Pesquise artigos do blog:

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O jardineiro de Madalena! - cap 2 - O sonho de Adão



O sonho de Adão

By Gilberto Begiato

Felipe entrou pela porta junto com Emanuel e avistou no batente da porta que estava escrito:
            Porta do Paraíso! Alfa e Ômega! Princípio e Fim!
            Será um condomínio, pensou Felipe. Mas ao entrar pela porta logo percebeu que aquilo era extraordinário! As paisagens e a beleza natural transmitiam uma paz e segurança como nunca em sua vida havia experimentado.
            - Que lugar maravilhoso – gritou Felipe.
            - Meu Pai é muito caprichoso. - Disse Emanuel.
            - Seu pai? - Perguntou Felipe.
            - Sim!
            - Ele é dono de tudo isso?
            - Sim!
            - Então você é rico?
            - Digamos que sim!
            Felipe lembrou que seu pai vivia numa pendura danada. Com muito sofrimento e trabalho mantinha o necessário em casa. Era jardineiro e que muitas vezes era obrigado a trabalhar nos finais de semana.
            Felipe então disse a Emanuel:
            - Você é feliz! Além de ter um pai, ele é rico.
            Emanuel respondeu:
            - Felipe o fato de se ter um pai não significa necessariamente felicidade. Há muitos que têm os pais e não são felizes ou não valorizam o que têm. E a felicidade não se encontra na riqueza material e nas grandes posses. A dignidade e honestidade de seu pai valem muito mais do que a riqueza injusta e egoísta. Por isso meu Pai criou tudo isto para seus filhos.
            -Você tem mais irmãos? - Perguntou Felipe.
            - Sim! Todos aqueles que fazem a vontade de meu Pai são meus irmãos e minhas irmãs.
            Emanuel por fim disse:
            - E quanto à exploração que seu pai sofria trabalhando tantas horas por dia e sem descanso é inaceitável e detestável por Deus. Por isso criou e ordenou o respeito ao dia santo. O trabalho foi feito para o homem e não o homem para o trabalho.
            Felipe gostou do que Emanuel lhe disse, pois por diversas vezes o trabalho de seu pai tirava dele a alegria da convivência e da presença tão importante de seu pai em sua vida.
            Felipe disse:
            - Você costuma ler os pensamentos das pessoas sempre?
            Emanuel sorriu e disse:
            - Sim, mas só comento quando for para curar a alma das pessoas.
            Neste exato momento Felipe arregalou os olhos e apontou à sua frente dizendo.
            - Veja! Uma luz enorme!
            Uma forma maravilhosa se mexia à sua frente, mas não mostrava o rosto, quase que se via suas costas. Parecia ser um ser magnífico e de uma presença única inexplicável.
            Felipe ficou extasiado, já não falava, não sabia explicar, mas queria ver Aquele Ser pelo resto da sua vida. É como se ele encontrasse, como que num passe de mágica o equilíbrio e a segurança total da sua vida, o que mais tarde definiu a Emanuel com a palavra: realização.
            - O que ele está fazendo? - Perguntou Felipe.
            - Está criando a obra mais bela e mais amada por Ele: a humanidade.
            - Mas com barro?
            - Do pó vieste e para o pó voltará. Disse Emanuel.
            Então Felipe notou que aquele barro foi-se formando como um vaso nas mãos do oleiro, uma peça formidável, era uma figura humana, um homem, que Aquele Ser parecia estar fazendo com tanto cuidado. Transparecia neste momento um amor incomparável e imensurável àquela criatura de barro. Quando então viu que Ele se inclinava para aquele boneco de barro e tocou com o seu lábio a boca do boneco.
            - O que ele esta fazendo? Está beijando o boneco de barro? Perguntou Felipe.
            - Sim, está soprando através de um beijo a vida para seu filho, a criatura mais bela. É o Ruah! - Disse Emanuel todo feliz - Meu Pai é amor!
            Felipe estava encantado com o que via, não podia definir com palavras humanas o que ali acontecia. Viu diante de seus olhos um boneco de barro se transformar em um ser humano belo. E tudo isso com um beijo de pai. Lembrou que quando era criança beijava seu pai e sua mãe na boca.
            Felipe extasiado afirmou:
            - O criador e sua criatura.
            Emanuel retrucou:
            - O Pai e seu filho amado.
            Felipe não via o rosto do Pai, mas tinha a sensação que aquele Ser Maravilhoso e misterioso lembrava muito seu pai. Também achou o homem ali criado muito parecido com todas as pessoas que conhecia. Então perguntou a Emanuel:
            - Parece que eu conheço o filho! Sua aparência é de alguém conhecido?
            Emanuel respondeu:
            - A humanidade é a imagem e semelhança de Deus.
            E continuou:
            - Este homem se chama Adão. A humanidade é sua extirpe. E todos são parecidos com o Pai. Ele amou tanto a humanidade que a fez parecido com Ele: homem e mulher.
            Neste instante Felipe observou que o Pai estava falando algo ao homem que criou, mostrou uma árvore esquisita e outra muito bela. Depois mostrou diversas árvores, um pomar enorme e diversos frutos.
            Felipe então fez a seguinte observação:
            - Nossa! Quanta abundância! Aqui o homem jamais passará fome.
            - É Felipe, o Pai não é nenhum pouco econômico quando se trata de providenciar o que o homem precisa.
            - Uma coisa que nunca entendi é o porquê de gente passando fome se o mundo é tão providente? - Disse Felipe.
            - Por causa do egoísmo. O Pai constrói e o homem destrói. O Pai reparte e o homem retém para si.
            - O que eles estão conversando? Por que os animais estão todos ali ao redor do homem e do Pai e não atacam e nem são agressivos?
            - O Pai está dizendo ao homem que toda a criação está a serviço dele. Aquilo se chama harmonia. No princípio era assim.
            Neste momento Adão foi tomado de um profundo sono e o Pai tirou de sua costela uma mulher. Felipe achou a cena hilariante. Viu que o homem estava triste e agora via Adão feliz observando a mulher diante de seus olhos.
            - Emanuel! Já vi muitas piadas a respeito disso. Dizem que o homem é melhor porque a mulher é uma cópia do original. Por outro lado ouvi as mulheres dizendo que o homem é um rascunho da mulher.
            Emanuel sorrindo disse:
            - Também já ouvi muito destas piadas. Mas eu prefiro a interpretação que algumas pessoas fazem deste momento. Dizem que a mulher foi tirada da costela de Adão porque possui a mesma igualdade que o homem. Se tivesse sido tirado dos pés diriam que é escrava, inferior. Se tivesse tirada da cabeça, que era superior a ele. Então Deus tirou da costela para mostrar a igualdade entre o homem e a mulher. Do mais qualquer observação que tenha como objetivo inferiorizar uma das partes é fruto de uma disputa mesquinha e vazia.
            - Em sua opinião quem é superior? - Perguntou Felipe.
            - Superior é aquele que se faz servo. É o que não tem medo de morrer pelo outro. O homem completa a mulher e a mulher completa o homem.
            Felipe começou a pegar intimidade com Emanuel e perguntou:
            - E quem não joga em nenhum dos dois times?
            Emanuel respondeu:
            - Deus não faz acepção de pessoas. Deus sabe tudo, conhece tudo e, portanto não pode ser preconceituoso, tem um conceito claro e real e por isso é misericórdia e ama a todos igualmente. O importante é saber que quem ama não erra.
            - E Deus? Ele é homem?
            Emanuel respondeu:
            - Deus não tem sexo.
            - Então porque o chama de Pai?
            - É uma forma que encontramos para ser entendido pela humanidade.
            - Antropomorfismo. Falou Felipe bem baixinho, lembrando que na escola aprendera o significado desta palavra que significava uma forma de pensamento que atribui características ou aspectos humanos a Deus.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Por que deixei de crer em Deus e como estou voltando a crer nele




By Liesel Hoffmann*

Não sou brasileira, mas sou quase. Meus pais Alfons e Helga saíram de Hamburgo em abril de 1990, quando meu irmão Wolfgang e eu éramos crianças de 10 e 3 anos, respectivamente, e se instalaram em Salvador, Bahia. Desde Hamburgo meus pais eram luteranos, e mantiveram a religião na Bahia, apesar da forte presença católica e das religiões afro-brasilienses. Cresci ouvindo falar em Deus como um controlador do universo, a quem os seres humanos devem obediência e medo. Sempre ouvia falar na igreja que Deus é quem permite ou proíbe que as coisas aconteçam em nossa vida. Me lembro de uma vez num sermão o reverendo comparar Deus a um controlador de voo, responsável por manter os aviões no ar. Nesse dia me lembro de ter falado ao meu pai: mas os aviões caem... 

Crescemos e fomos para o bairro da Moóca, em São Paulo, sempre com a visão de Deus como o controlador do Universo. Eu, por ter ido para o Brasil bem nova não tive muitos problemas com o idioma, ao contrário de meu irmão que, assim como meus pais, não entendiam o uso dos artigos e pronomes com substantivos masculinos e femininos, o que os levava a falar coisas com "meu casa", "meu mãe", "minha pai", "a namorado de meu irmã", "meu cunhada" e coisas assim, o que sempre era motivo de piada entre os amigos brasileiros. 

Em 2004, meu irmão resolveu fazer faculdade. Aos 24 anos achou que poderia seguir carreira em São Paulo mesmo, já que meus pais não pensavam em voltar para a Alemanha e ele também não tinha o menor interesse em voltar. Se sentia muito bem no Brasil. Nós no sentíamos bem. Iniciou, em fevereiro, o curso de Publicidade e Propaganda no Presbiteriano Mackenzie, uma das melhores faculdades de São Paulo. Havia acabado de adquirir um carro. Tinha uma belíssima namorada brasileira, que era modelo na época. Ele estava muito feliz com a vida. Falava que era um "quase brasileira", e fazia os amigos rirem com isso. Meu irmão e eu nos dávamos muito bem. Ele era meu melhor amigo e eu era a melhor amiga dele, a ponto de confidenciarmos um com o outro coisas que nem nossos pais sabiam. Ele me ensinou a dirigir e eu o ensinava a falar português. Nós nos amávamos muito. Eu o tinha como um herói, e ele me via como uma boneca de porcelana, com ele mesmo dizia. 

No dia 27 de maio de 2004, ao sair da faculdade, meu irmão foi abordado por três homens que o mandaram entregar o carro. Sem esboçar qualquer reação meu irmão lhes entregou a chave e se afastou. Ao entrar no carro, um dos homens acertou meu irmão com um tiro que foi fatal: na mesma hora ele caiu morto em frente a faculdade. Naquele dia eu perdia uma das pessoas mais importantes da minha vida: Wolfgang Rudolph Jung Hoffmann, o Wolf, meu irmão a quem eu tanto amava, que morreu aos 24 anos. A família entrou em crise: meus pais se desesperaram, meus tios pensaram em fazer justiça com as próprias mãos. Mais ainda: minha crença em Deus se esvaziou por completo. Eu, uma adolescente de 17 anos totalmente descrente de Deus. Me lembro de ter dito: que Deus controlador é esse que permite um rapaz tão cheio de vida como meu irmão morrer de uma forma tão injusta? Ninguém me respondia. Na catedral luterana o reverendo dizia apenas: "deus quis assim". Quis assim como? Ele fica feliz com a desgraça da família dos outros? Onde fica o tal amor que a Bíblia tanto fala?

Para encurtar a história, nos mudamos para o interior de SP em 2004 mesmo e em 2005 voltei para São Paulo, para morar sozinha e iniciar minha vida com meus próprios braços. Em dezembro de 2009 minha família resolveu voltar para Hamburgo, Alemanha. O Brasil, essa terra abençoada de gente alegre, era doloroso demais para minha mãe, que lamenta por ter passado uma tragédia tão grande num país tão bonito. E eu que não tinha nada a perder voltei também, mas agora para Berlin, onde vivo hoje.

Desde que meu irmão se foi perdi totalmente a fé em Deus. Fiquei depressiva. Precise de acompanhamento psiquiátrico. Tive crises emocionais. Tinha momentos terríveis em que precisava ser socorrida por estar em uma crise nervosa. Me lembro de um dia, já em Berlin, durante uma crise emocional onde eu gritava de desespero eu dizer: dá pra sair da minha vida, Deus? Você já me trouxe prejuízos demais. E assim vivi. Não queria correr o risco de crer num Deus que eu pensava proteger os que amo e ter de conviver com novas tragédias. 

Agora, depois de viver e estar totalmente estabilizada aqui, começo a ver Deus de uma outra forma. Li o livro de um teólogo chamado Jurgen Moltmann e venho lendo algumas coisas sobre Deus escritas  por alguns líderes religiosos brasileiros. Um deles é o reverendo Ricardo Gondim, da Igreja Betesda em São Paulo. Estou descobrindo uma outra forma de ver Deus: ele não tem nada a ver com os acontecimentos humanos. Deus não controla nada, mas ama os seres humanos e lhes apoia nos momentos difíceis. Há alguns dias atrás, depois de ouvir um dos sermões do rev. Gondim pela internet cheguei à conclusão: Deus não teve nada a ver com a morte do Wolf, pois ele não permitiu nada, mas foi ele quem me ajudou a aguentar viva quando eu tentei tirar minha vida 15 dias após a morte dele. Comecei a chorar na hora. Pedi perdão a Deus por te-lo culpado pelas desgraças da minha vida. Espero que ele me perdoe por isso! 

Ainda tenho várias dúvidas sobre Deus. E até hoje não me recuperei do trauma da morte do Wolf, mas aos poucos as coisas estão se encaixando. Mas independente de uma coisa e outra agora estou me sentindo melhor comigo mesma. Hoje faz exatamente 8 anos que meu irmão se foi, e é o primeiro ano que passo o dia inteiro sem qualquer crise depressiva. Ainda relembro a cena que vi quando cheguei em frente à faculdade, mas lido melhor com isso. Entendo que todos estamos sujeitos à tragédia.

Espero que esse texto seja mais um passo rumo à cicatrização dessa ferida tão dolorosa. 
___________________________

*Liesel Hoffmann é alemã de Hamburgo, cresceu no Brasil, na Bahia e em São Paulo. No Brasil se formou em publicidade e propaganda e trabalha na redação da revista Der Spiegel

Semente da insaciedade


By Sostenes Lima


Somos continuamente seduzidos pela vontade de ser grandes. Nosso desejo de realizar projetos faraônicos começa bem cedo. Desde criança, desejamos fazer coisas notáveis. Quando adultos, nos metemos em projetos políticos, científicos, sociais, religiosos, artísticos etc. desejando fazer coisas irrepetíveis. Todos nós nutrimos certos projetos messiânicos. Por medo do ridículo, às vezes, conseguimos manter nossos desejos silenciados, mas não reprimidos e inativos. Eles continuam vivos, prontos a virem à tona em oportunidades pouco arriscadas ou embaraçosas.

Mesmo querendo, é muito difícil depor nosso desejo de grandeza. Por exemplo, é muito difícil escrever um texto sem o desejo de que ele seja um grande texto. Quando nos lançamos sobre uma folha em branco, nos deixamos seduzir pela ideia de que o vazio será vencido por um texto magnífico. Nos entregamos à ilusão de que, ao final de cada página, algo incrivelmente criativo virá a existir. É quase impossível escrever um texto desejando-o precário. Não nos sentimos bem em celebrar a precariedade ou mediocridade, em qualquer que área que seja.

Algumas pessoas chegam até a acreditar que são geniais, mesmo não sendo. Alguns até se entregam a uma celebração inebriante (delirante) de sua própria obra, concebendo-a como a última peça da criatividade humana, mesmo o objeto não passando de um (des)arranjo precariamente desenhado. Contudo, o que mais acontece é que mesmo um gênio, como Machado de Assis, costuma ser o “mais austero crítico de si mesmo”. Parece que até os gênios nutrem certa decepção com o que realizam, se comparado com o que desejavam realizar. O que dizer, então, dos mortais e medianos?

Realmente, o desejo de notabilidade, de grandeza, de genialidade não é facilmente saciado. Ou melhor, nunca pode ser saudavelmente saciado. Me parece que só pessoas alucinadas e doentes se sentem grandes e geniais. Em geral, as pessoas desejam ser grandes, mas não se sentem assim, mesmo quando de fato são.

É bom que seja assim. Só conhecemos o Machado de Assis de Dom Casmurro porque ele se desencantou com o que produziu em Iaiá Garcia. Grandes realizações (científicas, artísticas, sociais, tecnológicas etc.) existem porque há na alma humana uma semente de insaciedade, de descontentamento com o que já está pronto, com o que já foi alcançado.

Herdamos isso de Deus. Ele é essencialmente expansivo. Não estou dizendo que Deus sofre de algum tipo de carência de grandeza. Ele é pleno em si mesmo. Contudo, houve um dia em que Ele quis se expandir. Também não sei dizer se Deus se desencantou consigo mesmo. O que posso dizer com garantia é que Deus quis se alargar e criar outros movimentos para si mesmo. O ser humano é uma aventura criativa de Deus, é um passo além do que ele já tinha feito, buscando fazer algo maior e mais sublime.  Não tenho dúvidas de que Deus está sempre em movimento, em atividade, fazendo coisas novas, aperfeiçoando a técnica para empregá-la em sua(s) grande(s) obra(s) prima(s).



domingo, 27 de maio de 2012

Porque a vida é breve (By Gondim)




Ricardo Gondim
Porque a vida é breve me deixo atrair pelo insólito. E com ele, desperto a coragem de correr riscos. Cito Rubem Alves: “Os homens buscam a segurança para fugir da morte. Eles não sabem que a segurança é a morte em vida”. Noto os dias desaparecerem em nacos semanais. As semanas se diluem em meses. Os meses se esfarelam em anos. E os anos se acabam nas décadas. Inconformado com a ladeira do tempo, não permito que a vida despenque em direção ao nada. Se o relógio acelera na loucura do dia a dia, canto com Lenine:

“Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara….”
Porque a vida é breve crio coragem de visitar o passado. Revejo a Gentilândia com todos os meus amigos. Olho para a professorinha de matemática. Pobre mulher, se esforçou muito para que eu aprendesse equação de segundo grau! Mas eu só tinha olhos para a geometria do seu corpo. Enlaço a eternidade para reviver aqueles tempos verdes, inocentes.
Porque a vida é breve tenho ganas de recuperar os livros que nunca me interessei. Diferencio a boa e a má literatura. Redescubro Machado de Assis; e guardo uma lição de Memórias Póstumas de Brás Cubas: a hipocrisia social, de tão avassaladora, só permite honestidade se escrevermos nossa biografia depois de mortos. Sorvo a sabedoria de outros autores. Gente com a genialidade de Graciliano Ramos (o velho Graça) ensina que miséria condena as pessoas a viverem como cadelas – a Baleia, de Vidas Secas. Leio e releio Fernando Pessoa, meu poeta predileto. Em sua angústia existencial, sinto-me convidado a enfrentar as minhas inquietações, mesmo correndo o risco de gerar desespero mais intenso.
Porque a vida é breve intensifico meu amor pela Silvia Geruza, minha mulher. Partilho sonhos com o Villy, meu genro. Peço a Deus boa saúde para acompanhar o crescimento do Naran, do Felipe e da Gabriela, meus netos. Celebro semelhanças e diferenças entre Carolina, Cynthia e Pedro, meus três filhos.
Porque a vida é breve mantenho a disciplina de correr. Suo até ensopar camiseta, calção e tênis. Mesmo anônimo entre milhares, repito a emoção de me sentir um vencedor nas maratonas.
Porque a vida é breve reverencio aqueles que me anteciparam na eternidade. Eu ainda os amo com a dor de uma saudade intermitente. Zelo pela carteira de atleta do papai quando jogava no Corinthians. Decoro a parede de meu escritório com o poema triste que mamãe escreveu, e imprimiu do tamanho de um pôster. Guardo o olhar paradoxalmente forte e melancólico da mulher que me amamentou.
Porque a vida é breve aprendo o paladar do vinho. Provo novos pratos. Escuto música prenhe de poesia. Aguardo os dias de lua imponente. Cheiro meu travesseiro; e, no quarto, sussurro: “sou rei deste espaço inviolável”.
Porque a vida é breve busco entender o que é íntegridade. Anseio me manter fiel ao amigo e bom com o desconhecido. Tento ser terno com os tropeços alheios. Enfrento a injustiça. Saúdo os pacificadores – eles têm o privilégio de serem chamados filhos de Deus.
Porque a vida é breve carrego uma aljava no coração. Guardo nela, coisas que embelezam os meus olhos: a delicadeza das flores, a leveza dos colibris, a folia dos golfinhos, a calma do jabuti, a imponência dos carvalhos e a valsa das marés.
Porque a vida é breve antecipo o momento em que hei de cerrar os olhos. Para aquele derradeiro instante, anelo acreditar que meus piores inimigos serão discretos – que suspirem um simples “Foi-se, então?” ao receberem a notícia fatal. Desejo partir tendo meus filhos do lado. Sei que o olhar amoroso, e sempre perdoador, de minha mulher me dará coragem para atravessar o temido rio.
Porque a vida é breve reafirmo que, tanto na beleza como na crueldade da história, sou crente. Eu creio na vida.
Soli Deo Gloria

sábado, 26 de maio de 2012

A crise na Europa segundo o Papa


 By Alex Rodrigues
Às vezes eu tenho a forte impressão que Joseph Ratzinger, o atual papa, se esforça para dar declarações desprovidas de qualquer sentido. Segundo uma agência de notícias católica, a EWTN, e a tradução e divulgação do site do Paulopes, Ratzinger disse que a atual crise que assola a Europa “nasceu da rejeição de pessoas a Deus, que é quem garante a nossa felicidade”.
Como eu várias outras declarações anteriores, o chefe da ICAR novamente assuma toda a petulância que lhe é peculiar e faz afirmações que, na visão dele, se aplicam a todas as pessoas, quando na verdade fazem sentido apenas àqueles que compartilham da fé dele.
Todavia, o caso agora é ainda pior, pois a afirmação acima, bem como outra proferida no mesmo evento (“A crise que a Europa está ligada a essa negligência, a essa rejeição de abertura para o transcendente.”) simplesmente não fazem o menor sentido, pois vincula uma situação que tem bases sociais e econômicas, assuntos eminentemente seculares, ao declínio e deteriorização da fé religiosa que ele entende como “a Verdadeira” (claro, ou alguém acha que o papa estaria se referindo a quaisquer das centenas de outras vertentes e religiões que existem por aí? Eu duvido.).
É interessante que algumas outras declarações que o papa fez em tom de lamentação, eu considero como verdadeiros avanços.
Segundo ele, “Deus se tornou para muitos o grande desconhecido e Jesus é apenas um grande personagem no passado”. Acertou em cheio! Uma entidade supostamente onisciente, onipresente, oni-sei-lá-o-quê, que existe em algum lugar fora do universo, supostamente controlando-o, uma espécie de “fantasmão amorfo” cuja existência não se apoia em quaisquer evidências racionais, só pode mesmo ser um completo desconhecido, no máximo um produto da imensa criatividade e imaginação humanas. Ele acerta também o fato de Jesus ser apenas um personagem histórico, parte de uma mitologia muito popular, que tomou a dimensão de “salvador da humanidade” devido a uma rede de acontecimentos históricos que favoreceu o mito criado em torno de uma peesoa, aliás, da mesma forma que outros personagens (alguns históricos, outros nem tanto) como Maomé, Rei Arthur, Julio César, Sidarta Gautama, Confúcio, etc, etc, etc.
Além disso, não é de se lamentar que a religião seja relegada apenas ao âmbito do “reino subjetivo“, sendo reduzida “a um fato privado e íntimo, à margem a consciência pública“. Isso, na verdade, é um avanço, inclusive para a liberdade de crença, um direito fundamental de todo ser humano. O fato de as religiões serem assuntos de âmbito privado e não interferirem em decisões públicas é o que garante que cada pessoa possa acreditar (ou não acreditar) no que bem entender.
Enfim, Joseph Ratzinger poderia utilizar melhor a cultura e o conhecimento que ele certamente tem para evitar declarações tão falaciosas e sem sentido como essas.

As leis reparatórias dos sumerianos, o talião e o enigma do perdão




By Rodrigo Ancora da Luz

Muitos séculos antes de Moisés, o direito dos povos começou a ser escrito pelos sumérios em estelas e tábuas de argila na antiga Mesopotâmia, nome este dado pelos gregos ao atual Iraque significando “terra entre rios”.

Situada entre os rios Tigre e o Eufrates, a Mesopotâmia pode ser considerada o berço da nossa civilização ocidental. Formada por inúmeras cidades-reino, eis que vários povos de origens diferentes fixaram-se ali. Nas férteis planícies do sul, estavam os sumérios que alguns místicos acreditam terem-se originado da lendária Atlântida. No centro, uma região de características mais árida, encontrávamos os acadianos. E, ao norte, os assírios que habitavam as montanhas. A economia era agropastoril e havia um considerável comércio fluvial com embarcações subindo e descendo.

Diz a Bíblia que o patriarca Abraão teria vindo de Ur dos caldeus, povo este que só ocupou tal cidade por volta do século IX a.C. Antes disto, porém, Ur chegou a ser um grandioso reino em sua terceira dinastia sob o governo do monarca Ur-Nammu, cerca de 2111 a 2094 a.C., tendo estendido os domínios territoriais de seu país sobre Eridu, Uruk, Nipur, Larsa, Késh e outras cidades menores da Mesopotâmia. Ao seu filho Shulgi (c. 2050 a.C) é atribuída a autoria do código de leis mais antigo até hoje encontrado pelos pesquisadores, tendo sido traduzido por Samuel Noah Kramer(1897-1990) na década de 50 da nossa era.

Eis aí algumas disposições do Código de Ur-Nammu:

1. Se um homem matar outro homem deverá ser morto.
2. Se um homem for culpado de roubo deverá ser morto.
3. Se um homem for culpado de seqüestro deverá ser preso e condenado a pagar 15 shekels de prata.
4. Se um escravo se casar com uma escrava, e esta cativa for posta em liberdade, então nenhum dos dois poderá deixar o cativeiro.
5. Se um escravo se casar com um indivíduo livre, deverá entregar o primeiro filho da união para o seu dono.
6. Se um homem deflorar a esposa virgem de outro homem ele deverá ser morto.
7. Se uma mulher casada dormir com outro homem ela deverá ser espancada até a morte. Mas o homem será posto em liberdade.
8. Se um homem violentar a escrava virgem de outro homem deverá pagar 5 shekels de prata.
9. Se um homem se divorcia da primeira esposa deverá pagar para ela uma mina de prata.
10. Se um homem se divorcia de uma mulher que já tenha sido casada deverá pagar a ela meia mina de prata.
11. Se um homem tiver intercurso sexual com uma viúva sem com ela ter redigido contrato, então não precisará pagar nada.
12. Se um homem for acusado de feitiçaria, mas contra ele não houver provas então esse homem deverá passar pelo “Julgamento Divino”. Se ele for inocente, deverá receber 3 shekels de prata daquele que o acusou.
13. Se uma mulher for acusada de infidelidade deverá passar pelo “Julgamento divino”. Se for inocente, seu acusador deverá lhe pagar a terça parte de uma mina de prata.
14. Se um homem ficar noiva de uma mulher, mas esta for dada a outro homem, então o antigo noivo deverá receber três vezes o valor pago pela moça.
15. Se um homem devolver o escravo fugido a outro homem deverá receber 2 shekels de prata.
16. Se um homem furar o olho de outro homem deverá pagar meia mina de prata.
17. Se um homem amputar o pé de outro homem deverá pagar 10 shekels de prata.
(http://historiadodireitounesp.blogspot.com.br/2010/04/ur-nammu.html)

Com a queda de Ur, através de uma guerra perdida para o Elão (região do sudeste da Pérsia), um novo reino sumeriano passou a ter influência sobre a Mesopotâmia entre os anos de 2033 a 1753 a.C. Até o início do governo de Hammurabi, em Babilônia. Localizada às margens do Diyala, afluente do Tigre, floresceu a cidade de Eshnunna, a qual destacou-se pela importância econômica e política adquirida. Suas normas jurídicas, descobertas em 1947, foram importantíssimas para darem solidez aos governos dos respectivos reis que, durante certo período, submeteram até a Assíria.

Em resumo, o Código de Eshnunna dispunha sobre casamentos, a proteção do mushkênum(classe intermediária entre os homens livres e escravos que suponho serem estrangeiros que trabalhassem para o palácio real), estabelecia valores pecuniários sobre os preços dos produtos, prestação de serviços, irregularidades, salários, juros, indenizações, etc. Excepcionalmente, em somente cinco hipóteses previstas, poderia ser aplicada pelo rei a pena de morte sobre determinados casos tipo o adultério feminino, a defloração por outro homem de uma jovem prometida em casamento e a queda de um muro mal conservado que tivesse causado a morte de um homem livre estando o seu proprietário já notificado pelos funcionários do governo. Porém, a maioria dos conflitos era mesmo resolvida pela reparação pecuniária imposta pelos juízes:

“Além disso: em uma causa (que implique a aplicação de uma compensação) de 1/3 de mina até uma mina de prata, os juízes julgarão a causa (…) Mas um processo de vida (pertence) ao rei.”

Tudo isso nos leva a crer pelas aparências de que as leis de Eshnunna foram mais avançadas do que as regras do talião adotadas amplamente no posterior Código de Hammurabi já no primeiro império babilônico. Porém, fico a pensar como deveria ser a vida numa sociedade onde quase tudo parecia ser resolvido através de somas em dinheiro?!

Em sua festejada obra Uma coleção de direito babilônico pré-hammurabiano. Leis do reino de Eshnunna, editora Vozes, o padre professor manauense Emanuel Bouzon (1933-2006) pesquisou sobre os valores financeiros praticados naquela cidade-reino onde um siclo correspondia a cerca de oito gramas ou um gur, conforme esta relação: 1 gur = 300 litros; 1 sut = 10 litros; 1 qa = 1 litro; 1 mina = 500 gramas.

Um sut de cevada era a diária de um trabalhador no campo e também o aluguel de um jumento, mas não pagava o uso de uma foice (1 sut e 5 qa). Se uma escrava fosse deflorada, o seu dono receberia 1/3 de uma mina de prata. Já uma briga entre dois homens livres (awilum) que resultasse em lesões, poderia custar ao agressor uma mina de prata por um olho, 2/3 de mina pelo corte de um dedo, 1/2 de mina por um dente ou orelha e 10 siclos do precioso metal só pela bofetada recebida. Se um cachorro brabo mordesse um awilum e lhe causasse a morte, o dono do animal pagaria 2/3 de uma mina de prata enquanto que, se a vítima fosse um escravo (wardum), pesavam somente 15 siclos.

Ora, considerando que 1 gur de cevada equivalia a um siclo de prata, eis que a vida de um escravo morto por um animal doméstico feroz importava nada menos do que 4.500 litros do cereal. Logo, se o dono do cão levasse dois bofetões na cara dados pelo proprietário do escravo, a dívida estaria mais do que paga.

Podemos constatar que as leis sumerianas sobre reparação pecuniária influenciaram o mundo por milênios e se relacionam até com a Torá de Moisés quando a Bíblia contempla algumas hipóteses de indenização por ofensas. No Código da Aliança (Êxodo 20.22-23.19), a sedução de uma virgem em Israel poderia resultar em reparação financeira caso o pai recusasse a dar sua filha em casamento. Conforme se lê em Êx 22.16-17, “avançar o sinal” sem nem ao menos estar noivo não era nada barato:

“Se alguém seduzir qualquer virgem que não estava desposada e se deitar com ela, pagará seu dote e a tomará por mulher. Se o pai dela definitivamente recusar dar-lha, pagará ele em dinheiro conforme o dote das virgens.” (ARA)

Por sua vez, em Deuteronômio, a difamação de uma jovem acusada pelo marido de não ter sido entregue virgem pela família poderia render cem ciclos de prata pagos pelo genro ao sogro além do castigo físico (Dt 22.13-19). Tal norma foi imposta para que a dor da humilhação social fosse sentida também na pele de quem violou a honra de uma mulher israelita. Seria o somatório da multa com os açoites. Porém, se pensarmos pelo ponto de vista da esposa, esta jamais conseguiria que o marido lhe desse o divórcio caso fosse de sua vontade (entre os hebreus antigos só o homem poderia dar uma carta de separação).

Atualmente temos o instituto do dano moral que é largamente aplicado pelos tribunais brasileiros e de outros países. Nosso direito não faz nenhum tabelamento de preços para as indenizações, mas prevê constitucionalmente o direito da vítima em ser reparada num valor que seja proporcional ao agravo (art. 5º, incisos V e X). Desta maneira, o constituinte apoiou-se no princípio da razoabilidade para que o Judiciário então fizesse a avaliação do dano imaterial, cabendo ao magistrado decidir sobre quanto o lesionador deve pagar por uma ofensa verbal, um olho que ficou cego, uma restrição indevida no SPC/SERASA ou até mesmo um atraso de horas no voo aéreo.

Mas será que os conflitos conseguem ser realmente pacificados por meio de um pagamento em dinheiro?!

Dificilmente um homem íntegro fica satisfeito por receber uma indenização por calúnias, xingamentos ou agressões físicas. Há vítimas que não querem receber nada do ofensor e optariam até por retribuições mais severas. Seja por orgulho ou por simples impossibilidade de recomposição do dano em dinheiro.

Se a vítima for pessoa muito rica, do que lhe adiantará receber quarenta salários mínimos de um agressor que também seja cheio da grana?!

E o que dizermos da corrupção gerada no meio social em que pessoas começam a viver em função da indústria das indenizações, procurando situações que possam render lucros com o dano moral? Nos Estados Unidos, por exemplo, há quem se jogue até diante de um automóvel para tentar uma grana extra na Justiça e, no Brasil, as coisas não têm sido diferentes na rotina dos Juizados Especiais e Justiça do Trabalho, havendo também advogados que colaboram com o oportunismo de seus clientes.

Curiosamente, a Lei de Moisés acolheu o princípio do talião. É o que se lê no Código da Aliança, além do que consta na Lei de Santidade (Lv 24.19-20) e no Código Deuteronômico (Dt 29.21), repetindo-se, portanto, três vezes na Bíblia:

“Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe.” (Êx 21.23-25; ARA)

Ora, se pensarmos que “olho por olho” não deve ser aplicado literalmente por expressar idiomaticamente o princípio de que a punição deva equivaler à gravidade do crime, então o semita Código de Hammurabi teria sido mais avançado do as leis sumerianas que o antecederam a partir do século XXII a.C. Mas claro que, na avaliação desse progresso, onde penas de até 40 açoites poderiam ser aplicadas ao réu, dificilmente algum humanista concordaria que o criminoso seja punido com castigos físicos nos dias de hoje.

Não deve ter sido por menos que as leis de Eshnunna vieram a ser reformadas no primeiro império babilônico onde o sábio rei Hammurabi adotou o sistema do talião cujo significado literal é “tal qual”. Algo que, embora possa não ter se aplicado literalmente em relação à expressão “olho por olho”, acabou se revelando de qualquer modo brutal porque, no fim das contas, gera uma perda dos dois lados. Funciona bem para por uma sociedade em equilíbrio, mas acaba resultando em duas pessoas lesadas.

Quem já se vingou alguma vez nunca se deu conta da sensação de vazio que é percebida logo depois que a retribuição é consumada? O que fazer depois que o outro recebeu o troco?!

Pois bem. Por que razão Jesus condenou a aplicação da vingança quando teria discursado no Sermão da Montanha (Mt 5.38-42)? Qual o benefício de “dar a outra face” quando deixo de exercer o meu direito de obter uma justa retribuição contra o meu ofensor?

Infelizmente os homens na época de Eshnunna desconheciam o perdão e, se não fosse o enigmático princípio do talião de Hammurabi, talvez a humanidade nem teria chegado a tão grandiosa descoberta. Com isto, abre-se caminho para o amor e para que ocorra uma regeneração social, uma voluntária mudança de atitude por parte do agressor e a recomposição do dano multiplicada por mil, gerando satisfação para todas as partes. Tanto quem libera o perdão quanto quem o recebe passa a compartilhar da alegria da convivência restaurada em que o evento ruim tornou-se em coisa boa.

Que haja mais perdão no mundo!


OBS: A primeira ilustração trata-se de um achado arqueológico do Código de Ur-Nammu e o segundo das leis de Eshnunna. Tem-se em seguida a Bíblia e a capa de um exemplar da nossa Constituição Federal de 1988. Já a última imagem refere-se ao quadro O Sermão da Montanha, uma pintura do artista dinarmaquêsCarl Heinrich Bloch (1834-1890)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Fragmentos e Contradições





Eu queria crescer, para ganhar asas de independência e alçar vôos na liberdade de quem se descobriu mentor do próprio destino.

Eu queria crescer, pois a impetuosidade juvenil não admitia que as regras inibidoras cerceassem as paixões latentes pelo mundo a ser explorado.


Eu queria crescer, para interagir com os anseios e aspirações da minha alma que eram inadiáveis na agenda intensificada pelos sonhos revolutos.

Eu queria crescer, para poder fazer valer e arrogar das prerrogativas que me conferiam o status de emancipado da tutela e sabedoria indesejáveis de quem já havia se “adultecido”.

Eu queria crescer, pois crescendo me tornava auto-suficiente para ser auto-condescendente sem a tortura das eternas explicações dos mesmos procedimentos comuns a todos os mortais.

Eu queria crescer para poder destoar, radicalizar, rebelar , embrutecer e pronunciar em alto e bom som: Eu sou dono do meu próprio nariz!

Eu queria crescer, mas estranhamente hoje eu quero retornar...

As euforias de soltar pipa no morrinho antes mesmo de ter tomado o café da manhã, candidatando-me a severas repreensões por não ter feito o dever de casa veementemente exigido pela professorinha. Aos calafrios e ansiedades do namoro juvenil que faziam acelerar o coração todas as vezes que o meu amorzinho dirigindo a palavra dizia: Oi! A velha cabana onde brincávamos de polícia/ladrão, onde preparávamos com sabor inigualável alguns alimentos que inocentemente furtávamos da dispensa da mamãe ou em algum terreno com pomar, onde fazíamos pactos de eterna fidelidade à amizade gerada nas pequenas diversões e secretas transgressões. A aventura dos acampamentos na Serra do Mursa, do nado no lagoão, das incursões de bicicleta na Serra do Japi, do drible nos seguranças para assistir as sessões circenses. Até mesmo pela tarefa doméstica diária responsabilidade inviolável para quem era apenas um adolescente, valeria a pena!

Eu queria crescer... hoje eu quero retornar... fragmentos e contradições de um ser em mutação!

AS PALAVRAS EM DESTAQUE DOURADO SÃO LINKS PARA LEITURAS ADICIONAIS 

Para comentar visite e prestigie o blog do autor clicando AQUI

O "Evangelho segundo São Barnabé".



By Altamirando Macedo

Uma bíblia de 1500 anos foi descoberta na Turquia, após a prisão de uma quadrilha que comercializava antiguidades de forma ilegal. O livro, feito em couro tratado e escrito em um dialeto do aramaico, língua falada por Jesus, tem as páginas negras, por causa da ação do tempo.

São muitas as vozes que afirmam que esta versão da bíblia turca é o controverso Evangelho de Barnabé, que contradiz o Novo Testamento e aproxima-se da visão de Jesus da religião islâmica.

Há informações de que o Vaticano demonstrou preocupação com a descoberta do livro, e pediu às autoridades turcas que permitissem que especialistas da Igreja Católica pudessem avaliar o livro e seu conteúdo, que se suspeita, contenha o “Evangelho de Barnabé”, escrito no século XIV e considerado controverso, por descrever Jesus de maneira semelhante à pregada pela religião islâmica.

Segundo reportagem do jornal turco Zaman, o livro teria uma cópia do Evangelho de Barnabé. O santo seria um dos 70 seguidores de Cristo e o livro teria sido suprimido dos Evangelhos pela Igreja Católica. Para os muçulmanos, no livro, Jesus teria predito a vinda do profeta Maomé, fundador do Islamismo.
Segundo informações do site Notícias Cristãs, peritos avaliaram o livro e garantiram que o artefato é original. A descoberta do livro se deu em 2000, e desde então, vinha sendo mantido em segredo, guardado em um cofre-forte na cidade de Ancara.

O Evangelho de Barnabé é um pseudepígrafo da Era Medieval que apresenta a história dos Evangelhos de um modo diferente.

Embora o livro seja atribuído a Barnabé, um exame do texto sugere que tenha sido escrito por um italiano do século XIV.. Há uma série de indícios que sugerem ser este o Evangelho de Barnabé citado anteriormente. Contrariando os evangelhos, e em conformidade com o ponto de vista islâmico sobre Jesus, este Evangelho de Barnabé afirma que Jesus não era o filho de Deus, mas um profeta, e chama Paulo de "Enganador." O livro também diz que Jesus ascendeu vivo ao céu, sem ter sido crucificado, e que Judas Iscariotes teria sido crucificado em seu lugar.

A OBRA APRESENTA DIVERSAS DISCREPÂNCIAS E INCOERÊNCIAS. ENTRE AS INCOERÊNCIAS ESTÁ UMA CONFUSÃO ENTRE OS TERMOS 'MESSIAS' E 'CRISTO', OS QUAIS TÊM O MESMO SIGNIFICADO, A SABER, 'UNGIDO', E O AUTOR AFIRMA QUE JESUS TERIA DITO SER O MESSIAS, MAS NÃO O CRISTO. A CONTRADIÇÃO É CLARA O SABER QUE AMBOS OS TERMOS DIVERGEM APENAS EM SEU IDIOMA, SENDO QUE MESSIAS É DO HEBRAICO E CRISTO DO GREGO.

Há erros geográficos e anacronismos que tornam muito difícil a recepção desta obra como sendo realmente redigida por Barnabé. No entanto, os estudos mais independentes estabelecem que a obra conhecida como Evangelho de Barnabé é uma falsificação do século XIV.

De qualquer maneira esta “Bíblia turca” vai trazer muitos dissabores para a igreja cristã, principalmente quando descobrir que a aldeia de Nazaré distava quatorze quilômetros do Mar da Galiléia. E que Herodes e Pilatos nunca reinaram sobre a Judéia ao mesmo tempo. Herodes governou a Judéia de 37 a 4 a.C. enquanto Pilatos governou de 26 a 30 d.C. isto vai centrifugar a piolhenta dos crentes. São nove céus eqüidistantes quinhentos anos na marcha de um homem. Há céus para todos e dá até para ir de fusca.
Com certeza o “Evangelho segundo São Barnabé” vai refutar o apologismo cristão do Novo Testamento.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

SOBRE A BÍBLIA SAGRADA - By ROBERT G. INGERSOLL




(Escrito em 1894  By ROBERT G. INGERSOLL)

Alguém precisava dizer a verdade sobre a Bíblia. Os padres não ousariam, pois seriam expulsos de seus púlpitos. Os professores nas faculdades não ousariam, pois perderiam seus salários. Os políticos não ousariam, pois seriam derrotados. Os editores não ousariam, pois perderiam seus leitores. Os comerciantes não ousariam, pois perderiam seus clientes. Os homens de prestígio não ousariam, temendo perder seus admiradores. Nem mesmo os balconistas ousariam, pois poderiam ser despedidos. Então resolvi fazer isso eu mesmo.

Há milhões de pessoas que creem que a Bíblia é a palavra inspirada por Deus — milhões que pensam que este livro é um báculo e um guia, um conselheiro e um consolador; que preenche o presente com paz e o futuro com esperança — milhões que creem que é a fonte da lei, da justiça e da clemência, e que o mundo deve sua liberdade, riqueza e civilidade aos seus sábios e benignos ensinamentos — milhões que acreditam que este livro é a revelação da sabedoria e do amor de Deus ao cérebro e coração do homem — milhões que consideram este livro como uma tocha que sobrepuja a escuridão da morte e derrama seu brilho em outro mundo — um mundo sem lágrimas.

Entretanto, esquecem-se de sua ignorância e selvageria, de seu ódio à liberdade, de sua perseguição religiosa; lembram-se do céu, mas esquecem-se do calabouço da dor eterna. Esquecem-se de que aprisiona a mente e corrompe o coração. Esquecem-se de que é um inimigo da liberdade intelectual. A liberdade é minha religião. Liberdade das mãos e da mente — no pensar e no trabalhar. Liberdade é uma palavra odiada pelos reis e amaldiçoada pelos papas. É uma palavra que despedaça tronos e altares — que deixa a coroa sem súditos e as mãos estendidas da superstição sem esmolas. Liberdade é a consequência, o fruto da justiça — o perfume da clemência. Liberdade é a semente e o solo, o ar e a luz, o orvalho e a chuva do progresso, o amor e a alegria.
I


A origem da Bíblia


Algumas famílias errantes — pobres, esfarrapadas, sem educação, arte ou poder; descendentes daqueles que foram escravizados por quatro séculos; ignorantes como os habitantes da África Central — haviam acabado de escapar de seus senhores ao deserto do Sinai. Seu líder era Moisés, um homem que havia sido criado pela família do faraó e que havia aprendido a lei e a mitologia do Egito. No intuito de controlar seus seguidores, fingiu ser instruído e assistido por Jeová, o Deus desses andarilhos.

Tudo que acontecia era atribuído à interferência desse Deus. Moisés disse que encontrou esse Deus face a face; disse que no topo do Monte Sinai recebeu das mãos desse Deus as tábuas de pedra nas quais, pelas próprias mãos de Deus, os Dez Mandamentos foram escritos, e que, além disso, Jeová o informou sobre quais sacrifícios e cerimônias lhe eram agradáveis e quais leis deveriam governar esse povo.
Deste modo a religião judaica e o Código Mosaico foram estabelecidos.

Agora se alega que essa religião e essas leis foram reveladas e estabelecidas para toda a humanidade.
Naquele tempo esses andarilhos não possuíam comércio com outras nações, não possuíam linguagem escrita, não podiam ler nem escrever. Não possuíam meios para fazer com que outras nações tomassem conhecimento daquela revelação, que assim permaneceu enterrada no linguajar de umas poucas tribos ignorantes, empobrecidas e desconhecidas por mais de dois mil anos.
Muitos séculos após Moisés — o líder — ter morrido, muitos séculos após todos seus seguidores terem morrido, o Pentateuco foi escrito — uma obra de muitos escritores —, e para lhe conferir força e autoridade, afirmou-se que era de autoria de Moisés.

Hoje sabemos que o Pentateuco não foi escrito por Moisés.

Nele são mencionadas cidades que nem existiam na época em que Moisés viveu.
Nele é mencionado dinheiro que só foi cunhado séculos após sua morte.

Assim, muitas das leis não eram compatíveis com viajantes do deserto — leis sobre agricultura, sobre o sacrifício de bois, ovelhas e pombas, sobre tecelagem de roupas, sobre ornamentos de ouro e prata, sobre o cultivo da terra, sobre a colheita, sobre o debulhamento de grãos, sobre casas e templos, sobre cidades de refúgio e sobre muitos outros assuntos que não possuíam qualquer relação possível com uns poucos viajantes famintos.

Não apenas os teólogos inteligentes e honestos admitem que Moisés não foi o autor do Pentateuco; todos admitem que ninguém sabe quem foram os autores ou quem escreveu qual daqueles livros, capítulo ou linha. Sabemos que os livros não foram escritos na mesma geração; que não foram todos escritos por uma única pessoa; que estão repletos de erros e contradições. Admite-se também que Josué não escreveu o livro que leva seu nome, pois nele há referências a eventos que ocorreram muito tempo após sua morte.

Ninguém conhece ou finge conhecer o autor de Juízes; todos sabemos que foi escrito séculos após os juízes terem deixado de existir. Ninguém conhece o autor de Rute, nem o Primeiro ou o Segundo de Samuel; sabemos apenas que Samuel não escreveu os livros que têm seu nome. No 25o capítulo de I Samuel é narrada a criação de Samuel pela feiticeira de Endora.

Ninguém sabe quem foi o autor de I e II Reis ou de I e II Crônicas; tudo que sabemos é que tais livros não têm qualquer valor.

Sabemos que os Salmos não foram escritos por Davi. Neles fala-se da escravidão, a qual somente ocorreu por volta de cinco séculos após Davi ter “dormido” com seus pais.

Sabemos que Salomão não escreveu os Provérbios nem os Cânticos; que Isaías não foi o autor do livro com seu nome; que ninguém conhece o autor de Jó, Eclesiastes, Éster ou qualquer outro livro do Novo Testamento, com exceção de Esdras.

Sabemos que Deus não é citado nem aludido em qualquer aspecto no livro de Éster. Sabemos também que o livro é cruel, absurdo e impossível.

Deus não é mencionado no Cântico dos Cânticos, o melhor livro no Velho Testamento.
E sabemos que Eclesiastes foi escrito por um incrédulo.

Sabemos também que os próprios judeus não haviam decidido quais livros eram inspirados — ou seja, autênticos — até o segundo século após Cristo.

Sabemos que a ideia de inspiração difundiu-se lentamente, e que a inspiração era determinada por indivíduos que tinham certos fins a serem atingidos.


O Velho Testamento é inspirado?


Caso fosse, deveria ser um livro que nenhum outro homem — ou grupo de homens — pudesse produzir.
Deveria conter a perfeição da filosofia.

Deveria estar totalmente de acordo com cada fato da natureza.

Não deveria conter erros em astronomia, geologia ou em quaisquer outros assuntos ou ciências.
Sua moral deveria ser a mais sublime e pura.

Suas leis e suas regras para controle de conduta deveriam ser justas, sábias, perfeitas e perfeitamente adequadas aos fins visados.

Não deveria conter quaisquer coisas que tornassem o homem cruel, vingativo ou infame.
Deveria estar repleto de inteligência, de justiça, de pureza, de honestidade, de clemência e de espírito de liberdade.

Deveria opor-se à contenda, à guerra, à escravidão, à cobiça, à ignorância, à credulidade e à superstição.
Deveria desenvolver o intelecto e civilizar o coração.
Deveria satisfazer o coração e a mente dos melhores e dos mais sábios.
Deveria ser verdadeiro.

O Velho Testamento satisfaz esses quesitos?

Há algo no Velho Testamento — na história, na teoria, na lei, na moral, na ciência — acima e além das ideias, das crenças, dos costumes e dos preconceitos de seus autores e dos povos entre os quais viveram?
Há qualquer indício de uma iluminação de origem sobrenatural?
Os antigos hebreus acreditavam que a Terra era o centro do Universo e que o sol, a lua e as estrelas eram manchas no céu.

Com isso a Bíblia concorda.

Pensavam que a Terra era plana, com quatro cantos; que o céu, o firmamento, era sólido — o piso da morada de Jeová.

A Bíblia ensina o mesmo.

Imaginavam que o sol viajava ao redor da Terra e que, parando-se o sol, o dia poderia ser prolongado.
A Bíblia concorda com isso.

Acreditavam que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos; que haviam sido criados poucos anos antes deles — os hebreus —, e que eles próprios eram seus descendentes diretos.

Isso a Bíblia ensina.

Se há algo certo, é que os autores da Bíblia estavam enganados sobre a criação, a astronomia, a geologia; sobre as causas dos fenômenos, a origem do mal e as causas da morte.

Deve-se admitir que, se um Ser infinito é o autor da Bíblia, então deveria saber todas as ciências, todos os fatos, e estar acima de quaisquer erros.

Se, entretanto, existem erros, enganos, falsas teorias, mitos ignorantes e asneiras na Bíblia, então deve ter sido escrita por seres finitos; ou seja, por homens ignorantes e equivocados.
Nada poderia ser mais óbvio que isso.

Por séculos a Igreja insistiu que a Bíblia era absolutamente veraz; que não continha quaisquer erros; que a história da criação era verdadeira; que sua astronomia e geologia estavam de acordo com os fatos; que os cientistas que discordavam do Velho Testamento eram infiéis e ateus.

Agora as coisas mudaram. Os cristãos educados admitem que os autores da Bíblia não estavam inspirados para as ciências. Agora dizem que Deus — ou Jeová — não inspirou os autores desse livro com a finalidade de instruir o mundo sobre astronomia, geologia ou qualquer ciência. Agora admitem que os homens inspirados que escreveram o Velho Testamento desconheciam totalmente qualquer ciência, e que escreveram sobre a Terra, as estrelas, o sol e a lua de acordo com a ignorância da época.

Foram necessários muitos séculos para forçar os teólogos a admitirem isso. Com relutância, cheios de malícia e ódio, os padres se retirarem de campo, deixando a vitória com a ciência.

Então tomaram outra posição.

Declararam que os autores — ou os escritores — da Bíblia estavam inspirados sobre coisas espirituais e morais; que Jeová queria que seus filhos soubessem de sua vontade e de seu amor infinito; que Jeová, vendo seu povo corrompido, ignorante e depravado, desejou torná-lo compassivo, justo, sábio e espiritual, e que a inspiração da Bíblia reside nas ideias sobre leis, na religião que ensina e em suas ideias governamentais.

Esta é a questão agora:

A Bíblia está mais próxima da verdade em suas noções sobre justiça, piedade, moral ou religiosidade do que está em suas noções sobre ciência? A Bíblia é moral?

Ela apoia a escravidão — ela sanciona poligamia.

Será que algum demônio conseguia fazer pior?

Ela é misericordiosa?

Na guerra, ela alçava a bandeira negra; comandava a destruição e o massacre de todos — dos idosos, dos fracos, dos inválidos, das mulheres e dos bebês.

Suas leis são inspiradas?

Centenas de ofensas eram punidas com a morte. Trabalhar nos domingos ou assassinar seu pai na segunda eram crimes de mesmo peso. Na literatura mundial não há qualquer código de leis mais sangrento. A lei da vingança — da retaliação — era a lei de Jeová. Olho por olho, dente por dente, membro por membro.

Isso é selvageria — não filosofia.

Ela é justa e racional?

A Bíblia contrapõe-se à tolerância religiosa — à liberdade religiosa. Todos que discordassem da maioria eram apedrejados até a morte. Investigar era um crime. Maridos eram ordenados a denunciar e ajudar no assassinato de suas esposas descrentes.

A Bíblia é civilizada?

Ela apoia a mentira, o furto, o roubo, o assassinato, a venda de carne estragada a estranhos e até o sacrifício de seres humanos a Jeová.

Ela é filosófica?

Ensina que os pecados das pessoas podem ser transferidos a um animal — a um bode. Faz da maternidade uma ofensa que precisa ser compensada com uma oferenda.
Dar luz a um menino era mau, dar luz a uma menina era duas vezes mau. (cf. Levítico 12link)
Produzir o óleo que os padres utilizavam era uma ofensa passível de pena de morte.
O sangue de um pássaro morto em água corrente era considerado medicinal. (cf. Levítico 14link)
Um Deus civilizado sujaria seu altar com o sangue de bois, ovelhas e pombas? Transformaria todos padres em açougueiros? Deliciaria-se com o odor de carne queimando?


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...