas basta a pessoa admitir que escolheu crer nisso e pronto e o assunto acaba comigo desejando-lhe paz e felicidade.

Por outro lado não me vejo paladino da justiça, mas as confusões epistemológicas já causaram muito mal ao mundo e essa interferência entre magistérios já causou muita morte, opressão e genocídios para me ver impassível diante do gérmen do que rejeito.

7 – Teremos nossas divergências, decerto, mas isso não nos impede o diálogo respeitoso. Para mim o que merece ser discutido é uma mentalidade que busca conforto e praticidade ao invés de conhecimento e práxis (aplicar na realidade o conhecimento). Eu vivo organicamente aquilo que penso, e falar, discutir, dialogar e filosofar faz parte de minha construção existencial constante.

8 – Por fim, tudo é interpretação... O que nos resta é disseca-las para saber até que ponto ela se impõe como válida para algum dos aspectos perspectivos que estamos dispostos a viver.

É isso...


Notas sobre a fé - a partir do Manifesto da (im)Postura.


Eu não discuto objetos de fé. Se é esse o argumento eu aceito, pois defendo até o último fio do cabelo o direito inalienável do ser humano trilhar seus próprios cominhos. A fé, no meu modo de entender, é uma das bases mais frágeis em que algo pode se apoiar para ser chamado de Verdade. A fé torna todo raciocínio ou argumentação tautológico e blindado, o que não raro leva pessoas a serem manipuladas, controladas e dominadas pelos fatores de fora da circularidade que ela encerra. Não há critério pelo qual podemos dizer “aqui se pode ter fé” e “aqui é melhor olhar antes”... Pergunte ao cristão que entrou na jaula do leão e foi trucidado. A fé é um raciocínio subsumido que vai se ajustando às circunstâncias para sempre estar certo e justificar a si próprio a partir do que o subsume.

Se aceitarmos Husserl e todo o pensamento influenciado por ele, de Heidegger à Merleau-Ponty (sem esquecer Sartre, claro), a consciência só é consciência se consciência de algo, o que nos coloca enquanto seres conscientes num campo intencional inescapável. Ora, então não há gratuidade em nada, nem na fé. A confiança gratuita é apenas um ideal construído, um autoengano conveniente.

A fé é uma barganha, por mais sincera que seja. Sub-repticiamente há um campo intencional e utilitário que apazigua, dá força, enche de coragem e alimenta essa fé através de nossa mente descontínua, que pincela apenas os benefícios e subsome tautologicamente os problemas e prejuízos. E digo isso, saliento, sem questionar a veracidade do objeto da fé, mas sim seus efeitos e forma de operar.

Não há nada em nós que não seja ponderado por uma medida avaliada pelo soma, seja de forma consciente ou não. Portanto, por trás de toda relação, principalmente a intencional, há uma ratio, uma razão. Se concedermos que a fé seja espontânea, ainda sim há um raciocínio por trás para seu estabelecimento, uma medida que a estimule, uma ponderação que seja. A palavra raciocínio é ambígua, pois parece pressupor sempre uma deliberação. Porém constantemente nosso corpo, nosso subconsciente está raciocinando reativamente, ponderando, medindo, controlando e atuando diante das coisas. E é possível ler a lógica por trás dos comportamentos e resultados desses comportamentos, ou seja, a lógica dessa ratio que está aquém ou além da ilusão de livre arbítrio que alimentamos.

O raciocínio estabelecido sob fé já é uma fé como raciocínio, ou seja, um raciocínio subsumido pela fé. Ela própria é a garantia de si mesma. Portanto, ela é uma confiança tautológica de troca. Ela pretende ser um ato de salvação, mas é um ato de esperança, sobretudo, de se salvar (ou safar).

Blog do autor Filosofando na Penumbra
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