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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Ler, e Escrever Hoje




By Matheus De Cesaro

“Deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela”

Arthur Schopenhauer – A Arte de Escrever





Lembro-me que quando tinha eu, uns 8 ou 9 anos, em um dia de natal, ter pego em mãos um caderno e um lápis, ter olhado para o meu falecido pai e ter dito, “vou escrever um livro”. Parece algo insignificante, se nos basearmos na idéia de que nunca tenha escrito um livro. Mas ali, naquele mesmo instante, se acendeu em mim, o gosto pela leitura e pela escrita, hábito que carrego comigo desde a infância até os dias de hoje. Mas, se tem uma obra, um artigo, algo que tenha me influenciado muito nesta belíssima relação com as letras, é a “Arte de Escrever” de Arthur Schopenhauer, onde ele expõe de forma crítica e muito contundente suas opiniões e pensamentos sobre o ato da escrita. Chamando a atenção para questões que na época, e também hoje são muito atuais e pertinentes. Ele sem papas na língua, o que lhe era comum, se opõe a literatura de consumo, e busca estabelecer uma distinção entre aqueles que em suas idéias seriam bons autores, e os que na verdade buscavam apenas cifras e o status que na época recebiam os escritores. Desta forma, ele não escapa de recriminar grande parte dos jornalistas do seu tempo, condena o hábito do abandono dos clássicos para se deter ao novo, as novas literaturas que surgiam aos montes, e acaba por concluir por meio de algumas considerações que nascia naquele período, o que ele denominou de “degradação da língua por meio de uma literatura decadente”.
Trazendo esta idéia para nossa realidade, e contextualizando com o nosso cotidiano, eu percebi uma semelhança muito grande em relação à forma como tratamos e conduzimos o que lemos e escrevemos.


Em meio à facilidade no acesso de informações que hoje possuímos, percebe-se na era atual uma desenfreada guerra pelo “pseudo saber”, pois de fato se busca conhecimento em excesso, sem a compreensão necessária do adquirido, no objetivo nefasto e decadente, de construir uma pseudo sabedoria, e então, por meio da aparência desenvolver uma suposta intelectualidade, que ao primeiro olhar nos permite ficar admirados, abismados, e até cheios de orgulho por estar diante de uma “mente brilhante”,  mas que, com o passar do tempo nos revela sua fraqueza e superficialidade. Desta forma surge uma gigante onda de literaturas enfadonhas, que apenas repetem informações que já são ecoadas de diversas formas, pelos mais variados autores. Mais do mesmo, com uma nova roupagem, para que então se esteja adequado para a venda. Não se tem foco na “instrução”, não se estimula o pensar, não se valoriza a mente humana, apenas vãs repetições. Como afirmou Schopenhauer,


“Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma, no entanto é essa maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica.”


Partindo destas premissas extraídas da obra de Schopenhauer, fico a pensar e repensar a grande diferença entre estar informado e instruído para determinadas situações na vida. E não vejo nenhuma forma de não lembrar ou mencionar as academias, que a cada ano que passa forma milhares de pessoas nos mais variados ramos e segmentos, providos de muita informação, porém desprovidos de instrução. É claro que de forma alguma posso considerar as academias de ensino irrelevantes ou desnecessárias, isso faria de mim, um completo tolo, elas tem sim um papel importante na nossa formação, mas estar instruído depende muito mais de nós mesmos do que das academias. Certa feita li uma frase de Carlos Drummond de Andrade em um texto publicado em um artigo de uma revista, que me chamou muito a atenção, ela dizia:


"As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele."


Desta forma, é fácil compreender o que estou a dizer em relação as academias de ensino.  São necessárias e essenciais, porém não são a garantia de que estejamos instruídos para compreender todas as informações que recebemos nos 4, 5 ou mais anos que estivemos nelas, isso depende única e exclusivamente de nós, do nosso talento, da nossa percepção.


Sempre me dediquei a leitura, e incentivei aos amigos e conhecidos que desenvolvessem este hábito. Mas hoje, faço diferente. Esforço-me para fazer com que todos compreendam que necessário é pensar sobre o que se lê, analisar o que se lê, exercitar a mente por meio das informações para que então, nossa mente esteja instruída. Muitas vezes não é o muito ler, e sim o pouco de forma pensada e analisada que fará a diferença, que nos levará a “instrução”. Como disse Nietzsche em Ecce Homo, Aforismo 8 de “Porque sou tão Inteligente?”.


“O erudito que no fundo “folheia” apena ainda livros, acaba por perder inteiramente a capacidade de pensar por si. Se não folheia, também não pensa. Responde a um estímulo (um pensamento lido), quando pensa em última análise, ainda simplesmente reage. O erudito despende toda a sua força em dizer sim e não, na critica do que já foi pensado, pessoalmente já não pensa... O erudito “um décadent”...  Eis o que vi com os meus olhos: Naturezas dotadas de ricas e livres tendências, já aos trinta anos se tinham tornado uma desgraça pela leitura, simples fósforos que, para produzirem faíscas (idéias) carecem de fricção.”


Entendo que, o melhor caminho hoje para à instrução, é a percepção de tudo que vamos acumulando em relação à informação. Um entendimento mais amplo do que existencialmente permeia e norteia nossas vidas. É como adquirir à capacidade de ler o dia-a-dia, a vida, as pessoas, a natureza, é como perceber que para aprender e estar instruído é necessário um pouco mais do que livros. Lin Yutang, um grande escritor chinês do inicio do século XX, em sua obra “A Importância de Viver”, se refere a essa questão usando a expressão “O Paradoxo da Leitura”. Ele diz,


“O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola. Quanto mais leio mais ignorante fico. A escolha que hoje se depara a qualquer homem educado é entre a inocência que não lê e a ignorância que lê muito. É possível sustentar alguma aparência de exatidão que a imprensa de hoje mata a leitura e a leitura mata o pensamento”


Agora, fico a imaginar...


Se Schopenhauer já no século XIX, e Lin no século XX sem a facilidade que hoje temos no acesso as informações e com todas as dificuldades que se tinham para ter em mãos obras significativas do período já detectavam essa onda de decadência na arte da escrita e da leitura de forma tão concreta, o que diriam hoje em relação aos pensadores e escritores do nosso tempo, que tendo a disposição o Google, Wikpédia, e tantas outras formas de rapidamente acumular informações não conseguem deixar de serem apenas medíocres escritores a repetir o passado?


Posso estar parecendo um tanto quanto crítico... E se realmente essa for à aparência, tenho por certo que alcancei meu objetivo. Precisamos orientar a nossa geração, e as novas gerações a estimularem o pensamento, a buscarem extrair, ruminar, fazer sair água da pedra. Precisamos fazer renascer a “Arte de Escrever”. E para isso, talvez seja necessário aprender a ler, de forma ordenada, pois o contrário disso não alimenta, apenas entorpece-nos, nos tornando incapazes de refletir, e, por conseguinte, de produzir. Não que esteja sendo radical, mas a leitura quando desordenada nos escraviza às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das idéias que nos limitamos a contemplar na simples condição de espectadores, uma espécie de embriaguez que imobiliza e desafina nossa inteligência. Talvez A. D. Sertilinges em “A Vida Intelectual” tenha sintetizado isso de forma muito clara quando afirma,


“Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros; esse encontra-se, espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o
trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões absurdas."


Desta forma compreendo que o que de fato importa, não é a quantidade, o número de informações que se acumule, mas primeiramente a qualidade e a forma como se digeri tudo isso. Pois não é o material que nos falta ao pensamento, e sim os pensamentos, em relação a quantidade de materiais que absorvemos todos os dias. O máximo que podemos ter mantendo um hábito de leitura desordenada, seria uma forte e desagradável indigestão de informações e conhecimentos.


Foi desta forma, ruminado durante tempos, analisando e tendo cuidado de não manipular os escritos que pude compreender a mensagem de Schopenhauer, que radicalmente disse,


“Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são”


Mas em suma, para finalizar este artigo, quero enfatizar, deixar claro ao leitor que, o que o  objetivo em montar essa crítica, é reavivar em todos o desejo pela leitura, o pensar e a escrita, incendiar o espírito poeta que muitas vezes adormece entre a confusão de nossos sentimentos e o excesso de informações. Pois não há quem nos faça a vida ser mais leve, quem nos leve a perceber a realidade dos sentimentos mais comuns da vida, do que  um poeta entregue ao seu ofício, o de inspirar e fazer inspirar, o de pensar e fazer pensar, não devemos ser escravos da letra, e sim fazer com que elas associadas ao nossos pensamentos produzam vida ao serem lidas.

"Os poetas têm de ser pessoas médias, 
nem deuses, nem vendedores de livros."

Horácio

http://filoboteco.blogspot.com.br/2012/11/ler-e-escrever-hoje.html

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