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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Religião versus ateísmo (Anja Arcanja)





Todo fundamentalismo é ruim, todo exagero é péssimo (eu que o diga), mas, o fundamentalismo religioso  é o pior, porque diz dar vida, enquanto a suga; diz amar, enquanto discrimina; apregoa liberdade, enquanto apenas tem algemas a oferecer... e o pior, com uma base (possivelmente) falsa!

E o que tem acontecido nos tempos de hoje? uma avalanche de neo-ateus que ainda borram as fraudas com idade entre 15 e 21 anos ou até mais (seria esta a geração y?),atacando a religião com seu new-ateísmo sem sequer conhecer as bases da religião ou do deus-mito. Não entraram nas águas sequer para molhar as unhas encravadas e mau cheirosas dos pés e se colocam a atacar a religião, a bíblia e o deus que eles supostamente imaginam que não existe, mas, não tem base nenhuma para pensar assim.

Isto é o puro reflexo do fundamentalismo e intolerancia dos cristãos que, da mesma forma, não sabem nada de seu deus ou de sua religião e sequer conhecem sobre o livro que julgam ser sagrado. Apenas vomitam dos púlpitos seus conceitos e preconceitos (todos, absolutamente todos errados e contra a vida) para alimentar suas "ovelhas" que, alegremente engolem o vômito e tentam regurgitar nas bocas dos que se recusam a engoli-lo, tendo nojo e repulsa, mas as "ovelhas" bem mandadas, insistem e insistem e insistem! E terminam por acusar de rebeldes e doentes de alma pessoas que irão, irremediavelmente, se levantar ferozmente contra a religião, deus e o que mais lhes vier pela frente.

É um círculo vicioso! É um círculo vicioso!

O neo-ateísmo é um efeito "retardado" (no sentido pejorativo da palavra) da fé cristã, e o ateísmo explicito (que também não deixa de ter como causa primeira a crença) floresce em poucos com a razão.

Combati um "mau combate", abri meus olhos, larguei a fé, mas quero manter meu amor!



“Nosso sagrado e profano amor!” (by Anja Arcanja)



Hoje quero que me toques; quero sentir em mim
O teu toque, tua mão… carícias!
Teu beijo, teu colo, teus seios, teu sexo…
Delícias!
Vem amada minha,
Hoje quero toca-la, com minha mão acaricia-la.
Com minha boca beija-la e com min’alma, ama-la.
Brindemos em nossas sagradas taças,
O vinho de nosso amor, amor profano,
Amor sagrado, amor híbrido, o amor…
Brindemos, amemos, beijemos…
Vivamos nosso sagrado e profano amor!
Hoje preciso de ti.
Vem?
 Anja Arcanja®

Dopamina



 By Gustavo Saraiva

És minha dopamina
Droga insensível à dor.
Mas saibas que a dor ensina,
É ela quem guia meu amor...

Não posso me permitir ficar extasiado!
Preciso aprender essa lição,
O sentimento de desconforto,
É essencial ao coração!

Ela ensina, é mestra fiel!
A disciplina é rígida
E o método cruel...

Mas às vezes a situação é crítica
E para a vida adoçar,
Um pouco de fel é necessário tomar!

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Entrevista com a Anja: Tema - MASTURBAÇÃO




Para quem ainda não leu as partes anteriores, segue os links:





4° tema: Masturbação

[Carlos Carvalho Cavalheiro] – Um dos temas relacionados à sexualidade e que ainda gera polêmica, por incrível que pareça, é a masturbação. Não encontro nada especificamente sobre esse assunto na Bíblia, para ser sincero. No entanto, tenho visto e lido muita argumentação baseada numa suposta exegese ou hermenêutica que busca, até de forma filosófica às vezes, procurar desmerecer a prática do autossexo. Para ser honesto, sou obrigado a buscar argumentações outras que não as minhas para fundamentar as perguntas sobre esse assunto. Claro que isso não é demérito, ao contrário.

Como a intenção dessa entrevista é discutir as várias visões sobre a sexualidade e o sexo, sobretudo em comparativo com o texto bíblico, de maneira alguma o empréstimo honesto de argumentos irá desmerecer a entrevista. Começo, então, buscando argumentos disponibilizados no site “got Questions? Org” (http://www.gotquestions.org/Portugues/masturbacao-pecado.html Acessado em 20 ago 2012), em resposta a pergunta:

“Masturbação – de acordo com a Bíblia é pecado?”:

“A Bíblia nunca menciona especificamente a masturbação ou afirma se a masturbação é ou não pecado. Entretanto, não há dúvidas de que na grande maioria das situações as ações que levam à masturbação são pecaminosas. A masturbação é, quase sempre, o resultado final de pensamentos sensuais, estimulação erótica e/ou imagens pornográficas. São com estes problemas que devemos lidar. Se abandonarmos e vencermos os pecados de luxúria e pornografia, o problema da masturbação vai se tornar algo de mínima importância”.

                Qual o seu comentário acerca dessa afirmação?

Anja Arcanja:

Carlos, A Bíblia de fato não menciona a masturbação, mas podemos encontrar embasamentos para dizer que ela não apoie, isto partindo de interpretações de alguns textos. Mas eu pergunto se estariam estas interpretações corretas? Veja o exemplo que você mesmo cita em que o autor do texto diz: “A masturbação é, quase sempre, o resultado final de pensamentos sensuais, estimulação erótica e/ou imagens pornográficas. […] definitivamente, devo dizer que a masturbação, de acordo com a Bíblia, é pecado.” (http://www.gotquestions.org/Portugues/masturbacao-pecado.html)

Eu discordo solenemente do que o autor diz, pois não vejo como pensamentos sensuais estimulação e/ou imagens pornográficas possam ser pecados a menos que, de alguma forma, tais práticas nos atrapalhem a manter um bom relacionamento com nosso próximo, o que pode ser um sinal de distúrbio, como já disse.

Sobre a masturbação em si, penso eu, que é uma excelente forma de nos conhecermos melhor (seja solteiro/a ou casado/a), e assim, podermos ter um melhor desempenho sexual, pois conhecendo nossos corpos, podemos dizer ao parceiro/a onde queremos ser tocados e quais são as partes de nossos corpos que mais nos excitam.

Pra mim, é uma prática saudável, além de ser prazerosa.

réplica

[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Vou transcrever aqui os argumentos de Norman L. Geisler, no livro – já citado – “Ética Cristã”, no trecho em que ela trata do assunto da masturbação. Gostaria que você comentasse esse trecho:

“No que diz respeito à autossexualidade (i.e., a masturbação), é geralmente errada. A sublimação (drenar a energia sexual através do exercício) e as emissões noturnas são consideradas maneiras legítimas de queimar energia sexual excessiva. A masturbação é pecaminosa quando seu único motivo é o mero prazer biológico, quando é permitida tornar-se um hábito compulsivo, e/ou quando o hábito resulta de sentimento de inferioridade e causa sentimentos de culpa. A masturbação é pecaminosa quando é realizada em conexão com imagens pornográficas, porque, conforme disse Jesus, a concupiscência é uma questão dos interesses do coração (Mt. 5.28). A masturbação pode ser certa se for usada como um programa limitado e temporário de controle-próprio para evitar a concupiscência antes do casamento. Se a pessoa se comprometer plenamente a viver uma vida pura antes do casamento, talvez seja permissível ocasionalmente usar o estímulo autossexual para aliviar sua própria tensão. Enquanto não se tornar um hábito nem um meio de gratificar sua concupiscência, a masturbação não é necessariamente imoral” (GEISLER, 1997, p. 171).

Qual a sua opinião sobre os argumentos de Geisler?

Réplica Anja Arcanja

Como já disse Carlos, apenas considero ser “pecado” a partir do momento que tal prática comece a atrapalhar meu bom convívio em sociedade. Geisler diz que pode-se usar a masturbação como forma de controle para evitar a concupiscência antes do casamento, o que também não concordo, pois sou a favor do sexo antes do casamento, mas de forma alguma desejo que seja uma tônica, apenas penso que devemos respeitar a quem deseja fazer sexo antes de casado, mesmo que esteja congregando em alguma igreja.

Penso que Geisler foi contraditório em sua opinião, pois como a própria Bíblia diz, é sim sim ou não não, e neste caso específico, Geisler em sua opinião diz: sim, não; não, talvez; sim e não; o que pra mim demonstra dúvida e insegurança ao tratar de tal tema. A minha opinião é e sempre será sim, sou a favor, pois não é a própria Bíblia que diz em Tito 1:15: Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados?.

E cito algumas palavras do Pr. Jaime Kemp, fundador do ministério Vencedor por Cristo, conselheiro familiar, conferencista e autor de vários livros ligados a família: “A masturbação tem provocado confusão e conflitos entre os jovens. Sem a menor dúvida, é um assunto polêmico, motivo de debate nas comunidades cristãs. Equivocadamente alguns condenam o ato com veemência, definindo-o como pecado, sem chance de qualquer contestação ou mesmo diálogo. Outros preferem o meio termo, nem sim, nem não, e deixam a decisão sobre o que fazer para a responsabilidade de cada pessoa, colocando o tema sob a explicação da liberdade cristã. Ainda há outros que afirmam que ela é um presente preparado pelo Senhor para o alívio sexual do ser humano.” (http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/01/masturbacao-by-jaimer-kemp.html)

Apesar de pensar um pouco diferente dele, e como sempre gosto de ir além, penso que não apenas é um presente de deus para o alívio sexual do ser humano, mas também, como já disse, um aliado importante para o conhecimento do próprio corpo.

Tréplica

[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Jesus Cristo disse: “Mas eu lhes digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério no seu coração.”, em Mateus 5.28. Considerando isso, se a masturbação for impulsionada pelo desejo de manter relações sexuais com uma mulher, ainda que em fantasia (como, por exemplo, em filmes pornográficos nos quais a concupiscência decorre de uma excitação pela imagem que se transforma numa fantasia, pois se sabe que são atores encenando e que dificilmente o espectador do filme poderia manter a mesma relação com a atriz, que pode ser até de outro país ou de uma realidade extemporânea a dele – em casos de filmes antigos, em que a imagem vista não condiz com a atual – se escorando, portanto, tal excitação estimulada em fantasias), isso não seria pecado? Entendo que há espaço aí para a argumentação: ora, o pecado não está nesse caso na masturbação e sim no desejo de possuir uma mulher que não a sua. Porém, se pensarmos assim, não contradiz o seu argumento quando refuta Geisler por ele situar a masturbação como pecado de forma relativa?

         Há quem afirme que em Levítico 15, quando se fala do fluxo do homem (semente da cópula), derramado de forma a ser desperdiçada, está se falando em polução noturna e masturbação. Em qualquer que seja o caso, o texto é contrário a isso. O que você pensa a respeito?

                Novamente, busco uma fonte extrabíblica no intuito de enriquecer o debate do assunto e, por isso, peço sua opinião também sobre a seguinte afirmativa de Samael Aun Weor, fundador do Movimento Gnóstico moderno: “…A adega energética do centro sexual também é saqueada pelos diferentes agregados psicológicos. A criança desde idades precoces começa com o vício da masturbação, perdendo elementos tão fundamentais para seu desenvolvimento como a lecitina, a colesterina e os fosfatos. Aí começa a via crucis do ser humano. A profunda ignorância na que vive a humanidade faz com que este centro seja o mais prejudicado...

Além de que tal expulsão inútil provoca, quando não se trata de usá-la para a reprodução da espécie, uma série de efeitos secundários como: um empobrecimento de certas substâncias vitais para o organismo; aumenta a dependência psicológica deste tipo de prática (a masturbação); provocará, em longo prazo, transtornos (naquele que a pratica por um longo tempo) que lhe produzirão problemas nas relações posteriores de casal e também isolamento, etc., como acabamos também de ler.
Longe do fanatismo, há que entender as palavras que dizemos aqui. Tudo é criticável e tudo é discutível, mas há uma realidade, e é que há três tipos de sexualidade: Geradora, De-generadora e Re-generadora. Se ficarmos sempre no mesmo tipo de sexualidade De-generadora, não podemos aspirar a uma regeneração física, psíquica ou espiritual. Isto há que sabê-lo. Cada um é livre de escolher, mas temos que ater-nos às consequências e agora, ainda que seja superficialmente, já as conhece, querido leitor. A qual sexualidade você se predispõe? O que é que você busca na vida: degenerar-se mais ou regenerar-se?”
                Qual o seu comentário sobre essa afirmação?

Tréplica Anja

Carlos, sobre esta (suposta) fala de Jesus, já explicitei se tratar do 10° mandamento e de nossa incapacidade em cumprir tais mandamentos divinos (que a propósito não foi exclusividade do povo hebreu, pois muitos séculos antes de Moisés “supostamente” receber das mãos de Deus as tábuas da Lei escrita em argila, o povo sumério já as tinha escrito em mesmíssimas tábuas de argila, tal qual Deus “supostamente” fez e entregou a Moisés) necessitando um sacrifício divino em favor da humanidade, e assim, perpetuam-se as estórias das divindades que precisam das orações dos humanos para sobreviver, e nós humanos, necessitamos do favor divino e cumprir rituais e penitencias para sermos “merecedores de tal favor”, mas, este é outro tema e não irei desviar o foco.  Mas em suma, os deuses apenas vivem por se alimentarem de nossas orações, louvores e mendicância e nós, não recebemos favor algum dos deuses, já que deuses apenas existem em nossa psique, e é nossa psique que os alimenta.

Agora, retornando ao tema, eu (como mulher) faço uma enorme diferença entre cobiçar (no sentido que intentar possuir) e fantasiar, e é esta diferença que ressalto. Quando se fala quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la, entenda: aquele que quer para si (como esposa) a mulher de outro. O cobiçar aqui está além do campo “sonhar” e sim, se refere a querer mesmo. E não só a mulher, mas qualquer coisa que seja de meu próximo.

Sobre Levíticos cap 15, de novo recaímos na Lei escrita “exclusivamente” para o povo judeu para torna-lo “diferente” dos demais povos numa demonstração de eleição (exclusividade), sendo necessária a busca por santidade para que pelo povo hebreu, nascesse o salvador do mundo, ou melhor, mais um dos muitos salvadores do mundo.

Sobre a afirmação de Samael Aun Weor, é bem como minha vó que faleceu aos 97 anos dizia: “tudo que é demais sobra”, ou seja, em tudo que exagerarmos, teremos problemas, complicações e até, se houver uma predisposição, desenvolver um distúrbio. É assim não só com o sexo, mas em tudo na vida. E em geral, as coisas que mais nos dão prazer é o que mais devemos ter cuidado. Observe uma pessoa, por exemplo, que não consegue se controlar ao se alimentar, consequentemente terá problemas de obesidade e se não acordar para esta realidade a tempo, terá problemas ainda maiores, pois poderá chegar a uma obesidade mórbida. É assim também com a bebida e com tantas outras coisas que podem nos dar um prazer singular que, se não tivermos cuidado, moral e ética, estaremos ajudando a engordar as estatísticas dos que sofrem de algum distúrbio e em consequência disto, necessita um tratamento específico.

Os animais agem por puro instinto apenas para a preservação da espécie, e quanto a nós? Agimos assim também? Segundo Freud, a força que no impele a sempre buscar determinado prazer é a pulsão, e a busca pelo prazer, sendo ainda mais específica, é a pulsão sexual, pois na realidade, a sexualidade está muito além da genitalidade, pois, o homem é o único animal que busca o sexo por mero prazer, é o único que beija, busca diferentes posições, se toca, toca seu parceiro/a, ou seja, busca sempre alcançar um prazer que ainda não atingiu. É assim também com a comida, por exemplo, como sendo uma pulsão sexual, pois nos alimentamos com os olhos, com o cheiro e por fim, com o paladar; buscamos misturar sabores na busca sempre pelo sabor que mais nos agrada, mais se completa conosco. A psique humana está banhada dessa pulsão. E é isso que Freud chama de sexualidade, esse impulso constante que movimenta nosso organismo em busca de uma satisfação. Mas se não soubermos refreá-la… (pra quem sabe ler, um pingo é letra, coloquei três rsrs)

Sobre distúrbios, foi até bom tocar neste assunto, pois eu sofro de um transtorno bem incomum, não por excessos, mas desde minha adolescência, mas que se agravou logo após o casamento e só consegui ter diagnosticado há quase 4 anos e acredito que muitas mulheres assim como eu, sofrem caladas com o mesmo problema meu, trata-se do Transtorno da Excitação Genital Persistente, conhecido pela sigla TEGP http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/06/transtorno-da-excitacao-genital.html Acredito que este artigo pode ajudar a muitas mulheres a sentirem-se encorajadas a buscar ajuda.

Sobre o que eu disse a respeito dos deuses Carlos, não quero aqui pregar minha descrença, mas quero deixar claro que não podemos condenar pessoas por pensarem e agirem diferentes de nós. Tenho certeza que se muitos que hoje se dizem apologistas, exegetas entre outros, se forem de fato estudarem o que dizem ser, acabariam por descrer de deus, eu não quero aqui que digam que esta é a minha intensão, pois de fato não é, apenas quis trazer fatos que, tenho certeza, muitos desconhecem, mas, meu objetivo foi mostrar que podemos sim, ser religiosos (seja qual for o credo) e ter uma vida sexual livre de culpas.

Bjux querido…

Anja Arcanja

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A importância da mente





By Altamirando Macedo

Todos os fundamentalistas são intolerantes; sua escassa cultura condena-os a serem assim.  Defendem o que é anacrônico e o absurdo, não permitindo que suas opiniões sejam censuradas pela experiência. Chamam de ateu ou herege aquele que busca uma verdade ou persegue um ideal. Os negros queimaram Bruno e Servet, os vermelhos decapitaram Lavoisier e Cherniel ignorando a sentença de Shakespeare. “O herege não é aquele que arde na fogueira, mas aquele que a acende”.

A tolerância dos ideais alheios é a virtude suprema dos que pensam e difícil e inaceitável para os semicultos. Exige um perpétuo esforço de equilíbrio ante o erro dos outros, ensina a suportar esta consequência legítima da falibilidade de todo juízo humano. Aquele que se esforçou muito para formar sua crença, sabe respeitar as dos outros.

A tolerância é respeitar nos outros uma virtude própria, a firmeza das convicções, reflexivamente adquiridas, faz estimar nos próprios adversários um mérito cujo preço se conhece. A crença, síntese de todas as renúncias, é também o ato de renunciar a pensar. Nas crenças tudo é regido pela lei do menor esforço e o lasso enferruja a inteligência. A caixa craniana dos fundamentalistas é um estojo vazio, não consegue raciocinar por si mesmo, como se lhe faltasse os miolos. Desconfia de sua imaginação fazendo o sinal da cruz ou ajoelhando quando esta o preocupa com suas heréticas tentações. Renega a verdade se ela demonstrar o erro de seus preconceitos. Houve astrônomos que se negaram a olhar o céu através do telescópio temendo serem desfeitos seus erros.

Ignoram que o homem vale pelo seu saber, negam que a cultura é a mais profunda fonte de virtudes. Suas crenças ressecadas pelo fanatismo de todos os credos, abrangem zonas circunscritas por superstições passadas.  Chamam suas preocupações de ideais religiosos e sagrados sem perceberem que são simples rotina enlatada, paródias da razão, opiniões sem juízo, representam o senso comum desenfreado sem o controle do bom senso. Incapazes de ativar sua própria inteligência. Preferem o silêncio e a inércia mental, não pensar é a única maneira de não errar. Seus cérebros são casas de hospedagens sem donos, os outros pensam por eles, que no íntimo agradecem este favor. Desconhecem que a educação é uma descoberta progressiva da nossa própria ignorância.

Se a humanidade dependesse dos crédulos nosso conhecimento não excederia os do nosso ancestral hominídeo. Nenhum crente teria descoberto que a mesma força que faz a lua girar para cima é a mesma que faz a maçã Newtoniana cair ao chão. Mas são capazes de criticar, se opondo levianamente, às células tronco, aceleração de partículas, teoria do campo unificado ou Bóson W, pois lhes faltam noção de grandezas.

Muitos vivem com um telefone celular no ouvido, têm em casa uma TV de plasma com tela de 42´ que recebe seus programas via satélites, mas não acreditam que o homem foi à lua e desconhecem o avanço tecnológico da ciência com os programas aeroespaciais. Não sabem o que é uma fibra ótica, uma litotripsia, uma angioplastia ou desconhecem a complexidade da maioria dos exames médicos reiterando a evolução da engenharia.

A imensa maioria dos homens pensa com a cabeça de um padre ou de um pastor espertalhão. Não entende a linguagem de quem lhe explique algum mistério do universo ou da vida, a eterna evolução de tudo o que é conhecido, a possibilidade de aperfeiçoamento mental na contínua adaptação do homem à natureza e por conseguinte ao universo. Para conceber uma perfeição exige-se certo nível ético e é indispensável alguma educação intelectual. Sem isto pode haver fanatismos e superstições, jamais ideais. Encontram nos líderes uma faísca capaz de acender suas paixões, serão ou podem ser sectários. E, nem sequer perceberão seu fundamentalismo. Todo sonho seguido por multidões só é pensado por poucos visionários que são seus amos. Isto não é predestinação, é suicídio intelectual.

Há homens intelectualmente inferiores à medida de sua raça, de seu tempo e de sua classe social que são os criminosos hediondos, párias, parasitas e indigentes. Também existem os superiores dos quais se destacam os cientistas, os gênios e os intelectuais notáveis. Entre uns e outros existe uma imensa massa impossível de ser caracterizada por inferioridade ou excelência. A história não sabe seus nomes, a arte os desenha como incolores, não são interessantes. Os moralistas os tratam com igual desdém; individualmente não merecem o desprezo que fustiga os inúteis nem a apologia reservada aos virtuosos. Sua existência é natural e necessária. Em tudo que possui graus há mediocridade. Na escala da inteligência humana, esta massa representa o claro-escuro entre o talento e a ignorância. Quer que eu desenhe?

O Buda Gay - Um Estudo Amplo Sobre a Visão Budista da Homossexualidade




By Paulo Stekel*


Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque esta escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o.” [O Buda]

A presença da homossexualidade não parece ser uma questão de escolha; sua expressão é uma questão de escolha.” [David Hawkins]


Assim que o Movimento Espiritualidade Inclusiva foi criado, vários amigos, apoiadores e curiosos passaram a pedir um artigo profundo sobre a homossexualidade na visão budista. Fiquei alguns meses pesquisando tudo o que havia sobre o assunto em websites budistas e afins, e encontrei uma certa quantidade de material que posso considerar de alta qualidade sobre o assunto. São 12 links em Português e 24 links em Inglês (os mais relevantes), todos disponíveis na lista ao final deste artigo.

Unindo minhas experiências pessoais como budista à leitura atenta destes 36 links que, juntos, equivalem a quase 120 páginas de texto, consegui formar uma ideia bem clara da visão que o Budismo apresenta da homossexualidade e das orientações sexuais LGBT em geral. Citarei várias vezes os textos presentes nestes links e, no caso do material em Inglês, eu mesmo fiz as traduções para a Língua Portuguesa.

Quanto ao título aparentemente provocativo deste artigo – O Buda Gay –, foi inspirado numa das referências adiante, onde fica claro que um homossexual pode, sim, atingir a Iluminação. Para o Budismo, portanto, a expressão “Buda Gay” é bem menos impactante que “Cristo Gay”, uma vez que o Cristianismo tem se demonstrado controverso quanto à homossexualidade.

Deixo claro que, apesar de ser budista desde 1995, escrevi este texto de maneira crítica, sem meias palavras, pois meu compromisso é com a verdade e com os direitos humanos das pessoas LGBT, independente da religião que pratiquem, ou nenhuma. Não pouparei mestres hipócritas, instrutores homofóbicos ou opiniões equivocadas, pois, ao fazer isso, tenho certeza de não estar quebrando nenhum preceito budista.

Orientação Sexual

A relação entre Budismo e orientação sexual varia conforme a tradição e o instrutor. Para alguns especialistas, o Budismo mais antigo parece não ter professado qualquer condenação especial às relações homossexuais, já que o assunto não foi sequer mencionado. Algumas tradições mais recentes apresentam sanções à conduta homossexual. O próprio Dalai Lama é acusado, em certa medida, de preconceito contra a homossexualidade, como veremos mais adiante.

Nos antigos sutras do Budismo, a conduta sexual humana aceita ou não-aceita no caso de leigos não é mencionada de forma específica. “Má conduta sexual” é um termo amplo, sujeito a interpretações de acordo com as normas sociais dos praticantes. O Budismo primitivo parece não ter tido qualquer problema com as relações homossexuais. Todos os preceitos sobre relações sexuais encaixam-se tanto nas relações hetero quanto homossexuais.

No caso dos monges, a situação muda. O Vinaya (código de disciplina monástica) proíbe a eles toda a atividade sexual, mas só em termos fisiológicos, sem distinções morais entre as muitas formas possíveis de relações.

Entre os praticantes budistas, há uma grande diversidade de opinião sobre a homossexualidade. Isso ocorre porque o Budismo, de uma maneira geral, ensina que o prazer sensual e desejo, e em particular, o prazer sexual, são obstáculos à Iluminação ou Despertar Último, devendo ser de certa forma dominados ou até eliminados. Mas, como a maioria dos budistas não busca habilidade em meditação ou a Iluminação, e sim uma vida agradável e, após a morte, um renascimento agradável, para estes, desfrutar de prazeres sensuais de uma maneira não-prejudicial é algo normal.

No caso dos transexuais, os primeiros textos mencionam a possibilidade de uma pessoa mudar de sexo, de modo que tais pessoas não estão impedidas de ordenação. O próprio Buda é muitas vezes retratado como uma figura andrógina e assexuada, como em várias pinturas nos mosteiros.

Nos primeiros textos monásticos, como o Vinaya (Séc. IV a.C.), os monges do sexo masculino estão expressamente proibidos de ter relações sexuais com qualquer um dos quatro gêneros: masculino, feminino, ubhatovyanjañaka e pandaka. Mais tarde, o Buda permitiu a ordenação de mulheres, mas proibiu a ordenação para os dois últimos tipos de pessoas. Os motivos de tais proscrições do Buda contra certos tipos de pessoas que se juntam à comunidade de ordenados são uma questão de interpretação, mas podem ter a ver com uma preocupação com a manutenção da imagem pública de virtuosidade da comunidade. Em alguns casos, isso é explicitamente indicado. A aceitabilidade social foi fundamental para a comunidade monástica primitiva, que precisava do apoio material da sociedade leiga para sobreviver.

Mas, a quem os textos se referem com os termos ubhatovyanjañaka e pandaka? A palavra ubhatovyanjañaka geralmente descreve pessoas que têm características sexuais masculinas e femininas, ou seja, os hermafroditas. O Vinaya, diz que os hermafroditas não devem ser ordenados porque poderiam seduzir um monge ou monja companheiro, levando-os a ter relações sexuais. O Pandaka é uma categoria complexa. Nos primeiros textos, a palavra parece referir-se a uma classe socialmente estigmatizada de homossexuais promíscuos, passivos, provavelmente travestis, que eram possivelmente prostitutas.

O termo Pandaka também serve para classificar outros que também estão excluídos da ordenação: pessoas com anormalidades físicas (surdez, nanismo, etc) ou que cometeram crimes. “A História da Proibição da ordenação de Pandakas” do Vinaya explica que a proibição é uma resposta ao exemplo de um monge que tinha um desejo insaciável de ser penetrado sexualmente por homens, de modo que solicitou isso e recebeu de alguns manipuladores de animais, que, em seguida, relataram o incidente para a comunidade em geral, trazendo desgraça para a sangha (comunidade de ordenados).

Alguns comentaristas modernos interpretam a palavra ubhatovyanjañaka como incluindo aqueles que não são hermafroditas físicos, mas que apresentam características comportamentais e psicológicas de ambos os sexos, como uma mulher que se sente atraída por outras mulheres. O escritor budista Buddhaghosa (Séc. V d.C.) descreveubhatovyanjañaka como sendo pessoas com o corpo de um dos gêneros, mas a “potência” do outro. Há quem pense que Buddhaghosa aqui não descreve, de fato, o hermafroditismo, mas a bissexualidade ou a homossexualidade, o que é controverso.

Em outros textos, o termo Pandaka pode incluir os nascidos sexualmente indeterminados ou sem sexo, eunucos, aqueles cuja sexualidade muda a cada mês e meio, homens que ganham a satisfação sexual através de sexo oral em outros homens, e voyeurs. Às vezes, inclui homens e mulheres com qualquer disfunção sexual, como impotência ou ciclos menstruais irregulares. No geral, o termo parece se referir a pessoas cuja sexualidade é limitada quer fisiologicamente, ou que têm uma sexualidade “perversa” ou extra. Este “terceiro sexo” é quase sempre retratado negativamente como uma classe pária, especialmente nos primeiros textos. Em contextos modernos, Pandaka é muitas vezes interpretado de modo equivocado para incluir lésbicas, gays e pessoas trans e intersexuais, embora em tempos antigos, um homem que penetrasse sexualmente outro homem ou um Pandaka não era ele mesmo considerado um Pandaka.

No Samantapasadika, uma obra do Séc. V d.C., os Pandaka são descritos como estando cheios de paixões contaminantes (ussanakilesa), luxúria inextinguível (avapasantaparilaha) e sendo dominados por sua libido (parilahavegabhibhuta).Vasubandhu (Séc. IV d.C.) afirma que os Pandaka não têm disciplina para a prática espiritual, devido às suas paixões contaminantes de ambos os sexos masculino e feminino. Eles não têm a coragem moral para conter essas paixões, porque não têm pudor e vergonha. Incapazes de mostrar contenção, esses seres são abandonados por seus pais e sem tais laços são incapazes de manter opiniões fortes.

Essa opinião de Vasubandhu nos faz lembrar do moderno preconceito familiar para com LGBTs, levando ao abandono, a uma formação de personalidade deficiente e a tendências depressivas. Hoje, buscamos mudar este quadro pela conscientização, mas nos tempos antigos, isso era apenas mais um motivo para exclusão. A prova disso é que oAbhidharma (um dos textos contendo as palavras do Buda) afirma que um Pandaka não pode atingir a iluminação em sua própria vida, tendo que esperar o renascimento como um homem ou uma mulher normal. Ananda – primo e discípulo do Buda – se diz ter sido um Pandaka numa de suas vidas passadas, o mesmo sendo dito da monja budista Isidâsî. Em ambos os casos o nascimento como um Pandaka seria resultado de carma ruim, e a idéia de que ser um Pandaka decorre de mau comportamento numa vida anterior é comum na literatura budista.

Só podemos especular que esta visão do Pandaka como lascivo, desavergonhado e vacilante transmitida pelos antigos mestres budistas é baseada nas deficiências sociais ocasionadas pelo Pandaka como membro de um grupo estigmatizado e pária, tal como acontece com seus atuais colegas, as hijras, bem como sobre a incapacidade ou falta de vontade de trazer satisfação aos seus pais através da produção de crianças nesta vida, ou devido à sua desqualificação para os ritos funerários e de pós-morte.

A origem do termo Pandaka ainda é debatida por acadêmicos budistas e ainda é desconhecido o que e que isso significava durante o tempo de Buda. Alguns comentam que significava um eunuco e ainda listam 5 tipos de Pandaka, sendo que apenas os últimos 3 foram considerados impedidos de ser ordenados.
(1) asittakapandaka: Um homem que ganha a satisfação ao realizar sexo oral em outro homem e ingerir seu sêmen, ou que só se torna sexualmente excitado depois de ingerir o sêmen de outro homem.
(2) ussuyapandaka: Um voyeur, um homem que ganha a satisfação sexual em assistir a um homem e uma mulher fazendo sexo.
(3) opakkamikapandaka: Eunucos, isto é, homens castrados faltando os órgãos sexuais completos. Ao contrário dos outros quatro tipos de Pandaka, Bunmi descreve que estes homens atingem sua condição após o nascimento e não nascem como Pandaka. Leonard Zwilling não chama a esse tipo de Pandaka um eunuco, mas diz que o termo descreve um homem que “atinge a ejaculação através de algum esforço especial ou artifício”.
(4) pakkhapandaka: As pessoas que tornam-se sexualmente excitadas em paralelo com as fases da lua, ou excitam-se durante a quinzena da lua minguante e cessam a excitação durante a quinzena da lua crescente ou, ao contrário, tornando-se sexualmente excitadas durante o período da lua crescente e deixando de ser excitadas durante o período da lua minguante.
(5) napumsakapandaka (às vezes também chamado simplesmente napumsaka): Uma pessoa sem órgãos genitais claramente definidos, seja homem ou mulher, tendo apenas um trato urinário. Outra definição de napumsaka dada por Bunmi é“um [> macho] pessoa que não é capaz de se envolver em atividades como um homem”. Em outros lugares, Bunmi acrescenta que napumsakapandaka nasce sem os órgãos genitais, como punição cármica.

As proscrições do Buda contra certos tipos de pessoas que se juntam a comunidade monástica parecem ter a ver com um “resguardo” da imagem pública da mesma como virtuosa. Seria uma espécie de “conveniência”, o que hoje seria visto como puro preconceito. Não sabemos se foi o Buda que prescreveu tais regras ou isso se deve às “conveniências” de seus discípulos após sua morte. Para pesquisadores como Peter Jackson, estudioso de política sexual e do Budismo na Tailândia, o Buda era inicialmente relutante em permitir que as mulheres se juntassem à comunidade monástica (sangha) pelo mesmo motivo. Jackson explica (verhttp://en.wikipedia.org/wiki/Buddhism_and_sexual_orientation): “O Budismo, o caminho do meio, sempre foi preocupado com a manutenção da ordem social e, desde o tempo do Buda a sangha nunca pretendeu fornecer um veículo universal para a libertação espiritual de todos os indivíduos na sociedade, excluindo explicitamente aqueles que se considera um mau reflexo sobre a vida monástica em termos de normas e atitudes sociais vigentes.”

O “terceiro sexo” é excluído de uma variedade de práticas budistas, além da ordenação:atuar como preceptor em cerimônias de ordenação, fazer doações aos monges mendicantes, pregar, meditar e habilidade de compreender o Dharma (o conjunto de ensinamentos do Buda). Qualquer paralelo aqui com a afirmação cristã de que gays não podem ser salvos, não é forçado, pois as religiões, em sua origem, são amplamente intolerantes com o diverso, o diferente e o que não se encaixa no perfil da maioria. Aliás, uma das tendências mais comuns das religiões em sua formação é uma padronização pela maioria, uma “normatização” e “normalização”. Quem não se encaixa (impedimento moral) ou não tem como se encaixar (impedimento fisiológico), é simplesmente excluído.

Em contraste, textos posteriores, especialmente budistas tibetanos, ocasionalmente dão um valor positivo ao pandaka por seu “meio termo” e equilíbrio. Nestes textos tibetanos,pandaka é traduzido com o termo ma ning, “sem gênero” ou “sem genitália”. Gyalwa Yang Gonpa (monge tibetano do Séc. XIII), uma das figuras significativas no início da escola Drukpa Kagyu, escreve sobre ma ning como sendo um estado de equilíbrio entre a masculinidade e a feminilidade, como “o sopro permanente entre a expiração masculina e a inalação feminina” “o canal equilibrado do Yoga, em oposição ao canal muito apertado do sexo masculino, e o muito solto do sexo feminino”. Há, inclusive, na prática tibetana, Mahakala Ma Ning, uma deidade irada reverenciada sob esta visão, especialmente na escola Nyingma, como um defensor do Dharma. Nas imagens, o macabro Ma Ning tem um coração humano em sua mão, e também uma guirlanda de corações ao redor de sua cintura. Poderíamos dizer que se trata de uma espécie de “deidade gay” ou “queer” no Budismo Tibetano? Quem sabe... um alento para os LGBTs e a possibilidade de um Buda Gay...

Tripitaka (textos budistas mais antigos) referem-se a casos de homossexualidade e transexualidade. Especificamente, o Tripitaka destaca o caso de um monge, Wakkali, que se tornou monge simplesmente porque estava fisicamente atraído pela beleza do Buda. O Tripitaka também destaca um incidente transexual em que um homem casado, com filhos, foi fisicamente atraído por um monge, depois do qual o homem passou por metamorfose e se tornou uma mulher, e se casou com alguém do mesmo sexo. Outra seção do Tripitaka refere-se a um incidente em que um monge novato masturbou um elevado monge ordenado.

A referência mais importante para praticantes leigos quanto à homossexualidade ou comportamento sexual no Budismo está contida no terceiro preceito que se refere à má conduta sexual. No entanto, este preceito em si é um guia insuficiente, uma vez que não faz distinção em relação a orientação ou prática sexual. A fim de aplicar o princípio dentro do terceiro preceito à homossexualidade, deve-se voltar para o princípio budista mais amplo de “não causar sofrimento” e considerar este preceito em uma interpretação holística.

Ao considerar o preceito de má conduta sexual pode-se tirar algumas especificidades para o que é permitido ou não. Questões de estupro, adultério e pedofilia pode ser consideradas como incompatíveis com os ensinamentos budistas, já que causam danos a outros.

A visão do Budismo Tibetano e a polêmica do Dalai Lama anti-LGBT

Padmasambhava (730-805) foi o Buda que levou o Budismo para o Tibete. Ele passou 55 anos transmitindo ensinamentos avançados e secretos a seus alunos. Muitos desses alunos (tertons) foram destinados a renascer para revelar certos ensinamentos (termas) em momentos posteriores para as gerações futuras. Yeshe Tsogyal, uma princesa, era sua principal discípula e consorte de práticas sexuais tântricas – apesar de ser esposa de um rei, ele permitiu esta relação no mínimo incomum! Padmasambhava deu algumas instruções pontuais para Yeshe Tsogyal sobre sexo e homossexualidade. As seguintes citações são tiradas de uma das termas mais importantes transmitidas por Guru Rinpoche ou Padmasambhava. É conhecido como os “Ensinamentos de Dakini”(ver http://www.reversespins.com/buddhismandgays.html):

Má Conduta Sexual ...
Há também ocasiões em que não é adequado ter relações sexuais mesmo com o seu companheiro de direito. ...
3. Não é adequado o intercâmbio em um orifício inapropriado, tais como envolvimento em formas de animais.Tsogyal, ... Como antes, o ato de má conduta sexual é consumado por meio dos quatro aspectos completos, e novamente há três tipos de resultados.

1. Através do resultado da consumação, você vai renascer nos três reinos inferiores. Mesmo se você vir a renascer nos reinos superiores, você vai ter brigas com seu cônjuge e assim por diante.
2. O resultado dominante é que, mesmo em vidas futuras, seus ajudantes, cônjuge e assim por diante serão irresponsáveis e mostrarão vários atos de ingratidão.
3. O resultado correspondente à causa é que suas tendências habituais prejudiciais farão com que você tenha prazer na má conduta sexual.
Tsogyal, se você desistir estes actos e se abstiver deles, você vai obter os opostos de seus resultados, por isso abandoná-los é de grande importância. ...”
(Ensinamentos de Dakini, pp 39-40)

Gampopa (Séc. XII), um dos principais mestres da escola Kagyu do Budismo Tibetano, seguiu a tradição budista indiana, vinda desde Vasubandhu (Séc. III), segundo a qual sexo oral e anal, se com um homem ou uma mulher, são violações do terceiro preceito em relação ao comportamento sexual inadequado. Longchenpa (Séc. XIII), fundador da escola Nyingma, citando textos Mahayana do mestre indiano Asanga (Séc. III), deduziu que no comportamento sexual inadequado incluem-se também as mãos entre as partes inadequadas do corpo para a atividade sexual. Mestres posteriores de todas as escolas do Budismo Tibetano aceitam todas estas especificações.

Sangharakshita, dando uma interpretação moderna para budistas ocidentais, vê o terceiro preceito como referindo-se a evitar a atividade sexual, que é exploradora de qualquer modo ou machuca os outros. Isso significa que seria antiético ter sexo com a esposa ou o marido de alguém se isto é suscetível de perturbar-lhes, como seria antiético ter sexo com o namorado/namorada de alguém, onde isso teria efeitos ruins.Sangharakshita não tem nenhum problema com a homossexualidade, e de fato, às vezes tem sido acusado de favorecer a homossexualidade sobre outras formas de sexualidade. Mas, ele é uma exceção entre os mestres do Budismo Tibetano.

Na prática, as atitudes para com o sexo variam muito entre as diferentes culturas budistas. Por exemplo, em algumas partes do Tibete a poliandria (uma mulher com vários maridos) foi livremente tolerada. Em outras, o Budismo é utilizado para apoiar uma forte condenação à homossexualidade, que parece ser em grande parte cultural. NoTantra da antiga Índia (ensinamento pertencente ao Budismo Vajrayana ou Tibetano), havia algumas práticas de meditação avançada que envolviam um acoplamento sexual em um estado de meditação profundamente absorvido, visualizando um parceiro como umadakini (uma deidade simbólica). Novamente, isto tem sido tolerado dentro de certas circunstâncias muito restritas, especialmente na Escola Nyingma. A relação dePadmasambhava com Yeshe Tsogyal seria desta natureza.

O atual Dalai Lama segue a afirmação tradicional budista tibetana de que o comportamento sexual inapropriado inclui sexo lésbico e gay, e mesmo qualquer outro sexo envolvendo pênis-vagina em relações sexuais com o próprio parceiro monogâmico, quando incluindo sexo oral, anal e masturbação.

Numa entrevista de 1994, ele afirmou: "Se alguém vem a mim e pergunta se a homossexualidade é boa ou não, vou perguntar: 'Qual é a opinião do seu companheiro?' Se ambos concordam, então eu acho que eu diria 'se dois machos ou duas fêmeas concordam voluntariamente em ter satisfação mútua sem implicação de prejudicar outros, então é bom'." No entanto, em seu livro de 1996, Além do Dogma, ele afirma:"Um ato sexual é considerado adequado quando os casais usam os órgãos destinados à relação sexual e nada mais... a homossexualidade, seja entre homens ou entre mulheres, não é imprópria em si mesma. O que é impróprio é o uso de órgãos já definidos como impróprios para o contato sexual."

O que o Dalai Lama propõe? Que gays podem estar juntos, mas não podem ter relações sexuais? Uma hipocrisia tamanha! Na verdade, sua opinião está fundamentalmente atrelada a esta doutrina dos órgãos adequados ao sexo. Resumindo, para quem acha que os mestres budistas estão imunes ao preconceito, é uma opinião fundamentalista vinda de um budista que é considerado um “Buda Vivo”!

Contudo, o tema controverso é a conduta sexual inadequada para um praticante budista, já que o Dalai Lama repetidamente "expressou seu apoio ao pleno reconhecimento dos direitos humanos para todas as pessoas, independentemente da orientação sexual". Ele explicou, em 1997: "Isso é parte do que nós budistas chamamos de má conduta sexual. Órgãos sexuais foram criados para a reprodução entre o elemento masculino e o elemento feminino – e tudo o que se desvia disso não é aceitável do ponto de vista budista", enquanto o sexo não-procriativo pênis-vagina não é considerado má conduta sexual. Mais um fundamento hipócrita? O Dalai Lama admite que "do ponto de vista da sociedade, relações homossexuais de acordo mútuo podem ser de benefício mútuo, agradáveis e inócuas." Inócuas por ocorrerem entre não-budistas? Quem disse que oDalai Lama representa a palavra budista sobre o assunto? Nem sobre o Tibete invadido ele é unanimidade!

Dalai Lama declarou que antes, esteve incerto sobre se uma relação de mesmo sexo não-abusiva e de acordo mútuo seria aceitável dentro dos princípios gerais do Budismo. Ao ter dificuldades em imaginar os mecanismos de sexo homossexual, dizendo que a natureza tinha arranjado órgãos masculinos e femininos "de tal maneira que é muito apropriado... órgãos do mesmo sexo não podem funcionar bem", o Dalai Lama tem dito repetidamente aos grupos LGBT que ele não pode reescrever os textos. O mesmo dizem padres e pastores cristãos fundamentalistas sobre os textos bíblicos. A diferença é que oDalai Lama pensa que este é o tipo de questão que precisa ser discutida por um conselho de anciãos budistas de todas as tradições. Apenas um tal conselho poderia alterar questões relativas ao Vinaya e à ética. Contudo, o Dalai Lama também recomenda a questão da igualdade das mulheres, especialmente em rituais e cerimônias monásticas, sendo algo a ser reconsiderado e revisado. Isso tem acontecido na prática, mas a questão LGBT permanece polêmica e sem “reconsideração” ou “revisão”...

Em 1999, numa entrevista com Alice Thompson, ele declarou de modo enfático, demonstrando seu fundamentalismo anti-LGBT: "Eles querem que eu tolere a homossexualidade. Mas, eu sou um budista e, para um budista, um relacionamento entre dois homens é errado. Algumas condutas sexuais no casamento também são erradas.", falando sobre masturbação e sexo oral. Também disse que "Se uma pessoa não tem fé, é uma questão diferente"... "Se dois homens realmente se amam e não são religiosos, então, está OK para mim." Um discurso moderno de exclusão? Afinal, o que o Dalai Lama deixa claro é que, se os LGBTs querem ser como são, mas não forem religiosos budistas, tudo OK. Isso é exclusão pura e abominável! Um discurso anti-inclusivo feito por um Nobel da Paz! Inaceitável!!! O alento é que ele não representa MESMO a palavra de todos os budistas – mestres, monges e leigos – no mundo.

Numa entrevista com WikinewsTashi Wangdi, representante do Dalai Lama, tentou elaborar melhor a questão, mas só evidenciou mais fundamentalismo, ao dizer que se uma pessoa se envolveu com homossexualidade, "não seria considerada como seguindo todos os preceitos dos princípios budistas. Pessoas não seguem todos os princípios. Muito poucas pessoas podem alegar que seguem todos os princípios. Por exemplo, contar uma mentira. Em qualquer religião, se você perguntar se contar uma mentira é um pecado – dizem os cristãos – , eles vão dizer que sim. Mas você encontra muito poucas pessoas que em algum momento não contam uma mentira. Homossexualidade é um ato, mas você não pode dizer [a pessoa que é homossexual que ela] não é um budista. Ou que alguém que diz uma mentira não é um budista. Ou que alguém que mata um inseto não é um budista, porque há uma forte proibição contra isso." Muito sutil...

Certa vez, o monge budista Theravada Ajahn Brahmavamso escreveu para o JornalWest Australian, respondendo a um artigo publicado ali, em que o Dalai Lama foi citado como tendo dito que a homossexualidade era imoral. Eis o que ele escreveu ao jornal:

"Caro senhor/senhora, o Dalai Lama estava fora de sintonia quando disse (de acordo com o seu artigo no West, 15 de abril, página 7) 'se você é um budista, a homossexualidade é errada. Ponto final.' O Dalai Lama não é o 'papa' do Budismo e, encantador como ele muitas vezes é, às vezes ele erra. Ele é apenas a cabeça de um das quatro principais seitas do Vajrayana (Budismo Tibetano) e ele fala apenas para o seu grupo.

A grande maioria dos budistas em todo o mundo moderno são inspirados a aprender que o Buda certamente não discriminou a homossexualidade. Os ensinamentos fundamentais do Budismo original mostram claramente que não é se a pessoa é heterossexual, homossexual ou celibatária que é boa ou ruim, mas é como uma pessoa usa a sua orientação sexual que contribui para bom ou mau karma.


Portanto, o fato é que o Buda, e, portanto, o Budismo, abraça gays e lésbicas e transexuais com equidade e respeito. Por muito tempo o fanatismo religioso tem causado sofrimento a grupos minoritários em nossa sociedade. Todas as religiões devem ser mais amorosas. Ponto final!" 
Ajahn Brahm

Agora é a opinião de um outro monge budista confrontando o Dalai Lama (que também é monge) em seu argumento de autoridade, colocando-o em seu devido lugar.

A verdade é que, embora o Dalai Lama seja uma das pessoas mais amáveis que se possa imaginar, um Nobel da Paz, é também um tibetano muito tradicional sob vários aspectos - e a cultura tibetana tradicional, como a maioria das culturas, tem idéias muito confusas e enviesadas sobre a homossexualidade. O Budismo Tibetano não deriva suas idéias sobre a homossexualidade dos primeiros ensinamentos do Buda, mas a partir de sutras e shastrasMahayana, o mais antigo dos quais data de cerca de 500 anos depois de Buda. Nesta época, budistas indianos estavam sendo influenciados por várias noções populares indianas, incorporando-as em sua compreensão do Dharma, às vezes com resultados não muito felizes. Uma dessas noções era a idéia de que atos sexuais podem ser julgados certos ou errados dependendo do “lugar, pessoa e orifício”.

Como, exatamente, a lei do Carma pode distinguir um orifício de outro? Outros problemas surgem quando percebemos que muitos homossexuais masculinos praticam sexo entre as coxas e masturbação mútua, em vez de sexo com penetração. E, exatamente qual o órgão sexual que uma lésbica usa para penetrar a vagina de sua parceira? Mais uma vez fica claro que o Dalai Lama (e a tradição responsável por sua opinião equivocada) não tem a mínima noção do que está afirmando.

Segundo as informações dadas por Jeff Wilson no blogue Gay Tibet (verhttp://gaytibet.blogspot.com.br/2009/08/homosexuality-marriage-and-religion-in.html), monges gays eram comuns no Tibete tradicional e em outras culturas budistas, e foram aceitos como parte da sociedade, mesmo sem uma existência do moderno conceito de “orientação homossexual”. Tanto que há um termo tibetano, drombo, que se refere a um parceiro homossexual passivo, muitas vezes alguém em uma relação estreita com um monge. As posturas sócio-religiosas tibetanas consideram a penetração como uma inaceitável violação das regras monásticas de celibato, independente de se as pessoas envolvidas são do mesmo sexo ou de sexos opostos. Assim, a alternativa comumente aceita para um monge foi formar um relacionamento com um drombo, que poderia ser um jovem monge ou alguém da sociedade em geral. Em vez de sexo oral ou anal à moda ocidental, um drombo e seus patronos monásticos ficavam em uma posição agachada - odrombo deitado de costas com suas pernas cruzadas, e o monge ejaculando movendo seu pênis para trás e para frente entre elas. Sem penetração, portanto, nenhuma violação das regras.
E, só para provar que a homossexualidade, o casamento e a religião no Tibete são infinitamente complicados: o sexto Dalai Lama, que se acredita ter renascido como o atual décimo quarto Dalai Lama, foi muito famoso por ser um bissexual extravagante. Apesar disso, o atual Dalai Lama insiste em dizer que relações sexuais com alguém do mesmo sexo é conduta inadequada... Contudo, o fato de que monges pagam drombosmuito jovens para manter relações com eles não parece ser um problema na hipócrita condenação do Dalai Lama aos LGBT. Parece o mesmo caso da hipocrisia do Vaticano que condena gays, mas defende padres pedófilos... O próprio Heinrich Harrer, no livro“Sete Anos no Tibet”, afirma categoricamente que os monges no Potala eram homossexuais... Ninguém precisa ser ingênuo e achar que nos mosteiros tibetanos a situação é diferente dos mosteiros católicos. Lá também há relações entre os mais velhos e os mais novos, e isso já foi denunciado na imprensa internacional algumas vezes.

A visão polarizada do Budismo Theravada atual

Uma das razões para uma certa homofobia contra gays masculinos em países predominantemente budistas como a Tailândia tem a ver com a misoginia e o desejo esmagador por descendentes masculinos em grande parte da cultura asiática. A misoginia muitas vezes se manifesta como um medo quase patológico de que algo num homem possa apontar traços femininos. Assim, para muitos, homens homossexuais parecem excessivamente femininos, e assim, são odiados ou temidos, ou ambos. Em muitas culturas asiáticas a continuação da linhagem é de suma importância, de modo que uniões sexuais que não possam produzir filhos são vistas como pervertidas.

Na Tailândia, alguns setores budistas tradicionais propõem que a homossexualidade surge como uma consequência cármica pela violação de proibições budistas contra a má conduta heterossexual. Estas visões cármicas descrevem a homossexualidade como uma condição congênita que não pode ser alterada, pelo menos, na vida atual de uma pessoa homossexual, e têm sido associadas com apelos por compaixão e compreensão por parte da população que não é homossexual. Mas, a partir do final dos anos de 1980, alguns setores budistas tailandeses mais recentes passaram a considerar a homossexualidade como uma violação intencional da conduta heterossexual “natural” resultante da falta de controle ético sobre os impulsos sexuais. Peter Jackson, estudioso australiano de política sexual e do budismo na Tailândia, escreve que estas posições representam “duas escolas de pensamento amplas sobre a homossexualidade que estão em curso entre os escritores contemporâneos budistas tailandeses, uma de aceitação, a outra de não-aceitação”.

O fator-chave de diferenciação destas posições divergentes é a conceitualização do autor da origem da homossexualidade. Os liberais sustentam que é uma condição que está fora do controle consciente dos homossexuais, tendo origens em erros do passado. Isso se assemelha à visão de alguns espíritas no Ocidente. Os não-liberais defendem que a homossexualidade é uma violação intencional de princípios éticos e naturais. Esta é a visão do Cristianismo fundamentalista. Para Peter Jackson, o fator que causou a mudança na visão budista tailandesa, aumentando o preconceito, foi o surgimento da AIDS e sua equivocada associação aos gays como causadores da síndrome.

Contudo, há defensores da inclusão LGBT no Budismo Theravada, como o já citado monge Ajahn Brahmavamso, que declarou o seguinte, conforme conferência transcrita por Kelvin Wong (Homosexuality and other forms of queerness – Excerpt from Ajahn Brahm - http://heartlandsg.org/2006/12/30/homosexuality-and-other-forms-of-queerness-excerpt-from-ajahn-brahm/):

A primeira coisa que eu gostaria de dizer a partir da perspectiva budista é que, sempre que temos uma decisão ou uma escolha difícil de fazer, temos de olhar para as nossas mentes para ver se temos o que o Buda chama de 'perversões do pensamento' (…). E, particularmente, as atitudes para com os homossexuais, se seus amigos, filhos ou outras pessoas da sociedade, não devem ser pensadas a partir da posição de medo.

Tendo confrontado a homossexualidade só por estar em um país ocidental, esse assunto tem que vir à tona, os monges e monjas e todo mundo tem de enfrentar. Porque há algumas pessoas que vão se tornar seus discípulos e até mesmo querer se tornar monges e monjas e fazer parte da Sangha. Algumas delas são homossexuais, ou alguns dos filhos de seus discípulos são homossexuais.

Muitas vezes, elas fazem a pergunta: 'A homossexualidade quebra os 5 preceitos?' Particularmente, isso diz respeito ao 3º preceito, que diz respeito a má conduta sexual. No entanto, os estudos do significado budista da expressão má conduta sexual certamente não inclui atividades homossexuais. E, é fascinante que o Buda foi certamente consciente sobre a homossexualidade em seu tempo. Havia muitos casos mencionados nas escrituras antigas, especialmente o Vinaya (o código de ética para os monges e monjas), dos atos homossexuais e daqueles que eram dessa forma inclinados, e ele certamente nunca os incluiu sob os 5 preceitos.

Quando falamos sobre o 3º preceito, de má conduta sexual, isso literalmente se refere a adultério ou sexo ilícito, especialmente entre um homem ou uma mulher que não se casaram e cujas relações sexuais foram consideradas inadequadas na época, mas certamente não inclui atividades homossexuais e lésbicas.

Assim, quando olhamos para as questões éticas da homossexualidade, não podemos usar os 5 preceitos, uma vez que eles não se aplicam. O fato de que isso não foi mencionado é uma indicação de que o Buda não achou, no final das contas, que fosse tão ruim, ou uma atividade a ser incluída nos 5 preceitos. E, por isso, temos de tratar logicamente relações homossexuais e lésbicas na mesma categoria do relacionamento heterossexual. Em outras palavras, a lei do carma, o entendimento de bondade e o que traz a felicidade na vida futura e a felicidade nesta vida... o que significa que temos de olhar para a homossexualidade na mesma luz que vemos a heterossexualidade. Em outras palavras, se é uma relação amorosa, de carinho, não-exploradora, com adultos responsáveis em idade apropriada, não parece haver nada de moralmente errado com ela. (...)

Pergunta: Como podemos ajudar pessoas com homofobia a superar seus medos, especialmente os pais de filhos ou filhas gays?

Por minha própria experiência, eu aprendi a superar esses medos reunindo-me com os gays para conhecê-los e ser amigo deles. E, por favor, você não tem que ser gay para ser amigo de uma pessoa homossexual! E, como tal, você pode aprender a partir de suas experiências.

E, de como podemos ajudar os pais a compreender os gays, eu me lembro de algum tempo atrás, um pai estava muito chateado que seu filho era gay e veio me pedir conselhos. E eu lhe disse: 'Quando você entoa a bondade amorosa (na tradição Theravada), você diria: 'Que todos os seres possam estar felizes e bem. Que todos os seres possam estar livres do sofrimento.' Não é o seu filho um desses seres? Por que você distingue as pessoas que são gays, e você odeia seu filho, mas daria amor a animais e vacas e seria um vegetariano? Certamente, você pode estender a sua bondade a todos os seres, incluindo o seu filho?

Pergunta: É um carma ruim nascer homossexual?

No Budismo, se diz que seu carma ruim é ter que nascer de novo [risos e aplausos].
Não é como nós nascemos, os cingapurianos ou ingleses, ou onde, é o que vamos fazer com este nascimento que é importante. Então, se você nasceu com essas tendências, aceite essas tendências e aprenda com elas e, certamente, certifique-se de que suas atividades homossexuais são gentis, acolhedoras e amorosas, e que você não abusa dos impulsos sexuais. Eu acho que o maior perigo da homossexualidade é o abuso de sua sexualidade, assim como, por vezes, a sexualidade masculina é abusada com prostitutas.”

Em suma, “seja sua própria lâmpada”, um ensinamento dos mais libertadores deixado pelo Buda...

A tradição homossexual no Budismo japonês

Vários escritores já notaram a forte tradição histórica da bissexualidade e homossexualidade aberta em instituições budistas masculinas no Japão. Segundo Chigo Monogatari , as chamadas “histórias de acólito” de amor entre monges e seus Chigoeram populares, e essas relações parecem ter sido comuns, ao lado de sexo com mulheres.

Viajantes cristãos ocidentais que foram ao Japão a partir do Séc. XVI têm notado, escandalizados, a prevalência e aceitação de formas de homossexualidade entre os budistas japoneses. O padre jesuíta Francisco Cabral escreveu em 1596 que"abominações da carne" "hábitos viciosos" eram "considerados no Japão como muito honrados; homens de posição confiam seus filhos para os bonzos para ser instruídos em tais coisas, e ao mesmo tempo servir a sua luxúria".

Um estudioso budista japonês do Séc. XVII, Kitamura Kigin, afirmou que o Buda teria defendido a homossexualidade sobre a heterossexualidade para os sacerdotes. Uma lenda popular japonesa atribui a introdução da homossexualidade no Japão a Shingon, fundador Kukai, embora estudiosos agora descartem a veracidade dessa afirmação. No entanto, a lenda serviu para afirmar a relação de mesmo sexo entre homens e meninos no Japão do século XVII.

Não há discriminação contra os homossexuais ou repúdio da homossexualidade noBudismo Shin, fundado no Japão no Séc. XIII, ou de fato, a outras práticas sexuais.

Até o surgimento do Mestre Shinran, fundador do Budismo Shin, havia a crença geral de que você poderia purificar-se através de rituais próprios e abstendo-se de comportamento proibido. Por causa de sua experiência, Shinran era mais realista, entendendo que não podemos simplesmente nos purificar de paixão e desejos humanos. Ele viu que o Buda Amida (Amitabha) nos abraça, apesar destes problemas, e nos permite chegar a um meio ambiente - a Terra Pura - onde podemos deixar essas paixões que não são mais eficazes.

No Hino Shoshinge, Shinran afirma “Fudan bonno toku nehan”, o que significa que atingimos o nirvana sem cortar paixões. Este é um importante reconhecimento. Em outra passagem, ele indica que a quantidade de impurezas não é problema para receber o abraço do voto do Buda Amida e o dom da verdadeira confiança. O Budismo Shin é uma fé de afirmação, aceitando as pessoas como elas são e ajudando-as a desenvolver a espiritualidade profunda para vitalizar a vida. O que elas fazem é uma questão de sua própria consciência, mantendo a intenção do Buda Amida em suas mentes.

Em suma, do ponto de vista do ensinamento budista Shin, geralmente, não há nenhum problema com as relações do mesmo sexo.
Homossexualidade no Budismo chinês

A atitude quanto à homossexualidade entre os praticantes do Budismo na China, segundo o estudioso A. L. de Silva, tem sido de tolerância. Matteo Ricci, missionário jesuíta que viveu na China por vinte e sete anos a partir de 1583, já tinha expressado isso através de seu horror à atitude aberta e tolerante dos sacerdotes budistas chineses à homossexualidade.

O Venerável Hsing Yun, uma das primeiras figuras no Budismo chinês contemporâneo, afirmou belamente que o Budismo nunca deveria ensinar intolerância contra a homossexualidade, e que as pessoas deveriam expandir suas mentes:

O casamento é uma instituição que reflete os valores da sociedade que a sustenta. Se as pessoas de uma sociedade já não acreditam que é importante se casar, então não há nenhuma razão para que eles não possam mudar a instituição do casamento. O casamento é um costume. Costumes sempre podem ser alterados. (…) a verdade suprema da questão é que as pessoas podem e devem decidir por si mesmas o que é certo. Enquanto elas não estão violando os outros ou violando as leis da sociedade em que vivem, então, são livres para fazer o que acreditam que é certo.

(…) A mesma análise poderá ser aplicada a homossexualidade. Muitas vezes as pessoas me perguntam o que eu penso sobre a homossexualidade. Eles se perguntam, é certo, é errado? A resposta é, não é nem certo nem errado. É apenas algo que as pessoas fazem. Se as pessoas não estão prejudicando o outro, suas vidas privadas são o seu próprio negócio, devemos ser tolerantes com eles e não rejeitá-los.

No entanto, ainda vai levar algum tempo para o mundo aceitar plenamente a homossexualidade. Todos nós devemos aprender a tolerar o comportamento dos outros. Assim como esperamos expandir nossas mentes para incluir todo o universo, do mesmo modo também deveríamos procurar expandir nossas mentes para incluir todas as muitas formas de comportamento humano.

Tolerância é uma forma de generosidade e uma forma de sabedoria. Não há nada em qualquer lugar do Dharma que devesse levar alguém a se tornar intolerante. Nosso objetivo como budistas é aprender a aceitar todos os tipos de pessoas e ajudar a todos os tipos de pessoas a descobrir a sabedoria dos ensinamentos do Buda Sakyamuni.”
 
(Hsing Yun, Buddhism Pure and Simple, pp. 137–138)

Hsing Yun é um autor best-seller e um defensor do Budismo Humanista, uma abordagem à reforma do budismo chinês para corresponder às necessidades contemporâneas dos leigos. Mas, há quem se oponha sua visão, como o mestre tradicionalHsuan Hua, que afirmou que a homossexualidade “plantas as sementes que levam ao renascimento nos reinos inferiores de existência”.

A visão da homossexualidade no Budismo Ocidental

Em contraste com o Budismo na Ásia, o moderno Budismo no mundo ocidental é tipicamente associado a uma preocupação com igualdade social, em parte como resultado de sua base de membros vinda da classe média intelectual e suas raízes filosóficas no livre-pensamento e no humanismo secular. Ao aplicar a filosofia budista à questão da homossexualidade, os budistas ocidentais enfatizam a importância que o Buda colocou sobre a tolerância, a compaixão e a busca de respostas dentro de si mesmo, salientando estes valores fundamentais, em vez de examinar passagens específicas ou textos. Por isso, o Budismo ocidental é relativamente gay-friendly, especialmente desde os anos 1990. Como a interpretação do que é má conduta sexual é uma decisão individual e não algo sujeito a julgamento por uma autoridade central, uma visão de aceitar todos os povos, mas rejeitando certos tipos de atos sexuais é mais predominante. Vários LGBT já foram ordenados monges e leigos budistas (Issan Dorsey, Caitriona Reed, Pat Enkyo O'Hara, Soeng Hyang).

Segundo o estudioso ocidental Alexander Berzin“Os textos em tradições budistas foram escritos a partir do ponto de vista de um homem heterossexual. Precisamos explorar a intenção dos ensinamentos sobre má conduta sexual, o que em última análise é eliminar o apego, desejo obsessivo e insatisfação. Se um homem heterossexual não encontra limites para essas emoções perturbadoras, ele poderia ter relações sexuais com mais um outro parceiro, assim como outros homens. Podemos aplicar a mesma lógica e explorar o que constitui apego sem limites e insatisfação para homens ou mulheres homossexuais e bissexuais. Por exemplo, ter relações sexuais com mais parceiros e assim por diante pode ser destrutivo para estes tipos de pessoas também.”

Dzogchen Ponlop Rinpoche, titular das linhagens tibetanas Karma Kagyu eNyingma, em uma palestra de 2008, em Nova York, destacou que para os praticantes leigos do Budismo Tibetano, as relações homossexuais não são melhores ou piores do que as relações heterossexuais, e que apenas relacionamentos não-saudáveis em geral, devem ser evitados. Tanto a sangha Nalandabodhi (fundada pelo Dzogchen Ponlop Rinpoche), como as sanghas Shambhala (fundadas por Chögyam Trungpa Rinpoche) declaram estar acolhendo pessoas de todas as orientações sexuais. OShambhala Meditation Center, de Nova York, hospeda um grupo de prática semanal, o Queer Dharma, especificamente para atender às necessidades da comunidade budista LGBT.

Nesta mesma linha de visão ocidental do assunto, muito útil é transcrevermos alguns trechos de uma entrevista dada pela Lama norte-americana Chagdud Khadro (dirigente espiritual do Chagdud Gonpa, um importante centro do Budismo Tibetano, hoje com sede no sul do Brasil), que chega a contrastar com a própria opinião do Dalai Lama (verhttp://bossazen.blogspot.com.br/2008/11/budismo-x-homossexualidade.html):

Como o budismo encara e explica a homossexualidade?

O budismo prega a plena igualdade entre as pessoas. A sexualidade é apenas uma das diferenças que caracterizam as pessoas. De acordo com Chagdud Rinpoche, qualquer relacionamento pode ser um espaço para se cultivar as seis perfeições do ideal budista. Em uma relação entre pessoas do mesmo sexo, se houver o cultivo de generosidade, disciplina moral, paciência, perseverança, concentração meditativa, sabedoria e manutenção de uma visão pura, então esta é uma relação benéfica para o desenvolvimento da mente. Em termos da homossexualidade, ele apenas prevenia contra o desenvolvimento de aversão ao sexo oposto, porque isto dificulta a obtenção de um corpo humano durante o ‘bardo’ - estado intermediário entre esta vida e a próxima. De acordo com os ensinamentos, no ‘bardo’ alguém que renascerá como uma mulher sente-se atraída por aquele que será seu pai, alguém que renascerá como homem, sente-se atraído pela que será a sua mãe no momento em que presencia a sua própria concepção, então é preciso que haja esta atração para que aquela consciência se junte à união do esperma e do óvulo. Se há aversão ao sexo oposto, naturalmente não há esta atração e isto causaria dificuldades, fora isto, ele não via qualquer problema.

Um casal homossexual poderia livremente freqüentar e seguir o budismo?

Essa situação não interfere na prática do budismo.

O indivíduo homossexual deve se assumir? Ou isso não é recomendado?

Essa é uma questão que a própria pessoa deve julgar e ter a capacidade de decidir. Não deve ser necessariamente de um modo ou de outro. O necessário é viver com integridade. Se a pessoa está ‘no armário’, não se assume, e isto a deixa dividida, em conflito consigo mesma, com seu ser e sua sexualidade, fica difícil manter a integridade. Por outro lado, se a pessoa decide que é homossexual, mas não quer se assumir publicamente e prefere levar uma vida de abstinência ou ser discreta em sua vida sexual, sendo ao mesmo tempo muito honesta consigo mesma, acho que não há problema.

(…) O homossexual está em uma escala inferior ao indivíduo heterossexual?

Os dois são igualmente seres humanos, portanto, não há superior nem inferior entre os humanos. Há apenas esta questão de não se desenvolver aversão ao sexo oposto. Isto parece ser realmente necessário para que haja uma continuidade integrada daquele fluxo mental, ou consciência, na experiência que surge após a morte.”

Realmente, este discurso pode dar margem a dúvidas. Deve-se diferenciar orientação para o mesmo sexo de “aversão” pelo sexo oposto. Se uma pessoa é heterossexual, significa que tem “aversão” ao seu próprio sexo ou simplesmente está orientada para o sexo oposto? Claro que a segunda alternativa é a correta. Então, no caso homossexual também. Ele está simplesmente orientado para o mesmo sexo, não significando isso uma “aversão” ao sexo oposto. Devemos ter cuidado com estas explicações para que não se passe a falsa mensagem de que um homossexual é igual a ter aversão ao sexo oposto.

De qualquer modo, é importante pontuar o fato de que o Chagdud Gonpa, dirigido porChagdud Khadro desde a morte de seu mestre, Chagdud Tulku Rinpoche, tem realizado cerimônias de casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. O termo “casamento” talvez não seja o mais adequado, pois se trata de um ritual de bênção do casal e ratificação dos seus votos budistas, bem como a formalização do desejo auspicioso de ambos de viver juntos e numa base dármica. Contudo, estas cerimônias não são anunciadas publicamente e tudo tem corrido de um modo muito escondido, numa espécie de “templo-armário” budista... Contudo, sei que tais cerimônias ocorrem porque ouvi os relatos diretamente de praticantes do Gonpa. A propósito, há uma grande quantidade de gays e lésbicas entre os praticantes do Chagdud Gonpa, e há rumores de uma lama já ordenada que seria lésbica... Uma visão bem diferente do quadro pintado pelo Dalai Lama em seus comentários ignorantes sobre a sexualidade humana. Isso me faz crer mais uma vez que um Buda Gay é possível... Não enquanto praticante de atos homossexuais, mas enquanto alguém que começou a praticar sendo homossexual e atingiu o estado de Buda, no qual ser heterossexual ou homossexual é irrelevante, já que nesta condição há o completo abandono dos apegos sensoriais e sexuais.

A homossexualidade nos países budistas

Nas escrituras budistas homens homossexuais são chamados asittapandaka e as mulheres são chamadas mulheres de feminilidade incerta (sambhinna) ou mulheres masculinas (vepurisikâ, Vin.II, 271). De acordo com o entendimento da Índia antiga, os homossexuais eram considerados simplesmente como “a terceira natureza” (trtîya Prakrti), ao invés de pervertidos, desviantes ou doentes.

Do ponto de vista budista mais aberto, se um homossexual evita a sensualidade e a licenciosidade da chamada “cena gay” e entra em uma relação amorosa com outra pessoa, não há razão para que ele ou ela não possa ser um budista praticante sincero e desfrutar de todas as bênçãos da vida budista.

Nenhum dos códigos legais dos países budistas tradicionais criminaliza a homossexualidade em si, embora, é claro, hajam penalidades contra estupro homossexual e atos homossexuais com menores assim como há por crimes semelhantes cometidos por heterossexuais. Na maioria dos países budistas hoje, a homossexualidade é geralmente considerada estranha, embora não má ou um mal em si. Tailândia, Laos, Camboja, China, Vietnã, Mongólia, Japão e Coréia do Sul não têm leis contra a homossexualidade entre adultos conscientes. A homossexualidade é ilegal na Birmânia e no Sri Lanka, principalmente porque seus códigos legais foram, em parte, elaborados durante a era colonial, evidenciando uma “contaminação” pelo fundamentalismo cristão. Recentemente, no Sri Lanka, a pena foi aumentada para a homossexualidade em uma resposta irrefletida para o crescente problema do turismo sexual no país.

A visão do Budismo de Nitiren

Conforme o texto intitulado “O Budismo e a Homossexualidade”, compilado porAdriano Brito (ver http://www.estadodebuda.com.br/materias/140-o-budismo-e-a-homossexualidade):

No Budismo de Nitiren Daishonin não há julgamentos sobre a sexualidade ser boa ou má – somente ela existe, nem imposições para que seus praticantes manifestem um comportamento sexual em particular, deixando a decisão para o próprio indivíduo. Em uma de suas viagens para a Europa, o presidente Ikeda proferiu uma orientação sobre o tema, em Paris: 'O Budismo não considera a homossexualidade nem como um mal, nem como um bem. Como todos os senhores sabem, o Budismo é a filosofia da vida e, mais precisamente, a filosofia da vida humana. Quanto à homossexualidade, esta é uma questão que deve ser colocada em outra categoria. Consequentemente, o budismo não considera como um distúrbio ou vício. Como todos os seres humanos são considerados iguais, qualquer que seja a sua condição de vida, todos apresentam a natureza do Buda e podem evidenciá-la através da recitação do Nam-myoho-rengue-kyo. Por isso, é de suprema importância tomar cuidado para não considerar a homossexualidade como um desequilíbrio e absolutamente não pensar que seja um sinal de uma prática incorreta ou fraca.'

(…) Outro ponto a ser destacado é quando a própria homossexualidade é vista como um sofrimento. Neste caso, o budismo ensina a luta para ultrapassar esta manifestação cármica, como qualquer outro desafio a ser enfrentado. Caso o indivíduo se sinta satisfeito com a sua opção sexual, não existe motivos para que modifique o seu comportamento.

Finalizando, ele cita: 'O Budismo concentra-se na iluminação para a vida universal e no auto-aperfeiçoamento de acordo com tal iluminação. A conduta ética e moral naturalmente evolui como conseqüência do auto-aperfeiçoamento, mas não é a preocupação principal. Mas, isto não quer dizer que o budismo defenda a licenciosidade sexual. Moralidade é coisa relativa, que varia de uma cultura para outra. A tentativa de qualquer religião de impor a outra cultura, padrões morais estranhos só pode estimular a rejeição da mesma e a negação do seu poder em praticar o bem. Por essa razão, ensinar a verdade básica, universal e dar apenas ênfase secundária a questões de códigos de ética – como o budismo geralmente procedeu – parece prometer maiores vantagens a todos os interessados, do que dar excessivo destaque a pontos de moralidade que, na melhor das hipóteses, são apenas relativos.'”

O ramo norte-americano da Soka Gakkai International, um novo movimento religioso influenciado pelo Budismo Nitiren, com sede no Japão, desde 1995 começou a realizar cerimônias de casamento para casais do mesmo sexo. Um templo budista em Salt Lake City conectado com a Jodo Shinshu, outra escola budista japonesa, também detém os ritos religiosos para casais do mesmo sexo.

Equivalência do sexo LGBT e heterossexual no Budismo

Na atualidade há várias visões distintas sobre o sexo. São as chamadas “culturas sexuais”. Essas culturas interferem, de certo modo, na visão que as religiões têm do assunto. Algumas religiões se modernizam, adaptando-se às novas noções sobre sexo, enquanto outras mantém sua visão arcaica, fundamentalista. Conforme cada “cultura sexual”, o sexo pode ser considerado: algo bom; depravado e pecaminoso; expressão de amor; expressão da paixão; só para reprodução; o resultado final de um encontro; algo a ser comprado e vendido; algo de que não se deve falar; algo de que se deve sempre falar; a queda da sociedade como a conhecemos; dom de Deus; maldição de Deus; um caminho para a iluminação; um caminho para o inferno; só para ser praticado entre mulheres e homens; para ser praticado entre adultos de qualquer sexo.

No meio de todas essas visões há a “cultura gay”, que inclui lésbicas, transexuais, homossexuais masculinos e bissexuais. Para praticantes budistas pode parecer estranho que um determinado
grupo de pessoas tenha sua própria cultura sexual. LGBTs têm sua própria cultura sexual provavelmente por causa da pressão social, do preconceito e da homofobia, tendo se unido para fins de apoio mútuo, criando assim uma “cultura”. É com essa “cultura” crescente que as várias escolas budistas espalhadas pelo mundo tem que conviver cada vez mais. E, para essa convivência ser mais pacífica e menos desastrada que a convivência do Dalai Lama com os LGBTs, há a necessidade de ampliar os horizontes budistas sobre a sexualidade humana.

As primeiras comunidades monásticas (Sangha) do Budismo foram divididas em uma comunidade para homens e uma para mulheres, pois o entendimento era o de que, pelo impulso sexual dos seres humanos ser tão forte, uma atitude celibatária teria como resultado que tal impulso não interferiria na busca pela iluminação. Então, muitas regras de conduta foram definidas. Entre os vários comportamentos proscritos estava a homossexualidade, mas ela foi incluída simplesmente
porque era um tipo de comportamento sexual, não porque seria inerentemente errado.

No caso da regra que dizia que uma pessoa em particular conhecida como Pandaka não poderia ser ordenada, ainda que Pandakas fossem homens homossexuais, o problema com eles não era sua orientação sexual, e sim a sua exuberância, uma indisciplina sexual e tendência a não refrear suas paixões, o que seria um caos para uma comunidade monástica. Então, o termo Pandaka não se refere a todos os homossexuais masculinos, mas apenas aos que não conseguiriam adotar a vida monástica por causa de sua sexualidade desenfreada. Pessoas heterossexuais com sexualidade desenfreada também estavam interditas à ordenação e as regras valiam para todos, como a proibição de adultério, promiscuidade, estupro, abuso sexual infantil, sexo com menores de idade, sexo com alguém impotente ou em cativeiro, assédio sexual, sexo com animais, masturbação, etc.

Segundo os ensinamentos do Buda, há três fatores que devemos levar em conta ao fazer julgamentos morais: se agimos com os outros como gostaríamos que os outros agissem para conosco; se nossos atos são causa de sofrimento ou de felicidade para os outros; se nossos atos nos levam mais perto de nosso objetivo pessoal de transcender o sofrimento e atingir o Nirvana. Nenhuma outra consideração deve ser feita ao analisar a moral própria ou alheia. Não há mandamentos divinos a ser seguidos, mas a própria consciência que busca discernir com equanimidade.
No caso das relações sexuais, elas seriam permitidas aos leigos desde que não ferissem um dos quatro princípios: haver consentimento mútuo; não causar nenhum dano; não envolver quebra de um compromisso para com outra pessoa; estar envolvido em carinho e respeito, para a satisfação mútua. Assim, sexo homossexual, desde que cumpra tais recomendações, não pode ser considerado inadequado pelos ensinamentos do Buda. No Budismo nem mesmo existe para leigos a recomendação de que o sexo deva ser somente para reprodução!

Na tradição budista mais antiga há várias histórias de homens homossexuais que atingiram o grau de Arhat (um elevado estado de despertar que permite atingir oNirvana) da mesma forma que heterossexuais. É o caso da história de Soreyya,Vakkali e Ananda. Eles atingiram tal estado sem renunciar a sua sexualidade, mas renunciando a seus desejos, o que os Arhats heterossexuais também tiveram que fazer.

Segundo o Budismo, a homossexualidade, assim como a heterossexualidade e a bissexualidade, é uma condição natural e tem algo a ver com uma certa escolha consciente. A combinação de escolhas conscientes, os desejos enraizados que estas escolhas ajudam a criar e eventos traumáticos que contribuíram para nossas preferências sexuais em muitas vidas anteriores resultam no nascimento de uma pessoa que possui o agregado dessas preferências. Então, mesmo nascendo no gênero masculino, ela pode ter uma orientação para o mesmo sexo ou para os dois, ao invés do sexo oposto. Tem a ver mais com tendências, preferências e agregados de vidas anteriores que com um carma ou um fardo condenatório a ser carregado. Mesmo porque, não é quem você foi em existências anteriores, mas quem você é agora que é mais importante. E, meditando, fazendo o bem e adquirindo compaixão por todos os seres, seja gay, lésbica, bissexual, transgênero ou heterossexual, todos possuem as mesma chances de chegar ao Despertar Último, o estado de Buda. Então, o “Buda Gay” é uma realidade! Não há necessidade de ser monge para isso. Não há necessidade de abdicar do sexo. Mas, se o sexo for feito com amor, compaixão e sem causar prejuízos, seja sexo gay ou heterossexual, será conduzente ao Despertar.

Então, a “cultura gay” não está em oposição às regras budistas sobre a conduta sexual, desde que não fira as mesmas recomendações dadas a pessoas heterossexuais.

Em “O Budismo e o homossexualismo” (sic) – verhttp://www.acessoaoinsight.net/arquivo_textos_theravada/abc_budismo.php –,Michael Beisert esclarece algo mais sobre os ensinamentos do Buda a respeito da conduta sexual:
1. Há algum tipo de prática sexual rejeitada pelo Budismo?

Em primeiro lugar é necessário fazer a distinção entre os praticantes Budistas que adotam o monasticismo e aqueles que seguem a vida leiga. O código de disciplina monástica prescreve o celibato para os monges e monjas. Para os leigos há um conjunto de cinco preceitos éticos que devem ser observados, sendo que o terceiro preceito determina que a pessoa deve evitar o comportamento sexual impróprio. (...)

2. O que é um comportamento sexual impróprio?

(…) No caso de duas pessoas leigas que agem com base no consentimento mútuo, onde não há adultério, e onde o ato sexual é uma expressão de amor, respeito, lealdade e calor humano, esse seria um comportamento sexual hábil. E o mesmo critério vale se as duas pessoas forem do mesmo sexo. Do mesmo modo, a promiscuidade, libertinagem e a desconsideração dos sentimentos dos outros fazem com que um ato sexual seja inábil quer seja heterossexual ou homossexual. Todos os princípios empregados para avaliar uma relação heterossexual também são válidos para avaliar uma relação homossexual.

No Budismo podemos dizer que não é o objeto do desejo sexual que determina se um ato sexual é inábil ou não, mas na verdade, a qualidade das emoções e intenções envolvidas.

3. Há alguma objeção do Buda com relação ao casamento do mesmo sexo?

A resposta é “Não.” Na coleção de discursos do Buda não há nenhuma objeção desse tipo. Para ser mais exato, o Buda nem apoiava e tampouco se opunha ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

4. Isso então quer dizer que o Budismo é mais tolerante em relação aos homossexuais?

Algumas vezes o Buda aconselhava evitar um certo tipo de comportamento não porque fosse inábil do ponto de vista ético mas porque colocaria a pessoa em divergência com as normas sociais ou porque poderiam sujeitá-la a sanções legais. Nesses casos, o Buda dizia que evitar esse tipo de comportamento livraria a pessoa da ansiedade e embaraço causado pela desaprovação social e o medo de ações punitivas. Em determinadas situações sociais, esse seria o caso em relação à homossexualidade. Nesses casos, o homossexual tem que decidir se irá se submeter àquilo que a sociedade espera ou se irá tentar mudar os valores sociais.”

Em http://tzal.org/5-3-homossexualismo/, o budista Padma Dorje (Eduardo Pinheiro), tradutor e programador que vive em Porto Alegre, ainda que também se valha do termo inadequado “homossexualismo”, traz mais luz a essa polêmica, respondendo a diversas perguntas:

Qual a posição do budismo sobre a homossexualidade?

Monges não devem se engajar em qualquer ação sexual. Porém, na medida em que tiverem atração pelo mesmo sexo, serão homossexuais. 'Homossexuais não praticantes', porque não devem fazer qualquer tipo de sexo. Com relação ao desejo pelo mesmo ou por outro sexo, não há diferença alguma. Ambos são problemas e obstáculos para a vida do monge. Com relação a leigos, vai de acordo com a cultura onde esse leigo está imerso. Em culturas onde a homossexualidade é vista como um problema, apenas o fato do leigo estar em desacordo com o que é socialmente aceitável pode trazer tensões desnecessárias e problemas para este leigo. Se ele vai conseguir praticar ou não em meio a essas tensões, depende só dele. Em todo o caso, seu refúgio no Buda deve ser mais forte do que qualquer de suas inclinações. (…)

É possível um homossexual se tornar iluminado?

Isso já aconteceu, pelo menos um dos 84 mahasiddhas de Chimpu era homossexual. Embora isso fique subentendido no texto e não esteja dito de forma direta, é a interpretação que qualquer professor budista atual daria.

O homossexual que supostamente alcançou a iluminação mencionado por você era um homossexual “praticante” ou vivia em castidade?

mahasiddha não era um monge. Por outro lado, pensando melhor a respeito, embora ele fosse um homossexual no caminho, ele não poderia ser um 'Buda homossexual'. Isso porque o homossexualismo é uma propensão, um hábito. As doutrinas eternalistas vão querer dizer que uma pessoa 'é' alguma coisa. Mas, segundo o budismo, todos nós já fomos todas as coisas, inclusive homossexuais, e hoje talvez alguns de nós não somos mais, nessa vida. Isso algumas vezes ofende algumas pessoas, porque em geral se acredita que alguém 'é' alguma coisa. No máximo a pessoa está, e um Buda nem mesmo 'está', para si próprio. Um Buda não tem preferência de gênero, e se ele se engaja em atividade sexual, é só para trazer benefício aos seres. Kukuripa, outromahasiddha, tinha uma cadela por namorada, e seu amor por ela foi parte da prática espiritual que o levou a iluminação. O mahasiddha gay tinha um namorado também, mesmo depois de iluminado. Mas ele de forma alguma estava preso ao arco-íris do sonho, que é totalmente impermanente. Em outras palavras, não existe Buda com inclinações pessoais, apenas inclinações em nome das necessidades dos seres. Portanto, tornou-se um display para ensinar pessoas com a mesma inclinação, para dar um exemplo para elas, mas não algo que ele mantinha como um 'eu'. Da mesma forma, se diz que o bodisatva Manjushri se manifestou como uma mulher para seduzir um homem e dar um ensinamento. Se o gênero ou a preferência sexual são hábitos mais ou menos arraigados um que o outro, isso é difícil dizer. Mas, de toda forma, são meros adornos num Buda—o que significa que ele só manifesta qualquer coisa que ele manifesta, pelo outro, e não por algo que ele possui em si como característica sua – o Buda é vazio, portanto ele não pode ser inerentemente gay. Aliás, não só o Buda, mas nenhum de nós. Isso tem uma implicação que horrorizaria muitos gays e a maioria dos que erguem a bandeira gay. Não que seja desejável, bom ou correto – mas alguém pode deliberadamente, segundo o budismo, deixar de ser qualquer coisa, inclusive homossexual. É preciso dizer isso não porque, repito, seja algo louvável de qualquer forma uma 'terapia' que promova uma mudança, mas porque a vacuidade, e a impermanência, são realidades. Vamos colocar em outros termos: alguém pode também deliberadamente se tornar homossexual, mesmo que isso não surja naturalmente. É só criar os hábitos. Do ponto de vista de uma identificação do eu com um hábito, a heterossexualidade é tão ruim como o homossexualidade. Apenas apego e desejo, em sua maior parte egoísta. É extremamente difícil, em qualquer dos mundos, praticar a virtude – não é impossível, mas é difícil. O homossexualismo tem um carma adicional, não tanto nesses tempos, mas ainda em certa medida, de ser uma propensão que não segue o que os outros esperam, em geral, da pessoa – daí o sofrimento, algumas vezes tanta tensão até a pessoa assumir para si própria e para os outros essa propensão sua. Mas isso de forma alguma é motivo de recriminação com relação a alguém, é apenas para lembrar que, se há maior dificuldade, essa propensão foi criada, possui interdependência, com uma causa não-virtuosa – ainda que seja por algum egoísmo, ainda que seja por uma mera identificação do eu. O que não quer dizer que as propensões de heterossexuais não levem também ao sofrimento. Todas as propensões são sofrimento. Com certeza há homossexuais que sofrem menos com sua homossexualidade do que heterossexuais sofrem com sua heterossexualidade – eu diria que é mais raro – mas essa é uma mera circunstância – e que com certeza todos que possuem uma propensão, sofrem com ela, independente de que tipo de propensão seja. No entanto, mesmo praticantes antigos gays que eu conheço tem dificuldade em compreender suas propensões (um termo técnico, outra propensão é o que nos fez nos conectar com a língua portuguesa e nascer num país onde ela é falada, por exemplo) como impermanentes. Por isso as propensões, principalmente se reificadas, são um obstáculo a iluminação, porque há tamanha identificação do eu com algo. Eu SOU isso, ou aquilo, não vai produzir a iluminação da pessoa.”

A resposta a esta última pergunta pode ser entendida de modo equivocado por quem, sendo LGBT e ativista, não seja um praticante budista. Ainda que ela não tenha sido apresentada num modo mais sofisticado e contenha algumas ideias contestáveis, representa a visão tibetana do mecanismo mental que leva às muitas vidas que temos tido, onde uma personalidade se desagrega após a morte, e outra passa a agregar-se num novo renascimento. O Buda Gay que propomos, está mais de acordo com o pensamento de Padma Dorje: um homossexual pode se tornar um praticante, iluminar-se e não ter mais qualquer conexão com sua sexualidade antes do Despertar Último (o Nirvana). É antes um gay que se tornou um Buda mais do que a possibilidade de um Buda Gay. A mesma construção mental vale para a ideia de um Buda Mulher, e há!

A análise de André Otávio Assis Muniz (Dharmananda Mahacarya), no blogueBudismo Aristocrático, em Homossexualidade e Budismo (http://chakubuku-aryasattva.blogspot.com.br/2010/07/homossexualidade-e-budismo.html), a respeito do terceiro preceito, é exegeticamente profunda:

O texto de disciplina moral adotado pela Tradição Tendai, o Brahmajala-Sutra, quando trata do terceiro preceito maior (Conduta Sexual Imprópria), fala em 'engajar-se de forma promíscua em atos sexuais, incluindo com animais, suas mães, filhas, irmãs e outras parentes próximas'. Também diz que o bodhisattva não deve 'engajar-se em conduta sexual imprópria com ninguém'. O que é conduta sexual imprópria? O sutra não especifica.

Uma das especificações mais claras vai aparecer na obra Suhrillekha (Carta a um amigo) de Nagarjuna. Este texto, composto no século II da Era Cristã era endereçado aGautamiputra Shatakarni da dinastia Shatavahana do Sul da Índia. No sub-tópico sobre “Má Conduta Sexual” Nagarjuna escreve:

'O objeto da má conduta sexual pode ser quaisquer dos seguintes: uma mulher com a qual seja impróprio realizar atividade sexual; uma mulher com a qual a atividade sexual seria permissível, mas a parte do corpo, o lugar ou a ocasião sejam impróprios; outro homem ou pessoa sexualmente deficiente.'

Realizando a adequada exegese desse texto temos:

Mulher com a qual seja impróprio realizar atividade sexual é toda mulher, no caso dos celibatários, ou outra mulher que não sua esposa, no caso do não-celibatário.

Mulher com a qual a atividade sexual seja permissível mas a parte do corpo, o lugar ou a ocasião sejam impróprios, se refere ao sexo anal (visto como uma 'imundície' no pensamento indiano ), ao sexo em público, em templos, monastérios ou em momentos como o luto, práticas religiosas, sexo não consentido, etc.

Outro homem, se refere especificamente à prática homossexual e aqui não há distinção entre celibatários e não-celibatários.

Pessoa sexualmente deficiente são os hermafroditas, crianças cujo aparelho sexual não tem a maturidade necessária para o ato, pessoas sem capacidade de escolha, pessoas com problemas de deficiência nos órgãos sexuais, más-formações, etc.

Aparentemente, temos uma condenação explícita à homossexualidade, mas, a sequência do texto derruba essa idéia:

'A concepção é o reconhecimento, de forma não equivocada de qualquer dos objetos entre os mencionados como tal.'

O 'reconhecimento de forma não equivocada' é uma ‘concepção’ que, por sua vez, pode ser de quatro tipos: conceber corretamente o objeto como sendo aquilo que ele é; conceber aquilo que não é o objeto como sendo tal; conceber aquilo que é o objeto como não sendo tal e; conceber aquilo que não é o objeto como não sendo tal.

O homossexual não concebe a alguém do mesmo sexo como o heterossexual. Concebe a alguém do mesmo sexo como o heterossexual concebe a alguém de outro sexo. Ou seja, do ponto de vista de Nagarjuna, heterossexual, o homossexual concebe o objeto (alguém do mesmo sexo) como não sendo tal.

Dessa maneira das duas partes da intenção (concepção e motivação), a primeira já exclui a semente volitiva da quebra de preceito.

Sendo assim, a quebra de preceito referida por Nagarjuna ao rei Gautamiputra, se refere ao heterossexual que, possuindo a concepção de que é o objeto aquilo que ele é (ou seja, alguém do mesmo sexo), tem com ele relações sexuais para aliviar sua lascívia. Esse é o caso de presidiários ou outros indivíduos confinados que, sendo heterossexuais e, na ausência do sexo oposto, mantêm relações homossexuais tentando, às vezes, afeminar o parceiro, tendo plena consciência de que ele é outro homem e, portanto, tendo a correta concepção em relação ao objeto.”

Conclusão

Ainda que tenhamos encontrado algumas discrepâncias e visões preconceituosas pontuais em algumas escolas budistas, podemos dizer que, de maneira geral, o Budismo é uma religião bastante amigável aos LGBT, e tende a aumentar esta visão inclusiva nas próximas décadas, especialmente no Ocidente, onde os direitos dos LGBT estão sendo cada vez mais reconhecidos.
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*Paulo Stekel é jornalista, escritor, músico, poliglota, especialista em religiões, tradições espirituais e línguas sagradas. Ativista LGBT focado na relação entre homofobia e religião, é o criador do Movimento Espiritualidade Inclusiva e possui quase uma centena de artigos sobre espiritualidade, orientação sexual, homofobia religiosa e espiritualidade inclusiva. É praticante budista desde 1995. Começou praticando o Budismo Tibetano, mas hoje se considera um budista independente, não atrelado a uma escola em especial. Contatos: espiritualidadeinclusiva@gmail.com

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Referências da web citadas no artigo e sugestões para consulta (Português e Inglês):


A Zen Buddhist Perspective on Same-Gender Marriage:http://www.qrd.org/qrd/religion/zen.buddhist.perspective.on.same.sex.marriage;

"According to Buddhist Tradition" - Gays, Lesbians and the Definition of Sexual Misconduct:






Buddhism and homosexuality - Theravada Buddhism. Zen Buddhism. Mahayana Buddhism in China:http://www.religioustolerance.org/hom_budd1.htm;

Buddhism and homosexuality - Tibetan Buddhism. Western Buddhism:http://www.religioustolerance.org/hom_budd2.htm;


Buddhist Sexual Ethics: http://www.buddhanet.net/winton_s.htm;


Budismo X Homossexualidade. Lama Chagdud Khadro responde questões sobre homossexualidade segundo a visão do Budismo Tibetano:http://bossazen.blogspot.com.br/2008/11/budismo-x-homossexualidade.html;


Dalai Lama urges 'respect, compassion, and full human rights for all,' including gays: http://www.quietmountain.org/links/teachings/gayrites.htm;


HBSFAQ - Budismo Primordial HBS – Budismo - Perguntas & Respostas - Sobre a ideologia homossexual vista pela doutrina Budista:http://www.budismo.com.br/faq/faq.php?q_id=68;






Homosexuality and other forms of queerness – Excerpt from Ajahn Brahm:http://heartlandsg.org/2006/12/30/homosexuality-and-other-forms-of-queerness-excerpt-from-ajahn-brahm/;

Homosexuality and the original meaning of Pandaka:http://www.buddhistchannel.tv/index.php?id=22,1522,0,0,1,0;

Homosexuality and Theravada Buddhism:http://www.buddhanet.net/homosexu.htm;

Homosexuality in the Japanese Buddhist Tradition:http://www.westernbuddhistreview.com/vol3/homosexuality.html;


Homosexuality, Marriage, and Religion in Tibet - An Endlessly Complicated Situation: http://gaytibet.blogspot.com.br/2009/08/homosexuality-marriage-and-religion-in.html;





Shin and homosexuality: http://shindharmanet.com/shinhs/;





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