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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

SAPIOSSEXUAL? ASSEXUAL?



By João Marinho


Que me perdoem os assexuais e os novíssimos "sapiossexuais", mas devo dizer que, do meu ponto de vista, essas "novas" sexualidades não têm realmente muito a dizer.

O que vejo acontecer hoje é que virou uma festa. Antes, era fácil: existiam os homossexuais, os heterossexuais, os bissexuais e até podemos admitir os pansexuais, conforme tenham atração pelo mesmo sexo, sexo oposto, ambos os sexos ou outros tipos de atração que comportem a fluidez e/ou a transição entre os gêneros.

Recentemente, os assexuais saíram do armário e têm tencionado um reconhecimento da assexualidade como uma verdadeira "quarta" orientação sexual à parte – se desconsiderarmos a pansexualidade. Dizem os assexuais que não têm interesse por relações sexuais, o que os diferenciaria dos héteros, homos, bis.

É verdade que, há um certo tempo, já se sabe que hétero, homo e bi são tipos ideais. Como tenho defendido, não existe entre eles fronteiras: existe um degradê, e há pessoas que ficam entre as cores intermediárias, difíceis de encaixar nas três orientações clássicas. Os exemplos são muitos, do homem que curte exclusivamente travestis à travesti que se relaciona com mulheres exclusivamente.

No entanto, este não é o caso da assexualidade. Se formos pensar no que diz a proposta dos assexuais, a ideia é que o "a-" representa a ausência de interesse por relações sexuais, que estariam no bojo das outras três orientações clássicas.

É aqui que a porca torce o rabo.

No fundo, com esse entendimento, os assexuais estão promovendo um retrocesso a tudo que a psicologia tem estudado e construído a respeito da complexa sexualidade humana e, para nos mantermos no tema, a respeito das orientações sexuais.

A primeira delas diz respeito ao conceito de sexualidade: um conceito amplo, que passa pelas sensações físicas provocadas por diferentes estímulos e vai até o ponto de conter as próprias orientações sexuais em si. Adultos têm sexualidade. Idosos têm sexualidade – mas, vale dizer, crianças também têm sexualidade, ainda que seja difícil determinar, nas mais tenras idades, qual seja sua orientação sexual.

O caso clássico das "fases sexuais", trazidas pela psicanálise, é aqui interessante. Quem nunca ouviu falar das fases oral, anal, genital... Que marcam o desenvolvimento do ser humano? Ora, a criança que está na fase oral está exercitando sua sexualidade, que difere da do adulto, ainda que não seja possível, ou muito difícil, determinar sua orientação sexual.

Essa verdade indica o óbvio, se o leitor acompanhou meu raciocínio: sexualidade vai muito além do ato sexual genital, do aquilo naquilo. Dentro desse espectro amplo da sexualidade, insere-se a orientação sexual, com o que se compatibiliza.

Com efeito, vamos manter um exemplo, uma pessoa é hétero se tem atração/desejo pelo sexo oposto. Ora, compatibilizando esse fundamento à noção ampla de sexualidade, é evidentemente que essa atração/desejo não se esgota no ato sexual, nem mesmo no desejo de realizá-lo. O desejo, aqui, deve ser tomado em uma acepção igualmente ampla, na qual o ato sexual se insere, mas que não se esgota nele e chega, inclusive, a abarcar a afetividade. Ninguém é hétero porque "transa" exclusivamente com alguém do sexo oposto: a pessoa "transa" exclusivamente com alguém do sexo oposto porque é hétero.

Tendo isso como pano de fundo, não é difícil chegar a seu resultado lógico: o ato sexual é resultado da orientação sexual, e não seu determinante. Mais ainda: pela própria amplitude do conceito de sexualidade e, compatível com ele, orientação sexual, esse ato sexual (= genital) pode ser resultado da orientação... Ou não.

Dito isso, por que a proposta dos assexuais é um retrocesso? Porque, indo na contramão da psicologia e de todo o conhecimento científico acumulado até agora, identifica a relação sexual com a orientação sexual, quando a segunda inclui a primeira, podendo esta ser seu resultado ou não. Em suma, para o assexual, o hétero é hétero porque "transa" exclusivamente com alguém do sexo oposto. É um erro conceitual, que cheira a naftalina e não faz jus ao conceito de orientação sexual.

Desse ponto de vista, portanto, a suposta assexualidade, excluindo-se os casos em que se instalou por traumas, não é uma "quarta" orientação sexual. É tão somente um dos resultados possíveis das três orientações sexuais clássicas, no que diz respeito ao ato.

Retomando o exemplo do heterossexual, existirão aqueles héteros que mantêm relações sexuais, os héteros que as mantêm em excesso (satiristas ou ninfomaníacas) e os héteros que não mantêm qualquer relação ("assexuais"): havendo atração pelo sexo oposto, e tomando essa atração ou desejo em sua acepção ampla, que inclui a afetividade – amor Eros –, a pessoa é hétero. "Transar" ou "não transar" é apenas um detalhe.

Não deixa de ser, aliás, comum observar que os assexuais mesmo dizem que não gostam do sexo em si, do ato em si – mas gostam do carinho, do afeto, do companheirismo e até do toque (não genital ou erotizado) de companheiros, com quem se envolvem, se apaixonam e gostam de dividir suas angústias e sentimentos. Lamento dizer: mas isso não é assexualidade. É a mesma velha e conhecida sexualidade humana, com a única diferença de não resultar ou não levar ao ato genital.

Assim, o "assexual" que dispensa esse tipo de carga emocional, desejo ou atração para o sexo oposto, por exemplo, não é assexual. É um hétero, tanto quanto aquele que transa, porque a transa é só um detalhe no conceito de orientação sexual, e, mais ainda, no conceito de sexualidade.

A mesma lógica vale para os agora autodeclarados "sapiossexuais". Ora, a inteligência e os valores são "afrodisíacos" tanto quanto podem ser determinados atributos físicos, como a cor do olho ou presença de pelos. Alguns darão aos primeiros mais peso. Outros menos... Mas fica a pergunta: ao buscar a inteligência da pessoa para determinar quem será meu parceiro, eu gostaria que ela fosse do sexo oposto? Então, lamento dizer: você é hétero – e não "sapio". Afinal, quem foi que disse que sexualidade, atração, desejo, orientação se esgotam em sua dimensão física?

6 comentários:

Anônimo disse...

Uma coisa que você não levou em conta é que a terminação -sexual (heterossexual, homossexual, assexual, bissexual) implica naquele que faz sexo, sente-se atraído sexualmente. Quando a atração é afetiva, utiliza-se o -afetivo (heteroafetivo, homoafetivo, biafetivo). No caso de uma pessoa assexual, ela pode ser hetero, homo ou biafetiva. Você deve saber que existe um continuum quando se refere à orientação sexual/afetiva do ser humano, eu mesmo me considero um homossexual biafetivo!
Existe um blog excelente de divulgação de uma pesquisadora da USP, a socióloga Elisabete Regina Baptista de Oliveira, que desenvolve uma pesquisa com assexuais, dê uma olhada: http://assexualidades.blogspot.com.br/

Joao Marinho disse...

Não levei em conta essa diferenciação porque ela é puro malabarismo, Anônimo. Simplesmente, ela não existe.

Homossexual, bissexual, heterossexual, pansexual, isso diz respeito à orientação sexual, que, por sua vez, se insere no contexto da sexualidade, que, como bem esclarece o artigo, não se esgota no "ato sexual em si" - ela o abarca e inclui TAMBÉM a afetividade, entendida como amor Eros, "dos amantes".

"Homoafetivo" e suas derivações foram expressões criadas, no Brasil, anos antes, apenas para ressaltar esse aspecto afetivo em detrimento do sexual.

Por questão POLÍTICA, passou a ser usada em certos contextos discursivos para dar destaque ao emocional - ou seja, para reforçar, junto à população e ao senso comum, o aspecto do sentimento.

Isso não significa, porém, que "homossexual" e suas derivações já não incluíssem esse aspecto emocional. Incluem. Apenas "homoafetivo" o destaca.

Resumindo, o homossexual é o homoafetivo. O Heterossexual é o mesmo heteroafetivo. O bissexual é o mesmo biafetivo, e assim por diante, porque a psicologia, de um lado, e o movimento LGBT, de outro, jamais deixaram de levar em conta o aspecto afetivo. O senso comum é o que o fez - e senso comum não tem nada a ver com orientação sexual.

O blog sobre assexualidade da socióloga Elisabete foi exatamente um dos blogs que eu li e me motivaram a escrever esse artigo - justamente porque fazem uma leitura restrita do conceito de orientação sexual, como se esta abarcasse apenas o sexo e a atração erótica sem considerar o aspecto emocional.

Acontece que esta é uma leitura que considero equivocada, pelos motivos elencados no artigo.

Anônimo disse...

um tapa na cara da sociedade e na minha!

Frederico Assis CARDOSO disse...

Como historiador devo argumentar que "homoafetivo" refere-se a um determinado tipo de sexualidade pensada pelos/as historiadores/as para exlicar, entender e analisar as relações entre pessoas do mesmo sexo, notadamente homens, na Grécia antiga. Cf. Paul Valèry. Nada de vínculo com uma derivação "criada no Brasil" meio que recentemente. Trata-se de um conceito analítico explicativo bastante potente.

witz disse...

A minha resposta estava muito grande, não pude postar. Aqui vai um link com ela na íntegra:

https://docs.google.com/document/d/1fhxiO0dR1XGCrsE6Aq3wQL33FRLnDuWrzyIlDs4NE8E/edit?usp=sharing

witz disse...

A minha resposta não coube, então coloquei aqui:

https://docs.google.com/document/d/1fhxiO0dR1XGCrsE6Aq3wQL33FRLnDuWrzyIlDs4NE8E/edit?usp=sharing

Por favor, leia! É importantíssimo espalhar informação. :) Obrigada.

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