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domingo, 2 de dezembro de 2012

LILITH, O MITO( By Anja Arcanja)




 By Anja Arcanja

O Canto de Lilith (Romulo Narducci)


Sou do desejo a inspiração divina,
Dos homens o paraíso e o inferno.
Não há castelos, presídios ou mosteiros
Que eu não entre furtiva
E semeie o desejo pleno.

Penetro mentes em doces devaneios,
Invado corpos em frenesis supremos.
O oriente conclamou-me religião,
O ocidente devotou-me maldições.

Inspirei Sade em seu clastro,
Tentei Cristo e Sidarta.
Não há quem não resista ao meu abraço,
Não há quem não sinta o fio da adaga,
E aos conjurosos movimentos de meus quadris
Não se entregue ao meu beijo perdido.

Beije-me e terás a morte dos sentidos!


Lilith... um mito que precede o folclore judaico, pois é de origem Suméria, sendo a resplandecente "Rainha do Céu", seu nome, “Lil” sinônimo de “ar” ou ‘tormenta”. Segundo Engelhard, a figura feminina de Lilith está presente nas mitologias sumerianas, babilônicas, assíria, Cananéia, hebraica, árabe, persa e teutônica, mas, é rejeitada pela cultura e religião judaica sobremodo,  tradicional, machista e patriarcal (redundância intencional). Mas o mito ganhou força mesmo nas lendas folclóricas assírio, babilônica e  hebraica, habitando sempre os desertos e, na cultura hebraica, após abandonar a Adão fugiu para o deserto,  onde teve turbulentas aventuras eróticas com anjos caídos e se firmou como demônio. Lilith profanou o nome de Deus e, habitava nos desertos no em torno ao mar vermelho, onde também habitam os demônios e espíritos malignos, segundo a tradição hebraica, é um lugar maldito! Com sua sede de vingança, ceifava a vidas dos viajantes que passavam, mantendo com eles relações sexuais e após o coito, decepava-lhes o pênis apenas com a força da vagina. Reza a lenda que Lilith era capaz de gerar 100 filhos por dia! Incubus, quando masculinos e sucubus quando femininos. Eram demônios com poderes vampíricos e daí surgiram as lendas dos vampiros.  Nas lendas judaicas onde impera o machismo e o regime patriarcal, Lilith é sempre vista de forma negativa, enquanto Eva, é apresentada como dona de uma singular beleza e de qualidades impares e sempre, SUBMISSA.

São inúmeros e divergentes os relatos orais e escritos sobre o mito Lilith. Samael Aun Weor, fundador do Movimento Gnóstico Cristão Universal diz que Adão teria tido duas esposas originalmente: Lilit e Nahemah. Para Samael Aun Weor, “Lilith é a mãe dos abortos, da homossexualidade e, em geral, de toda classe de crimes contra a natureza. Nahemah é a mãe da beleza maligna, da paixão e do adultério”.  Por isso, ambas refletiriam o que os esotéricos gnósticos chamam de infrassexualidade, que é tratada pelos gnósticos, como toda a relação “contrária” a natureza humana, como por exemplo, PARAFILIAS, COMPULSÕES, FIXAÇÕES, PERVERSÕES, FETICHES, FANTASIAS e demais “desvios” em relação ao que se considera sexualidade "normal". É um demônio!

É impossível não fazer uma análise do mito de Lilith em relação ao surgimento da inquisição na Idade Média; pois estão intimamente ligados. No tribunal do Santo Ofício os inquisidores consideravam como bruxa toda mulher que demonstrasse algum tipo de rebeldia contra a ordem patriarcal. A rebeldia era o primeiro sinal de bruxaria. Se a mulher fosse ruiva ou albina, o inquisidor não tinha mais dúvida que estava realmente diante de uma bruxa. O julgamento era precedido de torturas e, durante o julgamento a mulher era torturada in extremis até confessar suas relações com o demônio. Quando esta confissão ocorria os inquisidores aumentavam as torturas até que a mulher confessasse que mantivera relações sexuais com o demônio. Estas supostas relações sexuais eram descritas com riquezas de detalhes eróticos o que transformava o tribunal do Santo Oficio numa orgia sadomasoquista. A punição de Lilith, por outro lado, reside no seu banimento da comunidade dos homens: no isolamento social e na solidão. Ela deve sofrer as consequências dos seus atos sozinha no deserto. Deve ainda atormentar com sua sensualidade e seu erotismo o sonho casto do santo, daquele que busca ter um coração puro. Nisto consiste a sua maldição. Ela agora não é apenas excluída, é temida. E pela força da sua sensualidade é também desejada. A relação de Lilith com o sexo oposto é marcada pela ambivalência: amor e ódio, atração e repulsão, medo e desejo, prazer e destruição.

Como disse Engelhard:

"Toda a experiência de angústia, que combina opressão, terror, pânico, ânsia, susto, respiração ofegante, frenesi, é a terrível presença de Lilith, que também provoca, com sua força sexual psíquica, orgasmos desenfreados, desejos promíscuos. Porém, logo em seguida, sobrevém grande melancolia, profundo mal estar, sensação de peso e profunda depressão, sentimento de insegurança e desconfiança, com choros súbitos e dores de cabeça, além de moleza nos membros inferiores."

Muitos veem no mito Lilith apenas a luxúria e desenfreado desejo sexual e de onde vem também o desejo pela homossexualidade e é a causa da repulsa pelos cristãos, que, sem ter conhecimento do que representa o mito, o demonizam e até hoje dão aos que, seja por força de um distúrbio ou que seja sua natureza, tem um apetite sexual exacerbado em comparação a maioria comum, estar sendo dominado pelo demônio Lilith, demônio que invade os sonhos masculinos causando-lhes polução noturna ou desejo de masturbação e nas mulheres, desenfreado desejo sexual ou bissexual (este também presente nos homens).

Mas não é apenas assim que Lilith deve ser vista, antes, ela representa o desejo de se compreender a diferença entre os mitos da criação de Gênesis, já que em sua primeira história Genesis 1: 26 - 28, homem e mulher são criados iguais e conjuntamente, enquanto na segunda história, em Gênesis 2: 20 - 25, a mulher é criada depois do homem e a partir de seu corpo. Talvez daí, Lilith, tendo sido feita da mesma matéria prima de Adão, sentindo-se (e sendo) igual a ele, não admitia apenas ser dominada na hora da cópula, mas queria dividir com Adão a tarefa não apenas de nomear a criação, mas quiçá também quisesse zelar do jardim, dividindo igualmente com o homem todas as tarefas; tanto as dele, como as dela e é esta lógica que hoje muitas mulheres veem em Lilith. A luta não por independência, mas por igualdade.

Priscila Pereira, ativista feminista, teóloga e mestrando em ciência da religião, assim descreve Lilith: 

“Lilith, que segundo o mito rabínico, foi a primeira esposa de Adão; a mulher que não foi criada da costela, mas da mesma estrutura e junto ao homem; aquela que tinha liberdade com o próprio corpo, com sua sexualidade, e por causa disso, foi expulsa e demonizada, para que servisse de exemplo às suas descendentes, e ficasse subentendido que a mulher vem do homem, deve se submeter e dar prazer, e não receber. A primeira feminista, que brigou contra os dogmas, conhecia o próprio corpo e teve coragem de sair de sua zona de conforto em busca de sua liberdade e igualdade.”

E é assim que eu, Rozana, também a vejo: o mito que anseia igualdade, a mulher que não se submete, mas também seria um demônio que atrai e afugenta os homens? É temida e desejada? Mas, a força masculina imposta por uma sociedade que provém de uma cultura historicamente patriarcal, sufocou o grito do mito Lilith e não apenas o sufocou, mas, o demonizou e deu-lhe o status de mãe de toda impureza e (homo) sexualidade tida pela sociedade (patriarcal) como sendo algo antinatural, impróprio, indesejado e que, portanto, devesse ser banida de nosso convívio, usando todo e qualquer meio necessário para banir do convívio da sociedade, este mal demoníaco que veio para assombrar não somente homens, mas também mulheres com seu desejo, volúpia e compulsão pelo prazer (seja ele sexual ou não).

Sou indomável, sou sexual, sou temida e não temo a ninguém; eu vou à busca do que quero e, conquisto. Eu sou Lilith! (Anja Arcanja).

"Desde o início da criação, foi somente um sonho" (Rabi Simon ben Laqish)





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LILITH, O MITO de Rozana Anja Arcanja é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.
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5 comentários:

Lôh disse...

O mito de Lilith é um dos mitos que me fascinam. É bom ver mulheres como você e a Priscila fazendo a diferença. Somos iguais, é só o design que é um pouco diferente, rsrs. Vamos continuar nossa busca pela igualdade e nos lembrar que o que realmente importa não é a sexualidade e sim o amor. Amor esse que respeita a vida do próximo.

Anja, parabéns pela postagem.
Fica na paz...

Eduardo Medeiros disse...

Excelente artigo, bem escrito e documentado.

Gabriel Correia disse...

Olá Anja. Vi essa postagem e comentei no Logos e Mito, excelente blog com seus ótimos cometários. de lá cheguei a sua figura e a seu blog. Gostaria de ter uma apreciação sua sobre meu trabalho no blog CULTURA DA NÃO COVARDIA. Obrigado e um abraço.

Anja_Arcanja disse...

Obrigada Lôh querido! Vc cmo sempre, meu leitor fiel! Bjux

Anja_Arcanja disse...

Gabriel, Sim! Eu vi lá seu comentário e lhe respondi!! rsrs Estarei em seu blog sim querido! Grata pela ressonância.

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