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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O PROBLEMA DA "EX-HOMOSSEXUALIDADE" (By João Marinho)




Após um período de descanso curtindo as férias de meus filhos, estou retomando as atividades do blog Mundo Da Anja e estarei retomando as atividades no blog Poemas e Contos Da Anja, mas ainda com menos intensidade, pois ainda estou curtindo as férias dos pequenos.

E já volto com este excelente (como sempre) texto do cronista João Marinho. 

Leiam, comentem, pensem, discutam!


O PROBLEMA DA "EX-HOMOSSEXUALIDADE"

Pensei muito em voltar a escrever sobre o tema e em começar fazendo uso de uma situação difícil que uma conhecida minha está passando – mas não posso me furtar a apresentar a enganação que, baseadas em um livro arcaico e em dogmas ultrapassados, tantas igrejas e tantos cristãos insistem em defender: a ideia de que é possível ser “ex-gay”.

Este ano, publiquei, não sem um certo prazer, uma nota no site A CAPA que informava que a Exodus International, uma das maiores associações religiosas de “ex-gays” do mundo, reconheceu que a reversão da orientação sexual não é possível e que, nesse sentido, a homossexualidade é uma “cruz” que cabe ao “ex-gay” carregar e contra a qual lutar ao longo de sua vida, no projeto de viver de acordo “com a vontade de Deus”, quer seja: casando-se e tendo mulher e filhos. Não é o ideal, mas é um passo na direção mais sábia.

Muitos aqui sabem que eu já fui um gay evangélico – já tentei a via da oração por muitos anos, já fui um adolescente deprimido e em crise por causa disso. Também já tive amigos que tentaram outras vias mais “concretas”, até mesmo se internando em fazendas evangélicas que praticavam verdadeiras atrocidades psicológicas. Outros entraram em “grupos de aconselhamento” e outros ainda tentaram a via do exorcismo.

Graças a Deus (olhem a ironia), eu me livrei de tudo isso, nunca cheguei a esses extremos e, liberto, hoje sou feliz com minha sexualidade – mas de todos os que vi se declararem “ex-gays”, sempre foi essa a minha percepção. Na verdade, eles nunca deixavam de ser gays, ou seja, de sentir atração por homens. Recorrendo a expedientes de repressão psicológica ou de matriz religiosa, deixavam de PRATICAR O SEXO com os homens e, em nome de suas convicções, seguiam uma vida de COMPORTAMENTO heterossexual, tendo, porém, de se policiarem contra o sexo gay como um alcoólatra em tratamento: “não se pode dar o primeiro gole”.

A questão que se impõe é... Se um alcoólatra que não bebe mais pode ser chamado de “ex-alcoólatra”, por que um gay que não transa mais com homens não pode ser chamado de “ex-gay”? Em que pese o fato de que já vi alcoólatras dizendo que não existe “ex-alcoólatra” – você sempre será um, ou seja, terá aquele problema com o álcool, o que muda é se está sóbrio e abstêmio ou não –, eu responderia que a questão é de conceito.

Por má informação, ou má-fé, boa parte da população não compreende que o conceito de orientação sexual está ligado ao desejo, tomado em sua acepção ampla e ao longo da vida. Orientação tem esse nome porque indica a quem o desejo sexual, incluindo sua face afetiva, está ORIENTADO, dirigido, direcionado, e é ISSO que define se a pessoa é hétero, homo, bi ou pan, não o sexo da pessoa que está ao lado na cama.

Em suma, como costumo explicar, eu faço sexo com homens porque sou gay – não sou gay porque faço sexo com homens. Da mesma forma, um homem hétero faz sexo com mulheres por ser homem hétero, de antemão – não é pelo fato de praticar essa modalidade de sexo que ele se torna hétero.

O ato sexual-genital é, portanto, o RESULTADO possível e provável da orientação sexual, não sua causa: o desejo antecede o ato. Tendo isso em vista, se o desejo da pessoa está orientado para o mesmo sexo, ela é homossexual, ou gay – independentemente de concretizar esse desejo mediante relações sexuais ou não. Gays (como héteros, bis e pans), portanto, podem ser celibatários, abstêmios e até mesmo se relacionarem com pessoa de sexo diverso. Também podem ser virgens – e isso é relevante, porque, se o que definisse a orientação sexual fosse o ato, e não o desejo, qualquer pessoa que ainda não tivesse transado não seria “nada”, não teria orientação sexual, o que é efetivamente um absurdo.

Trazendo isso para o que estamos discutindo aqui, então, o “ex-gay” não é “ex-“ porque o desejo pelo mesmo sexo fatalmente estará ainda, ou sempre, como admitiu a Exodus, presente. Não é por ter uma mulher e filhos com ela que, por isso, ele deixou de ser gay: basta apenas que o desejo pelo mesmo sexo esteja lá, como parte integrante da personalidade – e a verdade nua é crua é que, se você tem de lutar continuamente para não ceder a uma determinada vontade, ou para reprimi-la, a lógica impõe a realidade de que essa vontade EXISTE, em primeiro lugar.

A descoberta de que essa “vontade” está lá não costuma ser um processo fácil, mesmo para aqueles que não são religiosos. Vivemos em uma sociedade homofóbica, em que destoar do padrão “homem com mulher” equivale a sofrer pressões e repreensões, enfrentar preconceitos – inclusive os nossos próprios – e até mesmo atos de violência. Diante disso, não chega a ser inesperado que o gay que recentemente se descobriu assim anseie “por se tornar hétero”, porque, afinal, quem quer passar por sofrimentos?

A constatação dessa realidade faz com que muitos na igreja, e fora dela, acreditem assim que possibilitar “tratamentos”, espirituais ou não, para permitir à pessoa alcançar essa meta é uma demonstração de caridade e piedade humana – e, alguns, nutridos desse ideal de compaixão, chegam a apoiar teses como a do recente projeto de Decreto Legislativo que quer derrubar a proibição de psicólogos oferecerem tratamentos objetivando a “cura da homossexualidade”, em discussão no Congresso.

Existem, porém, outras três verdades nuas e cruas. Uma delas é que a ciência – que deve pautar a ação do psicólogo enquanto profissional – já tentou a via da “cura”, sem sucesso, conforme demonstram bastantes evidências, que se acumulam de décadas atrás até hoje. A segunda é que esses tratamentos, e incluo aqui os espirituais, costumam mais piorar do que melhorar a psique das pessoas. Reprimir um desejo legítimo não acontece sem se pagar um preço – e não é difícil imaginar quão pode ser difícil e tensa uma vida em que o policiamento contra uma força tão legítima e primária é a regra.

A terceira verdade nua e crua é que basta arranhar a superfície para saber que não é a homossexualidade o problema, mas a homofobia: se a sociedade facilitasse a vida dos gays, em vez de os recriminar, se os pais deixassem o amor por seus filhos falarem mais alto, quem negaria que, em vez de tentarem “virar héteros”, tantos gays não tentariam viver uma vida plena e harmônica com sua sexualidade, sem sofrerem perseguição por causa disso?

No entanto, quero aqui falar do segundo ponto, o preço por viver uma vida reprimindo um desejo. Para isso, vou retomar o primeiro parágrafo: por que é uma enganação que as igrejas e os cristãos defendam que é possível ser “ex-gay”? Porque, além de ser, no mínimo, questionável falar em “ex-“, diante dos conceitos esclarecidos até aqui, muitas vezes, esses mesmos cristãos e suas igrejas não sabem, e nem mesmo fazem questão de saber, do preço que pagam essas pessoas.

A história de uma conhecida minha, que me motivou a escrever este artigo, não será revelada em detalhes, a fim de manter intacta sua privacidade e seu sofrimento. Basta saber que, depois de ter se casado e ver sua vida sexual com o marido com quem tivera filhos decrescer em qualidade por um certo período de tempo, pelo qual ela culpava a si mesma, descobriu que seu marido a traiu com outro rapaz. Os personagens são evangélicos.
Não se pode negar o sofrimento por que ela passou e tem passado, embora tenha tido a grandeza de enxergar nisso uma libertação: não era “culpa” dela, afinal – e, aqui, a tendência dos moralistas de plantão é enxergar no ex-marido um pulha, que não soube honrar o casamento e destruiu a família com as próprias mãos.

Uma análise mais aprofundada, no entanto, mostra que essa é uma situação em que não existem verdadeiros vilões. Criado em uma família evangélica e extremamente conservadora, o marido – de quem sempre desconfiei graças a meu “gaydar” –, certamente não teve uma vida mais fácil, ainda mais diante dos olhos de quem, como eu, descobriu na própria carne como é difícil se perceber gay e ser evangélico.

Como terá sido a vida desse moço, obrigado a recusar a si mesmo o benefício de procurar uma vida mais completa condizente com seu desejo, em nome de estar fazendo o que “Deus queria”? E como deve estar sendo essa situação, ao ter percebido que, pelo fato de o desejo, por tanto tempo reprimido, ter cobrado a fatura que ele não conseguiu pagar, ter magoado tantas pessoas ao mesmo tempo, inclusive a mulher que certamente amou (sim, porque há muitos casos de gays que foram casados com mulheres que efetivamente amaram suas esposas, até por existir, nos ensinam os gregos, mais de um tipo de amor)?

Agora, não haverá ninguém, especialmente em sua igreja, para ver seu lado e apoiá-lo. Desprezado por todos, culpando a si próprio e sozinho, ele ainda poderá enfrentar a ira evangélica e da família, se descobrirem a realidade dos fatos, por ter cedido aos “desejos de Satanás”, quando Satã não tem nada a ver com a história. O que há aqui, para quem, como eu, já está mais do que escolado, são seres humanos às voltas com suas escolhas, algumas delas indevidas frente ao desejo e sua própria natureza, e uma religião patentemente insensível a essas demandas, que prefere o sofrimento calado de um homem para manter as aparências e dogmas do que propiciar a esse ser humano uma alternativa de harmonizar sua sexualidade e seu sentimento religioso. Será que ele é mesmo o pulha?

Na minha concepção, se minha conhecida poderá se recuperar com certa velocidade do baque – quem sabe, encontrando outro homem que a faça feliz e a deseje sexualmente de verdade –, a situação do marido é bem mais complicada, e, se ele não tiver ajuda para se libertar dos dogmas religiosos, pode piorá-la, envolvendo-se em “tratamentos”. Quem sabe, caindo em intensa depressão, não tente uma alternativa ainda mais “concreta”, que poderia atender pelo nome de drogas ou suicídio...

Essa verdade nua e crua e FEIA é só uma das que se escondem por trás das histórias dos “ex-gays”, mas, convenientemente, muitos pastores e suas igrejas fazem questão de não abordá-la em seus cultos evangelísticos transmitidos nas televisões de concessão pública. Quem conhece esse lado somos nós, outros gays, que pouco temos voz, e estamos igualmente sozinhos, procurando ajudar aqueles que passaram por martírios que, às vezes, nós também já experimentamos.

Certamente, o marido será apresentado como um “falso crente”, quando a única coisa falsa aqui é o dogma religioso e sua promessa de “ex-homossexualidade”, ou ainda, a falsa promessa de que a felicidade real só se encontra em um casamento hétero, “de acordo com a vontade de Deus”.

A história que acabo de relatar me fez lembrar de outra, talvez o primeiro caso de “ex-gay” com quem tive contato, quando eu contava com cerca de 18 anos. Francisco era o nome dele, gay efeminado que costumava ir a certa praça em minha cidade “caçar”, como eu à época, companhias masculinas.

Soube por amigos em comum que Francisco se convertera à CONGREGAÇÃO CRISTÃ NO BRASIL e, após se submeter a “aconselhamentos” e sessões que beiravam o exorcismo, estava noivo de uma mulher da igreja. Tentei argumentar com ele, mas diante de sua convicção inabalável, não me restou alternativa a não ser me resignar – apenas para, cerca de nove meses depois, reencontrar Francisco, já casado, novamente procurando companhias masculinas no mesmo lugar.

Uma conversa foi bastante reveladora. Deprimido, ele argumentou ter tentado de tudo, sem sucesso, e que “esse negócio de cura não existia”. “Pois é”, respondi eu, “mas agora você envolveu outra pessoa, que está em casa te esperando. Como é que fica?”. “Como é que fica”, pergunto eu, se, numa dessas, ele sofresse uma violência, ou se, tomado de intenso e cego desejo, descuidasse de sua proteção e pegasse algo e o transmitisse à mulher?

Novamente, veríamos o Francisco como o vilão, que enganou a todos... Mas será que não foi ele o enganado? E será que não foram os fiéis da igreja os enganados? Quem duvida de que Francisco foi apresentado como um caso de “restauração pelo poder de Deus”, por “ter sido gay” e agora estar casado? Talvez ele fizesse até uma ponta no programa de Silas Malafaia – e, no entanto, novamente, somos nós, outros gays, que temos de lidar com esse lado escuro e feio do que as igrejas gostam de mostrar em seus shows evangélicos.

Francisco e o ex-marido de minha conhecida não eram e não são pessoas de má índole, como certamente não o são suas mulheres. Podem ter “errado”, se considerarmos “erro” a “traição” sem levar em conta seus motivos – operação ESTA que eu, particularmente, considero o verdadeiro erro –, mas eram humanos devotos, convictos da ação do evangelho em suas vidas e de seguirem o desejo de Deus.

Só nos resta perguntar que Deus é esse, que deseja e prefere a mentira em vez da verdade, a aparência em vez da harmonia, a traição em vez da cumplicidade, o dogma em vez da felicidade, o sofrimento em vez da plenitude, como se a homossexualidade fosse um erro, em vez de uma via possível para se estar bem consigo mesmo... Um Deus que prefere ver um “ex-gay” sofredor e em uma luta inglória a um gay feliz, arrastando junto ao primeiro uma família inteira. Se é esse o Deus que a igreja acredita, lamento: o meu não é assim – e ainda me perguntam por que eu decidi abandonar os templos, enquanto outros querem restaurar a “cura gay” psicológica via canetada no Congresso...

20 comentários:

Guiomar Barba disse...

João, li com cuidado, atenção, comendo cada palavra e buscando o sentido real de cada uma. Confesso que meu coração se parte cada vez que leio algo semelhante.

Queria te dizer que sou evangélica e sei que no meio evangélico não tem havido entendimento correto de como agir com um gay que se apresenta desejando uma mudança de vida.

Te faço uma pergunta: um gay que chega para você chorando e dizendo que gostaria de casar com uma mulher, gerar filhos com ela, que tem inveja quando ver uma família hétero e sofre com o contrário, deveria deixar de ser ajudado na busca por a identidade que ele deseja?

No caso de repressão, eu diria que existem muitos gays reprimidos pelo fato de viver uma identidade que ele não escolheria se tivesse oportunidade.
Muitos deles sofrem repressão ao dizer que querem ser héteros.

Eu não quero polemizar, não quero agredir, nem ser agredida ao expor meu pensamento, mas gostaria de poder debater mais com vocês este tema. Beijo.

Guiomar Barba disse...

Quanto a questão do que você relatou sobre Exodus, a interpretação não é exatamente esta que você deu.
Tenho um amigo que participa de todos os congressos do Exodus, ele foi travesti, hoje é casado e muito bem casado e ele pode explicar bem qual a interpretação do Exodus, ele vai procurar contato com a Roz através do face dela. Creio que a Roz já teve algum contato com ele, é o Carluca.

Joao Marinho disse...

Guiomar, eu não deixaria nunca de ajudar um gay, nem mesmo um que chegasse para mim chorando, por invejar uma família hétero: todos merecem ajuda.

Mas, até por ser evangélica, você deve saber, mais do que a média das pessoas, que a verdadeira ajuda se constitui, em primeiro lugar, em se pautar pela verdade - e a verdade da orientação sexual é que ela não é mutável como as igrejas gostam de pregar.

Assim, a verdadeira ajuda acontece no momento em que vc olha para o outro e vê o que está por trás do pedido que ele lhe faz. Por que ele quer casar com uma mulher? Por que quer ter filhos com ela? Por que inveja a família hétero?

Não raro, será percebido, e você pode até mesmo conversar com bons psicólogos para ver, que o que existe é um sofrimento por parte da pessoa homossexual por viver numa sociedade homofóbica, cercada de preconceito e por ter absorvido um modelo de felicidade como se não houvera outro.

A verdadeira ajuda, portanto, consiste em questionar esse modelo, questionar o preconceito, questionar os porquês - e mostrar a essa pessoa as possibilidades de ser feliz dentro daquilo que a natureza, e, no limite, Deus lhe deu. É um processo mais trabalhoso, mas do qual me orgulho de já ter empregado, e sempre com muita felicidade ao fim.

"Ajudar" a pessoa a buscar uma identidade sexual que não é dela é optar pelo caminho mais fácil. Pela ajuda mais confortável (até pelos próprios valores do ajudador), pelo conforto social que isso causa - mas, sem questionar os porquês, o que será da pessoa SE chegar a essa identidade que deseja - e, mais ainda, quando perceber que esse ideal não será atingido, porque não confere com seus verdadeiro ser? O que causou aquele desespero por "mudança" não foi resolvido, não foi trabalhado, não foi ajudado. A crise não irá embora - e a ajuda, que se pautou na superfície, resulta em mentira e mais sofrimento, não raro, envolvendo outras pessoas inocentes. Razão do texto que escrevi. Os remédios, médicos sabem bem, não são sempre os mais confortáveis, e, por vezes, são os mais amargos. E se olhar no espelho é um dos mais amargos, mas necessário, em vez de se buscar uma mudança apenas com base na superfície.

Sobre ser ex-travesti é até possível: basta não tomar mais hormônio, e sua identidade de gênero é dúbia, mas a realidade da atração é outra, não obstante ocorra o casamento: além de que, há travestis héteros. A interpretação da Exodus está correta, sendo a mais recente, em finais do ano passado.

Guiomar Barba disse...

João, o que eu desejei questionar foi que a repressão pode ser de ambos os lados: por querer assumir e encontrar uma parede a sua frente ou vice versa.

O fato de ajudar apenas quando éramos solicitados por livre vontade do individuo, era uma questão sine qua non na nossa missão. Se alguém nos procurasse porque seus pais ou sociedade o pressionava, nossa orientação era que a escolha deveria ser pessoal.Portanto, este não é o ponto...

Você disse: ""Ajudar" a pessoa a buscar uma identidade sexual que não é dela é optar pelo caminho mais fácil. Pela ajuda mais confortável (até pelos próprios valores do ajudador),"

Discordo plenamente de você, quem se propõe a fazer um trabalho sério nesta área, tem que sofrer muitas dores e derramar muitas lágrimas, falo com convicção de quem já padeceu muito.

Guiomar Barba disse...

Você disse: "Sobre ser ex-travesti é até possível: basta não tomar mais hormônio, e sua identidade de gênero é dúbia, mas a realidade da atração é outra, não obstante ocorra o casamento: além de que, há travestis héteros. A interpretação da Exodus está correta, sendo a mais recente, em finais do ano passado"

Não necessariamente todo travesti toma hormônio>
O ex travesti do qual lhe falei, está casado creio que faz três anos, ele nunca havia se envolvido com uma mulher antes, e ele casou aos 48 anos, se não me engano. Ele me falou que ter relações com um homem é como se masturbar, mas com a esposa ele tem uma relação bem mais gostosa.

Quanto ao Exodus, vou lhe explicar melhor, com tempo, qual a tradução correta para a publicação, inclusive, penso como eles.

Joao Marinho disse...

Guiomar, o próprio relato que escrevi fala de alguém que conheci que tinha a livre vontade de "mudar de orientação": o Francisco. O relato conta também o que aconteceu depois.

O fato de haver uma (suposta) livre vontade do indivíduo não significa que não haja raízes mais profundas por trás dela. E também não significa que se deva deixar de observá-las.

O ministério a que vc se refere pode ter muitas lágrimas - mas ainda assim é o caminho mais fácil. É o caminho mais fácil porque, no fim das contas, a execução de todo o processo se dirige à conformidade do que crê o ajudador. No que diz respeito aos evangélicos, que "Deus criou o homem para a mulher", o casal para ser heterossexual, e o casamento para fechar os laços entre eles e gerar descendência.

Mesmo com as lágrimas, persiste, portanto, a ideia e o sentimento de se estar realizando "a vontade de Deus" - enquanto que trabalhar com a outra proposta, e até mesmo questionar esses pressupostos, isso, sim, é mais difícil. Porque se trata não apenas de ajudar quem precisa - mas de a própria pessoa que ajuda questionar seus valores e dogmas religiosos. Garanto para você que as lágrimas, as dúvidas, as incertezas seriam maiores sem ter a Bíblia (supostamente) como guia e a doutrina, ainda que equivocada (como é), como farol. E isso é algo que muitos poucos evangélicos estão aptos a fazer.

Alguém pode argumentar que eu estaria na mesma situação, já que, ao ajudar algum gay a estabelecer uma egossintonia com sua orientação, eu também estaria num caminho mais fácil, uma vez que eu sou gay. Mas isso é apenas ser parcial com a história, pois eu já fui evangélico e tive de trilhar um longo caminho para estar onde estou, fazendo esses questionamentos que vão muito além do que propõe os ministérios de "cura" ou "reorientação sexual" - ou do que têm coragem de fazer.

Sobre o caso da ex-travesti a que vc se refere, permanece o que escrevi. Travesti pode ser algo ligado à identidade de gênero ou a um fetiche. Se for fetiche, não é necessariamente impossível deixar de exercitá-lo, ainda que faça falta (é o que ocorre com as crossdressers). Se é identidade de gênero, a questão é mais profunda, pois ninguém muda identidade de gênero com decisão racional: mas a identidade de gênero da travesti é, em si mesma, dúbia, homem e mulher ao mesmo tempo, de maneira que, em alguns casos, vivê-la em um lado dos espectros não é impossível. Há casos de ex-travestis mesmo sem nenhuma abordagem religiosa. Eu mesmo tendo dois conhecidos assim: ex-travestis que hoje são gays e adotam identidade masculina.

Joao Marinho disse...

Outra coisa, no entanto, é a questão da atração sexual, a orientação sexual. Ser travesti não significa, embora o senso comum diga, ter atração pelo mesmo sexo biológico. Travesti, transexual, cisgênero é identidade de gênero. Gay, hétero, bi é orientação sexual.

Uma coisa não leva a outra: a pessoa pode ser travesti, tendo nascido homem (identidade de gênero), e poder ter atração sexual por mulheres (orientação sexual).

Portanto, se eu fosse analisar em bases objetivas o caso de ex-travesti a que vc se referiu, eu diria que ele nunca foi, de fato, homossexual (tendo em conta que o que define é o desejo, não a prática do ato) - pois um homossexual jamais diria que a relação com outro homem seria equivalente "a uma masturbação".

Essa ex-travesti a que você se refere provavelmente era bi, ou mesmo hétero, tendo, então, encontrado nas mulheres a complementaridade que sempre buscou - e tendo se relacionado com homens em um contexto de egodistonia (prática sexual em discordância com orientação sexual), ainda que não tivesse plena ciência de sua atração por mulheres.

Sendo assim, não é de admirar que hoje se sinta realizado, pois é justamente esse o resultado quando a pessoa sai de uma egodistonia para entrar em uma egossintonia (contexto em que a prática sexual condiz com a orientação sexual preexistente).

É precisamente este o efeito que se faz presente no gay que casou com uma mulher por causa de preceitos religiosos, ainda que de livre e espontânea vontade, e depois de superar seus próprios medos e preconceito, assume-se e encontra a felicidade nos braços de um outro homem.

Sendo assim, infelizmente a verdade é que, malgrada a boa intenção que alguns evangélicos manifestam, o que se faz nesses ministérios, ao se propor a "reorientação sexual" sem o devido questionamento dos porquês, das raízes - e agir de acordo com essa descoberta de raiz - é inserir uma egodistonia onde poderia haver uma egossintonia, e, portanto, criar um distúrbio de motivação sexual onde poderia não haver. E a base para isso é uma interpretação bíblica - e não o devido entendimento da natureza humana que, malgradas as lágrimas que vc e outros derramaram, acredite, é muito mais difícil.

Joao Marinho disse...

E, sim, eu sei que nem todas as travestis tomam hormônio, embora seja prática corrente.

Guiomar Barba disse...

João, novamente você não respondeu a minha primeira questão "No caso de repressão, eu diria que existem muitos gays reprimidos pelo fato de viver uma identidade que ele não escolheria se tivesse oportunidade.
Muitos deles sofrem repressão ao dizer que querem ser héteros."

Quanto a questão de você afirmar que o Carluca nunca foi homossexual porque hoje está casado com uma mulher e realizado, já é de se esperar. Quando não há uma prova visível, o subjetivo sofre a describilidade.

Te conto que ele não é o único que conheço que está casado e feliz. Temos muitos outros exemplos e todos eles lutaram com afinco, sabendo que as grandes dificuldades seria dizer não a natureza carnal, mas eles venceram porque foram firmes na determinação.

Para mim, é muito simplista dizer simplesmente que eles nunca foram homos...

Joao Marinho disse...

Guiomar, minha observação sobre a ex-travesti, em primeiro lugar, se baseia no que vc mesmo escreveu - e não pelo fato de ele estar casado e feliz.

Uma pessoa que se sente de fato atraída por alguém, e envolve nesse âmbito a afetividade (porque orientação sexual envolve o afeto, pode verificar nos estudos psicológicos), jamais diria que se relacionar equivaleria a uma masturbação: trata-se de uma perspectiva do prazer que demonstra que ele não era completo e, dependendo da visão, até certo ponto, desagradável.

Foi esta informação, que vc mesma forneceu, que me fez propor que a homossexualidade do Carlos talvez não fosse de fato sua orientação sexual - e não o fato de ele estar casado e feliz hoje. Aliás, isso ficou suficientemente claro no meu comentário anterior.

Sobre os outros casos que vc tem que são "casados e felizes", não posso comentá-los, por não conhecer. O que sei é que é possível encontrar a felicidade mesmo na adversidade e mesmo apaixonar-se por alguém não condizente com sua orientação sexual por uma identificação espiritual, psicológica, de sentimentos.

Casos há de gays que, mesmo sem a igreja, foram casados e amaram suas esposas, com quem dividiram um bom relacionamento. Muitos são pais - e você pode procurar informações sobre isso na biografia de pessoas conhecidas, como Luiz Mott e Sergio Viula, o último, inclusive, que já participou de grupos de ex-gays.

Isso não significa, no entanto, que a orientação seja alterada. Há sempre uma falta, um desconforto, ou antes, algo a ser combatido, como, por sinal, está implícita em sua mensagem: "lutar contra a natureza carnal".

O texto que escrevi é justamente para mostrar que essa luta é inglória, desnecessária, traz infelicidade (mesmo no contexto de um casamento feliz, aquele elemento que desconforta) e um sofrimento desmedido para poder ser alcançado - quando a maioria nunca consegue e muitos que dizem conseguir suprem sua necessidade de outra forma, alguns em encontros escusos fora das vistas daqueles que pensam que vivem um casamento perfeito.

E tudo isso para quê? Para satisfazer a vontade questionável de um Deus que prefere a luta contra a natureza (porque a natureza da pessoa é ser homossexual, e não o inverso) e uma dose de sofrimento e luta contínua para satisfazer a um modelo de felicidade que poderia ser outro por conta de dogmas religiosos.

Lamento, mas isso é de uma crueldade absurda. E a única coisa que tenho a fazer é que essas pessoas que procuraram seu ministério de livre e espontânea vontade não tenham encontrado uma ajuda real, adequada, verdadeira, que lhe fizesse harmonizar vida e sexualidade - mas estimular a vivência em dissonância com seu eu-interior, ainda que prometendo uma felicidade (por causa disso, incompleta ou questionável pelo elemento desarmônico) no fim do processo: um processo, no mais das vezes, bastante sofrido, já que ninguém luta contra sua própria natureza sem pagar um preço, como inclusive está no texto que originou essa discussão.

E todas as suas perguntas foram respondidas. Quer pelo texto, quer pelos comentários. Basta apenas prestar atenção nelas. Sinto dizer, mas ao lançar um gay numa busca por uma heterossexualidade questionável que jamais será verdadeiramente alcançada não é ajuda. É falta de modéstia e até crueldade religiosa.

Joao Marinho disse...

Eu efetivamente lamento por essas pessoas que conseguiram essa "ajuda ministerial", em vez da ajuda que privilegiasse a harmonia do exterior com o interior.

Sinceramente, não duvido de que, como muitos antes deles, provavelmente encontrarei a algumas em esquinas da vida, vivendo relações homossexuais sem qualidade, sem complementaridade, sem afetividade, sem toda a potencialidade que uma relação amorosa entre homens, de fato, pode ter. Coisa que, por sinal, tem acontecido frequentemente nesta minha vida e nos meus encontros.

Uma pena você ser mulher. Se fosse homem e lhe permitissem entrar em lugares próprios de frequência para sexo homossexual anônimo, ficaria espantada com a quantidade de "casados e felizes" que a ele se dedicam, muitos sem os devidos cuidados com sua saúde.

Isso nunca vai aparecer na igreja. E também nunca vão aparecer as crises, o momento em que a luta faz cansar, o momento em que a determinação fraqueja, o momento da dúvida, o questionamento interior, o eu que pede para ser libertado e a decepção por ter de continuar a batalha indefinidamente, como tantos "ex-gays" que conheci fora da máscara social e que você pode encontrar facilmente bastando raspar a superfície. Quantos Franciscos não há por aí, sem que você saiba...

Mas, se ao raspar a superfície, isso levará ao questionamento dos dogmas religiosos, à assunção de que a felicidade é possível em outros modelos e à percepção de que não é verdade de que o desejo de Deus passe por tamanho sofrimento para satisfazer a um modelo dissonante com a realidade do desejo da pessoa, fica a pergunta: quantos evangélicos teriam essa coragem? Até hoje, muito poucos encontrei.

Guiomar Barba disse...

João, ele só descobriu que ter relação com um homem é como masturbação, após se relacionar com uma mulher...

Lutar contra a natureza carnal é uma constante em nossas vidas quando queremos dizer não a tudo que fere a nossa consciência cristã. Quando esta decisão é consciente e a escolha é nossa, cada vez que resistimos ao pecado, sentimos profundo gozo no espírito. É incrível como nos sentimos fortalecidos.

O fato de um homem casado se relacionar com um gay, não determina a sua felicidade da alma. Sexo é um prazer da carne e muitos fazem sexo pelo sexo apenas. O prazer da carne nos leva ao delírio, não necessariamente a felicidade.

Você até agora escreveu muito, rsrs, mas não me respondeu a questão: "No caso de repressão, eu diria que existem muitos gays reprimidos pelo fato de viver uma identidade que ele não escolheria se tivesse oportunidade.
Muitos deles sofrem repressão ao dizer que querem ser héteros."

Sei no entanto, que a resposta é única, repressão existe de muitas formas. Ninguém escapa delas...

Ex.: Um homem ou mulher ambos casados podem se apaixonar(eu disse se apaixonar) por uma pessoa de sua amizade, mas simplesmente por amor ao seu parceiro(a) dizer não a paixão e vencê-la, ainda que tenha que lutar. Reprimir a paixão. Para isto somos racionais.

Joao Marinho disse...

Guiomar, o que entendo que vc está fazendo é tentando usar o caso da ex-travesti para tentar justificar seus dogmas, o que é uma pena. Fica uma tentativa no "ar", de, como prega a igreja, querer justificar, via esse relato, que a relação completa só existe entre homem e mulher, como querem acreditar com base na Bíblia, quando não é assim.

O que posso dizer é que, se você estiver certa, provavelmente então eu também estou: e a ex-travesti encontrou sua verdadeira orientação sexual, entrando na egossintonia. Um golpe de sorte, o que no entanto não significa alteração de orientação sexual, de qualquer maneira.

Longe de isso ser uma posição confortável, como pode parecer à primeira vista, é uma posição calcada na realidade - e com o desconforto, para os evangélicos, que ela é válida nos dois sentidos. Recentemente, um casamento na igreja terminou após a mulher sair com outra e experimentar com ela essa mesma complementaridade e felicidade irrestrita que você relata e que jamais experimentou com o marido. Longe de significar que ela "mudou" de hétero para lésbica, ela na verdade se descobriu lésbica - e, como no caso de seu amigo, entrou em egossintonia. É desconfortável para os religiosos, porque se trata do segundo resultado lógico do que se propõe - mas que eles rejeitam, porque sua religião não permite considerar que tal complementaridade possa existir em relações que, supostamente (já que há outras interpretações teológicas nesse sentido), são antinaturais e condenadas por Deus. E, no entanto, a realidade está aí.

Sobre o que você me perguntou, está no texto, e me impressiona que, se vc se esforçou por beber cada palavra, não tenha encontrado: "no caso de repressão, eu diria que existem muitos gays reprimidos pelo fato de viver uma identidade que ele não escolheria se tivesse oportunidade. Muitos deles sofrem repressão ao dizer que querem ser héteros".

O texto que publiquei no blog da Anja lhe responde: "A descoberta de que essa 'vontade' está lá não costuma ser um processo fácil, mesmo para aqueles que não são religiosos. Vivemos em uma sociedade homofóbica, em que destoar do padrão 'homem com mulher' equivale a sofrer pressões e repreensões, enfrentar preconceitos – inclusive os nossos próprios – e até mesmo atos de violência. Diante disso, não chega a ser inesperado que o gay que recentemente se descobriu assim anseie 'por se tornar hétero', porque, afinal, quem quer passar por sofrimentos?

A constatação dessa realidade faz com que muitos na igreja, e fora dela, acreditem assim que possibilitar 'tratamentos', espirituais ou não, para permitir à pessoa alcançar essa meta é uma demonstração de caridade e piedade humana – e, alguns, nutridos desse ideal de compaixão, chegam a apoiar teses como a do recente projeto de Decreto Legislativo que quer derrubar a proibição de psicólogos oferecerem tratamentos objetivando a 'cura da homossexualidade', em discussão no Congresso".

Ora, Guiomar, leia e interprete. Todo gay sabe que a descoberta da homossexualidade em uma sociedade homofóbica não é fácil. O processo de aceitar a si mesmo, de harmonizar o desejo com a vida e de perceber a orientação como uma bênção, e não como uma maldição, requer questionamento de valores - e por isso, como diz o texto, não é de se estranhar que muitos queiram ser héteros, ou mesmo declarem que não escolheriam ser gays, se pudessem. Eu mesmo já tive esse discurso, embora hoje eu diga, não sem orgulho, que escolheria ser gay, sim.

De onde você acha que eu retirei essas informações que estão no texto, se não de experiências concretas, reais, verdadeiras e interativas com outros gays - e mesmo de meu trabalho como militante e ativista independente? E, se assim o é, a resposta está clara: essa repressão a que você se refere é um pseudoargumento, que não encontra base na realidade.

Joao Marinho disse...

Boa parte dos gays, no processo de autodescoberta, declara em algum momento querer ser hétero ou que não escolheria ser gay. E é com base nisso, inclusive, que se sustenta o que chamei de ajuda verdadeira, como, aliás, tentei fornecer ao Francisco. Se houvesse essa repressão a que vc se refere, isso seria impossível. Eu diria que se trata de um ato de fé da sua parte, para tentar justificar uma piedade do ministério, que, no entanto, é falha numa análise mais profunda.

Você quer mesmo saber o que é repressão? Pegue um gay religioso que declara que quer continuar seguindo a Deus e ao cristianismo SENDO gay, dentro da igreja - e aí depois conversamos...

Joao Marinho disse...

Por fim, e encerrando minha participação, quero deixar claro que o processo de descoberta da orientação sexual pode ser longo, mas deve ser espontâneo. E não governado por dogmas.

Guiomar Barba disse...

Lamento que você tenha julgado que estou usando um caso isolado... Durante vinte anos trabalhei nesta área também, portanto, foram centenas e centenas de homos que nos buscaram porque queriam assumir a sua identidade masculina. Se falo do Carluca, é porque tenho contato com ele constante.

Meu querido João, dizer que a nossa sociedade é homofóbica, quando centenas e centenas ou quem sabe milhares de NÃO gays, mas simpatizantes vão apoiar as passeatas gays... quando as novelas da poderosa globo diviniza os gays em detrimento de héteros... quando em todo segmento da sociedade temos gays atuando, é querer fechar os olhos para uma realidade que se torna palpável.

A fobia sempre estará presente entre nós humanos. Assim como os gays já foram demasiadamente perseguidos, foram as mães solteiras, os evangélicos os negros, os paupérrimos. Os gays de hoje podem se dar por felizes, porque as coisas têm mudado tanto que eles tem ditado leis no congresso e conseguido para si uma proteção que nem um segmento no Brasil conseguiu jamais.

João, não estou presa a dogmas, a própria anatomia do ser humano, a única forma de gerar filhos, o fato de não haver cromossomos gays, tudo indica que o modelo marido e mulher é o correto. Se vivêssemos mais e mais anos, descobriríamos apavorados que estávamos cansados, entendiados do sexo hétero, gay, grupal, talvez partissem para o animal o que logo cansaria também a espécie humana. Sexo não preenche a sede de Deus que todo ser humano tem, ele atende apenas o prazer da carne.

Joao Marinho disse...

Guiomar, gays, no Brasil, não têm os mesmos direitos que héteros: sequer podem casar.

Mais de 300 foram mortos no ano passado única e exclusivamente por serem gays, ou em que sua homossexualidade excitou requintes de crueldades.

Em muitas profissões, não podem se assumir. São expulsos de casa pelos pais, sofrem preconceito da própria família, piadinhas na rua e agressões físicas ou verbais.

Isso caracteriza uma sociedade homofóbica, e se vc trabalhou 20 anos com homossexuais, deveria estar a par disso - porque, não raro, é um dos motivos que os faz "desejar" assumir uma identidade hétero (e não "masculina", porque gays já a têm, mesmo os mais efeminados), para terem uma vida "mais tranquila" sem enfrentar o preconceito.

Você tem 20 anos de trabalho com gays? Bom, lamento, eu sou gay desde que nasci, há 34. E garanto que já vi essas "centenas de casos bem-sucedidas" resultarem no que diz o texto, nas saunas, sex clubs, cinemas pornôs e esquinas da vida - mas, como comentei mais em cima, que evangélico terá a coragem de olhar para baixo da superfície e questionar seus dogmas religiosos, não é? Uma pena que você não seja um deles, porque questionar não é a posição mais confortável, como também citei.

Bom, este é meu último comentário a título de "post scriptum", mas não podia deixar de fazê-lo diante do argumento falacioso do "tempo de trabalho". Não posso desejar, infelizmente, sorte no seu ministério: desejo sorte aos que nele entram, para que um dia assumam sua verdadeira orientação e possam se libertar das amarras religiosas e de um Deus que não tem nada a ver com o Deus bondoso em quem creio.

De minha parte, continuarei prestando a ajuda verdadeira, também citada mais acima.

Joao Marinho disse...

Só para esclarecer uma coisa importante. Duas, na verdade, sobre as estatísticas colhidas pelo GGB, antes de surgir a falácia de que "o Brasil não é homofóbico porque morrem mais negros, héteros, pobres, idosos, etc. que gays".

1- As estatísticas do GGB não são oficiais. Baseiam-se em notas que saem na imprensa e, portanto, certamente o problema é mais amplo que elas apontam. Mais crimes de ódio homofóbico existem, uma vez que a imprensa não dá conta, nem tem como dar, de todo o universo da questão. Atento a isso, o governo federal já começou a tentar implementar uma estatística oficial, por meio de notificação. E, se mesmo assim, temos 300, então dá para imaginar a magnitude do problema...

2- As estatísticas do GGB NÃO INCLUEM homicídios tradicionais. Nos milhares de assassinatos e morte que acontecem no Brasil todos os dias, há negros, mulheres, brancos, héteros e GAYS também - a entidade não computa um gay que morreu vítima de assalto, de bala perdida, morto no trânsito, atropelado, ou crime passional tradicional.

Os mais de 300 assassinatos computados pelo GGB têm como motivação ÚNICA e EXCLUSIVAMENTE o fato de a vítima ser homossexual, tendo sido motivado por preconceito. Ou aqueles crimes em que a homossexualidade da vítima excitou requinte extra de crueldade, normalmente com marcadores bem reconhecidos por investigadores, como a introdução de instrumentos no ânus (empalamento) e a emasculação.

Não há, no Brasil, 300 héteros que foram mortos e/ou trucidados exclusivamente por serem héteros - sem falar as agressões não fatais, como as que ocorrem no Nordeste e em São Paulo, na região da Paulista/Augusta, por exemplo, ou será que já vimos alguém atacar outro com uma lâmpada ou pedaço de ferro dizendo "seu heterozinho de m..., a gente vai te matar, pra vc tomar vergonha!".

Então, dizer que, no Brasil, não há homofobia é olhar para a questão, de novo, sem se convidar a ver o que está por baixo da superfície.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Bem esclarecedor o artigo. Realmente as igrejas precisam ser mais cautelosas em abordarem a questão da homossexualidade. Só quem está na pele pode nos contar em detalhes essa luta. Porém, se o gay quer abandonar as práticas homossexuais, o que é um direito legítimo, ele não deveria ter direito a receber um apoio psicológico adequado já que essa escolha lhe trará grandes conflitos mentais? Deve-se ponderar também que a vida de alguém no homossexualismo pode ser conflituosa em vários sentidos.

Joao Marinho disse...

Rodrigo, talvez uma das coisas mais comuns que existam em consultórios psicológicos é de gays religiosos procurando deixar de ser gays. A resolução do CFP nunca proibiu que profissionais atendessem a essa demanda.

Também não cabe ao profissional tomar decisões sobre a vida particular de seus pacientes. Se a pessoa quiser deixar de se relacionar sexualmente com alguém do mesmo sexo, é uma decisão dela.

O deve do profissional, porém, é esclarecer que, para aquela religião, a homossexualidade pode até ser um pecado - mas, para a ciência, não é doença. E, assim, não há nada para ser curado. E se a pessoa decidir deixar de se relacionar sexualmente seguindo sua orientação sexual, esclarecer que isso cobra um preço psíquico.

É precisamente isso que existe nos consultórios hoje. Apoio psicológico adequado. Derrubada a resolução do CFP, na verdade, simplesmente se abrirá as portas para que psicólogos fundamentalistas procurem realizar uma cura que não existe.

É como permitir a médicos que realizem exorcismos.

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