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sexta-feira, 30 de março de 2012

A libertação dos homens peixes




Andando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: “Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens”. No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Eles estavam num barco com seu pai, Zebedeu, preparando suas redes. Jesus os chamou, e eles, deixando imediatamente seu pai e o barco, o seguiram. (Evangelho de Mateus 4.18-22; Nova Versão Internacional - NVI)


Se, nos dias de hoje, Jesus passasse por dois pescadores na Baía de Guanabara e os chamassem dizendo que faria deles “pescadores de homens”, a expressão talvez pegasse muito mal dentro da nossa cultura maliciosa. Seu convite não seria compreendido, pois apenas temos o conhecimento do significado desta imagem pela leitura textual dos Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) de modo que, sem a Bíblia, pescar homens não faria muito sentido no Brasil.

Por várias vezes, tentei refletir por mim mesmo sobre aquele chamado para que Pedro e André se tornassem os pescadores de homens. Buscava obter um entendimento mais profundo da passagem bíblica em comento do que aquilo significasse, mas não chegava a nenhuma conclusão, suspeitando apenas de uns meses para cá que pescar homens talvez fosse algo relacionado ao linguajar dos judeus nos séculos I e II da nossa era.

De fato, se quisermos empreender uma exegese dos Evangelho, torna-se aconselhável estudar a Tanak, isto é, a Bíblia hebraica, a qual corresponde aos livros do Antigo Testamento cristão, visto que Jesus e os autores do Novo Testamento utilizavam-se de expressões comuns da tradição dos judeus presentes no cotidiano da época.

Lendo o livro “O Autêntico Evangelho de Jesus”, de Geza Vermes, pude então confirmar que, realmente, a locução “pescadores de homens” já era algo existente na cultura dos judeus, mas que fora empregada por Jesus de uma maneira brilhante para chamar alguns de seus primeiros seguidores.

De fato, os profetas Jeremias e Habacuque também fizeram uso dessa imagem verbal, como se pode observar nas seguintes passagens de juízo dirigidas aos israelitas por volta do século VI a.C:


“Mas agora mandarei chamar muitos pescadores”, declara o SENHOR, “e eles os pescarão. Depois disso mandarei chamar muitos caçadores, e eles os caçarão em cada monte e colina e nas fendas das rochas. (Jr 16.16; NVI)


Tornaste os homens como peixes do mar, como animais, que não são governados por ninguém. O inimigo puxa todos com anzóis, apanha-os em sua rede e nela os arrasta; então alegra-se e exulta. (Hc 1.14-15; NVI)


Curiosamente, os pescadores e os caçadores mencionados por Jeremias podem ser identificados como os inimigos de Israel (os caldeus) e aparecem como executores do julgamento de Deus contra a impiedade de seu povo, o qual é capturado como se fosse peixe.

Ainda segundo Geza Vermes, pode-se também encontrar uma metáfora semelhantes a do profeta nos manuscritos de Qumran em que o poeta hebreu “vê os filhos da iniquidade pegos na rede de pescadores ou capturados por caçadores”, confirmando que, numa época que antecedeu o surgimento do cristianismo e do judaísmo rabínico, a pesca de homens fazia mesmo parte do cotidiano da sociedade judaica na Palestina. Todavia, os rolos do Mar Morto já não se referem à nação israelita, mas sim aos homens que andam no caminho da perversidade, dando a entender que, no decorrer dos séculos, tal ideia dos escritos proféticos expandiu-se na cultura judaica até os tempos de Jesus.

De qualquer maneira, pode-se observar facilmente que as perturbadoras palavras de Jesus mencionadas nos Evangelhos deram um novo sentido à expressão “pescadores de homens” e não tenho dúvidas de que aquele chamado possa mesmo ter despertado o interesse de Simão Pedro e André quando eles receberam o convite para acompanharem o Messias.

Certamente aquele convite de Jesus era bem enigmático e a sua pessoa talvez não fosse desconhecida para Pedro e André. De acordo com a passagem de João 1.35-42, Jesus poderia ter sido apresentado a ambos como sendo o Messias, o “Cordeiro de Deus”, a partir do testemunho de João Batista numa ocasião que, provavelmente, fosse anterior ao episódio narrado em Mateus 4.18-22. Então, depois que João Batista já estava preso, o Senhor retornou para a Galileia (Mt 4.12) e, caminhando pelas margens do lago, encontra novamente Pedro e André.

O chamado de André, Pedro, Tiago e João podem ser comparados ao do profeta Eliseu quando Elias encontra-o arando o campo de sua família e conduzindo a décima segunda parelha de bois (uma coincidência com o número de apóstolos de Jesus e das doze tribos de Israel). Então Elias joga sobre Eliseu seu manto. Este deixou os bois e foi correndo atrás de Elias, atendendo ao chamado (1Rs 19.19-20).

Da mesma maneira, aqueles quatro pescadores da Galileia deixaram de lado suas redes e foram seguir o Messias, crendo que se tornariam “pescadores de homens”. Provavelmente, eles estavam desejando saber o sentido da expressão usada por Jesus e também ansiosos por conhecer o sentido da Vida.

Ainda assim, no que consistiria ser um "pescador de homens"?

A meu ver, a resposta é dada de maneira bem prática nos versículos seguintes que relatam resumidamente o início da obra de Jesus:


 Jesus foi por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo. Notícias sobre ele se espalharam por toda a Síria, e o povo lhe trouxe todos os que sofriam de vários males e tormentos: endemoniados, loucos e paralíticos; ele os curou. Grandes multidões o seguiam, vindas da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e da região do outro lado do Jordão. (Mt 4.23-25; NVI)


Em Marcos, a passagem que segue a vocação dos quatro primeiros discípulos é o ensino de Jesus com autoridade num dia de sábado na sinagoga de Cafarnaum, onde liberta um homem possesso de demônios (1.21-28) e, após o por do sol, tendo já livrado a sogra de Pedro de uma febre (vv. 29-31), efetuou diversas outras curas entre o povo (vv. 32-34).

Pelo poder do Espírito Santo, após seu batismo, Jesus cumpriu o começo do seu ministério com curas milagrosas e expulsando demônios, o que significou a confirmação de sua obra messiânica, a qual consiste na libertação dos homens das redes de Satanás. Ou seja, até a manifestação de Jesus, o povo desviado de Deus fora capturado pelos anzóis dos inimigos e agora estava sendo liberto por quem de fato em poder para libertar.

Numa metáfora, os caldeus e os povos invasores de Israel, anunciados pelos profetas como instrumentos do juízo divino, representam também o domínio espiritual do diabo sobre os homens. Porém, com a chegada do Messias e do Reino de Deus, o adversário é expulso, pois Jesus, com sua autoridade, dá ordens ao demônio que saia. A pesca, a partir de então, passa a ser a pescaria de Deus para a liberdade e salvação das pessoas.

Nos dias de hoje, muitos líderes religiosos dizem ser pescadores de homens, mas nem todos realmente são. Aliás, melhor dizendo, nenhuma religião pesca para libertar as pessoas e sim para oprimir, escravizar, iludir. Trata-se de uma maneira de homens dominarem outros homens.

Confesso que, dentro das igrejas, já ouvi pastores usando a expressão “pescar no aquário do vizinho” para externarem um sentimento de indignação e de reprovação pelo fato de outro líder religioso ter vindo tirar pessoas de seus currais eclesiásticos. Para eles, pescar consiste em aprisionar os homens dentro das suas instituições.

Jesus veio justamente libertar seu povo das garras do adversário, visto que, nos tempos de seus ministério, os homens estavam aprisionados pelas enfermidades, pelos demônios e também pela religiosidade, o que é muito pior. Logo, Deus não quer que sejamos peixes de aquário.

Que se quebrem os aquários!


Em Cristo,

Rodrigo Phanardzis Ancora da Luz

STJ, crianças exploradas e minha indignação (by Marcio R. Silva)



Indignação, perplexidade, incredulidade até. Foi assim que recebi a notícia de que o STJ (Superior Tribunal de Justiça) inocentou um sujeito que manteve relações sexuais com três meninas, com idade de doze anos cada uma. A legislação brasileira considera criminosa qualquer relação sexual com pessoa com menos de quatorze anos, mesmo assim a corte absolveu o homem que praticou os estupros.

Conforme notícia do site do próprio STJ (www.stj.jus.br, acessado dia 30.03.2012), a absolvição não se deu por falta de provas, isso nem se discutiu. O fato, as relações sexuais, foi comprovado. O que ocorreu, para meu espanto, é que a corte entendeu que as meninas de doze anos, repito DOZE ANOS, já tinham muita experiência sexual e já se prostituíam há tempos, o que, segundo eles afasta a ocorrência do crime. Literalmente a decisão diz o seguinte: “Com efeito, não se pode considerar crime fato que não tenha violado, verdadeiramente, o bem jurídico tutelado – a liberdade sexual –, haja vista constar dos autos que as menores já se prostituíam havia algum tempo”.

As “menores” a que se refere a relatora do recurso, sim uma mulher, eram, na época dos fatos, adolescentes com doze anos de idade. Afirmar que elas “se prostituíam havia algum tempo” é reconhecer que elas eram vítimas de crimes sexuais desde quando eram crianças, que haviam sido submetidas à exploração sexual desde tenra idade. Ninguém com doze anos se prostitui, mas sim é submetida à prostituição e à exploração sexual. Meu Deus, são vítimas. Mas no caso julgado por suas excelências foram consideradas as responsáveis pelo estupro, as causadoras do crime, as sedutoras que não deram chance de o agressor resistir. Foram mais uma vez vitimadas. E o adulto agressor? Ah, esse um ingênuo que não teria condições de discernir sua conduta criminosa.

Não podemos aceitar tamanho disparate. Nós, adultos, temos que ter a responsabilidade de proteger nossas crianças de toda forma de exploração e violação de direitos. É isso que impõe o princípio da proteção integral, presente na Constituição Federal. Não é aceitável que crianças sejam submetidas à prostituição e que os adultos exploradores não sejam punidos. É inadmissível que se institucionalize a exploração sexual de crianças e adolescentes. Isso é uma doença, uma chaga social que recebeu a aquiescência, pelo menos por ora, do STJ.

Milhares de crianças e adolescentes ficaram ainda mais vulneráveis depois dessa decisão. Milhares de agressores, estupradores e pedófilos se sentirão mais à vontade para continuar fazendo vítimas. Temos que ser a voz de protesto dessas crianças, já com pouca voz por conta das ameaças que sofrem e que lhes impõe a lei do silêncio, e agora ainda com menos força diante de tamanha injustiça. Nós que a temos, devemos falar.

Chocado com essa postura dos julgadores de uma das mais altas cortes do Brasil, concordo com o já saudoso Millôr Fernandes: “Se isso tudo não for um pesadelo, este país vai mal”.

Márcio Rosa da Silva

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Os anos que me restam (by Gondim)


 (link do site)

Os anos me revestiram de uma impenitente obstinação. Persisto. Não me intimido no pavor de ser jogado na direção do imponderável. A experiência de lidar, constantemente, com alegrias e decepções, tristezas e triunfos me deixou com uma estranha sensação: nada pode espantar-me.

Paradoxalmente, insisto na teimosia e abandono o desafio de mover montanhas.

Por anos, esqueci de contar os meus dias. Desperdicei tempo. Engajado, tentei construir castelos improváveis. Perdi-me no ativismo. Abracei mais projetos do que podia – muitos não passavam de fuga. Dei passos maiores do que as pernas. Na correria, evitei monologar.  Quebrei espelhos para não ficar cara a cara comigo mesmo. Devaneios onipotentes serviram para desancorar a jangada do porto de minha realidade. Delirei com utopias messiânicas. Desenraizei-me.

Hoje, com poucas folhas no calendário, tento redobrar cada instante. Redescubro o ócio. Reaprendo a rotina. Desejo reencontrar-me no des-sufoco. O dia sem espalhafato me basta. Quero viver, simplesmente viver. Sim, consciente dos obstáculos e sem quixotismo, ser, simplesmente ser. Mesmo consciente de que alguma tragédia possa rondar a minha casa, proponho a mim mesmo perder a pressa.

Consternado, noto um vazio embaçando os olhos de antigos companheiros. Vazio tenebroso. Entristecido por vê-los roubados de si mesmos, tatuo na pele um mandamento: viva com intensidade. Não quero perder a alma. Marco a ferro o imperativo de amar a beleza, a justiça, o bem.

A idade abre os meus olhos. Noto ventanias assobiando pelas frestas do castelo que outrora considerei inexpugnável. Eu, adolescente afoito, cedo para o homem da esperança cauta. Eu estava preso, só não queria admitir. A construção de um personagem me consumiu – custou-me caro. Hoje, escancaro janelas e portas. Declaro-me devassável. Perco o medo de fragilizar-me. Já não me tranco para o vento impetuoso que espalha o pó das vaidades.

Entre o desempenho e a contemplação, prefiro apaziguar os olhos. Aprendo a valsar. Sereno, espalho o bálsamo que sara feridas. A pausa tem poder de cura.

O Eclesiastes avisa: existe tempo para tudo. Sim, há tempo, inclusive, de fechar olhos e ouvidos. Tempo de ir para o escuro e esperar o feitiço do ódio desaparecer. Do silêncio, arrancar forças que esvaziam antigos messianismos – todos travestidos de piedade.

Chego a ouvir o barulho do meu rancor, disfarçado de religiosidade, perdendo força. A minha paz precisa dessa fonte de bonança. Desejo a sensibilidade de escutar um ribeiro, que se espreme entre pedras. Procuro, entre vários barulhos, o murmúrio dessas águas despretensiosas. Entro na época própria de declarar: já não me empolgo com o rugir das marés. Prefiro as suaves sinfonias. Em mim, a violenta rebentação dos oceanos cede espaço para a sinfonia dos regatos.

Sim, permiti que se grudassem abatimentos e azedumes no coração. Ainda carrego um bornal com pedregulhos ásperos – metáfora de memórias que cortam. Não as coleciono com orgulho. As quinas afiadas de meu passado dolorido carecem de um tempo moroso, que me permita burilar todas as pedras. Cansado de sentir os cardos da desilusão, também necessito descobrir a terapia de passear em jardins. Já me falaram de pessoas curadas pela beleza das flores e pelo cheiro da mata.

Quem sabe eu reaprenda a sentar em cadeiras de balanço e saiba cultivar uma quietude capaz de fazer-me coincidir comigo mesmo. Prometo: hei de deitar-me, sereno, como fazia nos tempos de menino; vou balançar na rede e deixar o ranger dos ganchos aquietar o sono.

Guardo saudades melancólicas. Visitado por uma nostalgia triste, recuso perder quem eu amo. Eis porque me esforço tanto para passar um cadeado na amargura e desvencilhar-me do narcisismo tolo de querer salvar o mundo. Devo proteger as únicas riquezas que me restam: meus queridos. (Aviso raposas e chacais: – Vocês não destruirão as minhas vinhas; não permitirei que vocês invadam o território onde protejo a minha matilha).

Disponho de menos tempo do que já vivi. Pretendo degustar cada dia com a delicadeza que ele merece. Os anos que me restam podem ser poucos, mas não serão banais.

Soli Deo Gloria

Apresentando meus colaboradores - Alex Pina

Alex pina é um amigo que conheci a pouco, mas percebendo o seu interesse por religião e seu alto intelecto, assim como os demais que compõe a equipe do Mundo da Anja, não hesitei em convida-lo, pois tenho certeza que irá acrescentar muito ao nosso mundo.

Alex, Seja bem vindo ao Mundo da Anja.
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Formado em Filosofia pela Universidade Federal do Pará, atualmente sou professor efetivo na rede estadual de ensino onde leciono a disciplina para jovens no ensino médio.              
Já fui católico, espírita, agnóstico e atualmente me considero ateu materialista.            
Minha área de interesse na Filosofia é a filosofia da ciência, por isso defendi minha monografia sobre a obra de Karl Popper. 

Além de Popper, os filósofos que mais me interessam são Aristóteles, Kant, Hume, Hobbes e Nietzsche.        
Além da filosofia, pesquiso por conta própria mitologias e religiões comparadas e, no momento, é essa a contribuição que pretendo trazer ao blog.


Artigos  de Alex sob o link Artigos Alex Pina

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sobre o Arquétipo Feminino ― “Maria Mãe de Deus”



Por Levi B. Santos  

Disse certa vez, Carl Jung, sobre o rico imaginário religioso: “A certeza interior do parentesco da psique com Deus baseia-se numa experiência arquetípica comprovada, em todas as épocas, pelas pessoas religiosas e criativas”.


Bernard Lewis, em seu livro: “O que Deu Errado no Oriente Médio” (página 79), afirma que “na tradição islâmica, a Trindade, cujo culto o Islã condena como uma blasfêmia quase politeísta, era formada por DeusJesus e Maria

Parece que no Cristianismo e Judaísmo que dominam a cultura ocidental, o lado feminino foi esquecido ou reprimido, tanto é que, nos seus dogmas não há lugar para a deusa mãe. Essas duas principais religiões de nossa cultura se concentram mais no masculino: Deus-PaiDeus-Filho. Porém, é na vertente católica que surge a figura da “mulher santa”, como que para manter o equilíbrio entre os arquétipos masculino e feminino do mundo interior psíquico.

Jung sustentava que a ausência da figura arquetípica feminina no dogma religioso deixava a simbologia da psique capenga. Segundo ele, reprimir o feminino seria o mesmo que ferir a ALMA.

David E. Elkins, em “Além da Religião” (página 56) faz uma alusão muito curiosa sobre a mulher, em contraposição ao arquétipo patriarcal. Diz ele: “A Alma é associada às sombras, à lua e as coisas da noite”.

Carl Jung falava da alma como aquela ‘noite primitiva do cosmos’, antes que houvesse um ego consciente. Em nossa cultura tendemos associar as sombras com o mal. Mas assombras são também associadas à força, à substância, ao mistério e ao princípio feminino. Por exemplo, a Madona Negra, uma imagem que sobreviveu ao catolicismo, é muito reverenciada como possuidora de um grande poder espiritual. O místico São João da Cruzdisse que, ‘revelações e experiências espirituais acontecem à noite. Jung, falava do arquétipo da SOMBRA, sabendo de seu perigo tanto como fonte de paixão como de poder. Poetas e outros artistas descobriram que a criatividade autêntica geralmente provém do lado sombrio da alma’.

É sabido que as mulheres da Grécia Antiga prestavam oferendas às deusas a guisa de proteção. O Matriarcado, que precedeu ao Patriarcado, tinha o arquétipo da “Grande Mãe”em lugar de maior destaque.

Resquícios desse arquétipo matriarcal primitivo da civilização helênica mantém suas ressonâncias na religião católica: O movimento de renovação carismática, apesar de ter muitas características do pentecostalismo, por exemplo, enaltece e roga a virgem Maria.

Maria retratada pelos pintores da antiguidade, assim como as imagens que ornam os templos católicos, configura-se numa mãe dócil e graciosa aconchegando o seu pequenino“menino-deus” nos braços. O fiel, inconscientemente, mitiga o seu desamparo e se sente confortado ao se vê refletido naquele bebê, como que re-experimentando a sensação do tempo em que se percebia como a própria extensão materna que lhe fornecia a seiva da vida, ― o leite.

 Há quem diga que foi logo após a queda do império romano, que a igreja primitiva helenizouMaria, “mãe de Jesus, colocando-a no pedestal que antes era o da deusa Diana deÉfeso.

Joseph Campbell, em seu livro ― ‘As Máscaras de Deus’, (página 63) diz que “na‘cidade-templo’ da Ásia Menor, Éfeso (430 dC), teria se declarado que a virgem Mariafora verdadeiramente o berço de Deus, a grande deusa, a mãe de todas as coisas, representada por Àrtemis (Diana) com inúmeros seios. De acordo com a tradição grega, a Deusa dissera: ‘Eu sou a mãe sem consorte, a Mãe Original; todos são meus filhos, por isso ninguém jamais ousou aproximar-se de mim.’ ”

A humanidade na pré-história ―, dizem alguns historiadores ― passou por uma fase em que o feminino e o materno reinavam com toda sua força de atração simbólica, sexual e materna. Para o antropólogo suíço, Bachofen (1815 -1887)a figura de uma mãe bondosa e protetora da época do Matriarcado, pode ter impregnado o inconsciente do “homus religiosus”. O lado feminino e meigo, como ressonância desse tempo, pode ser percebido na oração da “Ave Maria” recitada solenemente nas escolas, igrejas, festas religiosas e em velórios:

“Ave Maria cheia de graça
Bendita sois vós entre as mulheres
E bendito é o fruto do vosso ventre
Jesus.
Santa Maria Mãe de Deus
Rogai por nós pecadores
Agora e na hora de nossa morte.  Amém”

Goethe foi um que também, sucumbiu à sublimidade desse arquétipo, ao escrever o poema:“O Eterno Feminino”:

‘Todo o efêmero
é apenas uma aparência.
O inacessível
aqui se torna acontecimento.
O indescritível
aqui é feito.
O ‘Eterno-Feminino’
para o alto nos arrasta.”

Edward F. Edinger, em seu livro “O Arquétipo Cristão”, a respeito do mito da “Virgem Maria”, diz algo emblemático: “A virgindade de Maria configura-se como importante parte do simbolismo. Parece haver uma conexão arquetípica entre a virgindade e a capacidade de lidar com o “Fogo Sagrado” (energia transpessoal). Na Roma Antiga as virgens vestais eram as guardiãs da chama sagrada. Entre os incas peruanos mulheres virgens mantinham no templo um fogo santo”.

Adam Mclean, em seu livro “A Deusa Tríplice: Em Busca do Feminino Arquetípico”(página 7), diz algo significativo para nossa reflexão:


“A Deusa é um arquétipo eterno da psique humana, embora a desprezamos e reprimamos ou neguemos exteriormente a sua existência. Desde os primórdios de nossa civilização ela se revela a nós em desenhos  rupestres e em esculturas primitivas, nas grandes mitologias, manifestando-se na nossa cultura atual sob os mais diversos disfarces. Ela faz parte do tecido de nosso ser, com o qual toda a humanidade tem de se relacionar interiormente se desejarmos ter em nossas almas um equilíbrio de base. Ela é parte tão essencial da humanidade que, mesmo se, nos próximos séculos nos tornarmos filhos do Cosmo, deixando a Terra para trás em sua viagem para as estrelas, sem dúvida a encontraremos nas escuras profundezas do espaço”.

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Tributo ao simples (by Gondim)




Ricardo Gondim

“Bem aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”

Palavras morrem, deixam de comunicar, perdem o sentido. Certas virtudes têm a mesma sorte. Caem em desuso. O passar dos anos as joga no ostracismo. Reviravoltas culturais, econômicas, ideológicas fazem com que certos valores, outrora considerados nobres, pareçam irrelevantes. Falar de mansidão, por exemplo, soa piegas hoje em dia. Em algum mosteiro talvez um futuro candidato à beatificação ainda considere o projeto de ser manso.  Quem mais, no mundo, ambiciona o anonimato? Humildade lembra demagogia. Ser simples? Uma fraqueza!

Em “Humano, demasiado humano”, Nietzsche conta a história de um homem medroso e covarde. Faltava-lhe a intrepidez de contradizer os companheiros de partido. “Tinha mais medo da opinião de seus camaradas que da morte. Era um lamentável espírito fraco”. Seus camaradas perceberam então que a covardia dele seria útil. Primeiro o trataram como herói e por fim, mártir. Mas ele permanecia um fraco. Interiormente dizia não enquanto repetia o que os outros desejavam. Mesmo no cadafalso, a instantes de morrer, não deixou de repetir o sim dos pusilânimes. “Ao lado dele, estava um dos seus velhos camaradas, que o tiranizava tanto pela palavra e o olhar, que ele sofreu a morte de maneira mais decente e, desde então, é homenageado como mártir e grande personalidade”. Uma possível lição dessa história é que quem pensa com liberdade, mas adequa o discurso por conveniência, não é humilde, apenas um coitado. Até o absurdo do martírio legitima falsos conceitos de humildade.

Mansidão é, entre as virtudes brandas, uma das mais aviltadas. Fraudada, chancela subserviência. Todo vassalo adora passar por manso. Tomado pelo espírito de rebanho, prefere andar de cabeça baixa. Cai-lhe bem merecer pena. Detalhe: sua voz branda esconde um ego gigantesco. Ele só pensa em preservar-se.  Cordato, repete frases testadas, pois precisa dar-se bem com os donos do poder. Na candura, encarna o pacato dissimulado. Que “não inventa nada, não cria, não empurra, não rompe, não engendra; mas em contrapartida, custodia zelosamente a armadura de automatismos, pré-juízos e dogmas acumulados durante séculos…” (José Ingenieros).

O falso humilde consegue ser modesto. Para quem usa a humildade como degrau, pudor se torna imprescindível. Alguns sossegados metem medo. Quem se acostumou às águas serenas nunca vai propor tese alguma que balance a jangada. Assim, munido de semblante plácido, ele deixa o ambiente pronto para obviedades. Melhor desfrutar das opiniões alheias – quanto mais antigas melhores – do que condenar-se ao tumulto que assola os inquietos. Supostos humildes nunca desaprovam o poder político nem ousam denunciar qualquer blasfêmia social.

Nietzsche afirmou em “Gaia Ciência:

Existe, frequentemente, em suma, uma espécie de humildade receosa, que, quando nos aflige, nos torna para sempre impróprios para as disciplinas do conhecimento. Porque, no momento em que o homem que a transporta descobre uma coisa que o choca, dá meia volta, seja como for, e diz consigo: “Enganaste-te! Onde é que tinhas a cabeça? Isso não pode ser verdade!” De forma que em vez de examinar mais de perto e de ouvir com mais atenção, desata a fugir completamente aterrado, evita encontrar aquilo que o choca e procura esquecê-lo o mais depressa possível. Porque eis o que diz a sua lei: “Não quero dizer nada que contradiga a opinião corrente. Serei eu feito para descobrir novas verdades? Já há demasiadas antigas”.
A verdadeira simplicidade é, antes de tudo, corajosa; destemida, embora não considere nunca as armas do violento. O simples sabe a força que se esconde na singeleza. Quem se vale de armas malignas para impor a vontade se torna igual ao maligno que as empunha. A espiral da barbárie acontece quando mansos passam a recitar a cartilha que ensina combater violência com mais violência.

As maiores ameaças à humanidade nascem da sedução do poder. Poder, – Atenção: anjos, senhoras e senhores – é sempre uma ameaça. Nele está o veneno da arrogância.  Guerras e injustiça se universalizaram porque o mundo enfiou o pé na lógica de que a sobrevivência da espécie depende da subjugação do outro pela força.

Selvageria difere do amor. No centro do universo não predomina a barbárie. Deus é amor. O ato criador primeiro, o fiat lux, só pode ser concebido na gratuidade. E quem cria (ou procria) renuncia à potência.  Simone Weil afirmou: “Se Deus almejasse afirmar-se a partir da potência, nada existiria senão ele próprio”. Deus precisou abrir espaço para o imperfeito, “se retirar”, como escreveu a filosofa francesa.  Em seu passo para trás, na kenosis, o Pai possibilita a história – os processos de humanização.

Fragilidade vem de Deus. Ela suscita docilidade, docilidade cria diálogo e diálogo faz amigos. Deus quer amigos, apenas. Toda altivez é solitária. Só a humildade escancara os salões da convivência. Empáfia, insensível, míope e surda, não passa de eufemismo para inferno.

O simples pede: “me ensine, eu quero crescer”; já o soberbo retruca: “Nada me resta para aprender”.  O manso se mostra flexível porque se reconhece limitado. A rigidez do poderoso o infantiliza; ensimesmado, ele embrutece, enquanto o singelo se habilita para a vida.

Simplicidade e contentamento vivem sob o mesmo teto. O simples não se encanta com o assobio da opulência, ele só quer navegar, despretensiosamente, vida a fora. Não liga se não conseguir assento entre os altivos. Indiferente a cetros, coroas e castelos, sabe valorizar o instante. E assim, disposto a perder a vida, herda a terra.

Soli Deo Gloria

terça-feira, 27 de março de 2012

ABSURDO: Teólogo americano afirma que que o homossexualidade é um crime, assim como o assassinato ou roubo

NOTA DO BLOG Mundo Da Anja:

Mais um maluco "teólogo" (???) que se julga o dono da verdade e da Verdade [sic], fazendo-se porta-voz direto de Deus e seu representante direto na terra! Uma visão tosca, e errada, isto é fato: ERRADA! Não falo com base em hermenêuticas e exegeses, pois mesmo se assim fosse, ficaria óbvio que o tal dr. Cheung está, além de enganado, visivelmente perturbado para escrever tal artigo. Mas falo baseada na máxima que apenas os homens excluem, somente Cristo foi inclusivo... somente Cristo. E é isto o que tenho aprendido e procurado viver: Não excluir  incluir! Em  minha opinião, deviam se preocupar com o ser humano, com a vida, pois é isto que Jesus veio ensinar-nos. O amor à vida, ao ser humano e não a dogmas, doutrinas e teologias. E enquanto não aprendermos a ver isto, sempre seremos menos e piores seres humanos e o mais divino dos demônios!!!

Cada vez que um dogma precisa ser salvo, se mata uma vida!
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Vincent Cheung é o presidente da Reformation Ministries International [Ministério Reformado Internacional]. O autor de mais de vinte livros e centenas de palestras sobre uma vasta gama de tópicos na teologia, filosofia, apologética e espiritualidade escreveu recentemente um artigo sobre o casamento entre homossexuais.
O texto, publicado no site Monergismo.com, Cheung afirma que o homossexualidade é crime tanto quanto um assassinato ou roubo.
Leia o texto na íntegra: 


Casamento “gay”, certamente, significa casamento feliz [Nota do tradutor: no inglês, a palavra gay pode significar alegre]. Contudo, o debate que está acontecendo quase debaixo da rua de onde estou digitando esta mensagem, é sobre casamento homossexual. Talvez no futuro eu escreva sobre o homossexualismo com detalhes, seja num livro ou num artigo. Aqui explicarei somente a direção geral do meu pensamento sobre este assunto.

Até mesmo muitos cristãos que são contra o casamento homossexual, são ávidos em insistir que eles não querem discriminar os homossexuais e, portanto, eles não têm problemas com a “união civil”. Mas eu não faço esta concessão tão prontamente.

Sodomia tem sido uma ofensa criminosa em alguns Estados. Alguns de vocês provavelmente ouviram como policiais capturaram dois homens homossexuais no ato de sodomia no Texas, e lhes acusaram de sodomia. Os homens foram absolvidos porque a corte disse que a lei não deveria interferir em atos pessoais e consensuais entre adultos. Eu não estou familiarizado com os detalhes do caso, mas os detalhes não são importantes –– meu ponto é que o homossexualismo é tecnicamente ainda um crime em alguns lugares, e dizer que o homossexualismo deveria ser considerado um crime não seria inteiramente novidade.

O Antigo Testamento considera o homossexualismo não somente como uma ofensa criminosa, mas também como uma ofensa capital, merecedora de morte. Eu concordo com esta categorização e com esta punição, e há pelos menos uns poucos outros teólogos que também concordam com isto. Isto é apenas dizer que estamos de acordo com a Bíblia sobre o assunto. Assim, os cristãos não deveriam discutir tão apressadamente o casamento e a união civil entre homossexuais. O que eu quero discutir com o incrédulo é, em primeiro lugar, o porquê o homossexualismo não é um crime.

É porque ele é um ato ou um relacionamento entre dois adultos em consentimento? Primeiro, o que é um adulto? O Estado define arbitrariamente o adulto, de forma que uma pessoa de 17 anos de idade não conta. Segundo, por que o ato ou o relacionamento é permitido, se for entre adultos em consentimento? Isto é, antes de mais nada, por que a premissa é verdadeira? Terceiro, visto que todos os argumentos devem, no final das contas, escalar ao nível pressuposicional, devo perguntar finalmente se o ato ou relacionamento tem ou não o consentimento de Deus.

É porque o ato ou relacionamento não fere ninguém? Primeiro, qual é a definição de “ferir”? Se eu disser que o homossexualismo me causa nojo e tira o meu apetite, e, assim, que perco uma degustação perfeitamente deliciosa das coxas de galinha que minha esposa preparou para mim, isto não conta? Por que ou por que não? Ele me “fere” num sentido, não fere? Se ele rouba meu apetite, desperdiça o tempo da minha esposa e desaponta as coxas de galinhas que esperaram tanto tempo no forno, e tudo isto não conta como um “ferir”, então, sobre que tipo de ferir vocês estão falando? Eles devem definir e então defender a definição. Segundo, por que o ato ou o relacionamento deveria ser permitido, conquanto que ele não “fira” alguém? O que faz disto o padrão? E, este é o único padrão de moralidade, ou este é o único assunto para se determinar se o homossexualismo é certo ou errado? Por que ou por que não? Nós poderíamos continuar e continuar, mas como em qualquer outro assunto, o incrédulo não pode dar um só passo além do que lhe permitimos, visto que ele não tem justificativa para nenhum dos passos em seu processo de raciocínio.

Novamente, minha posição não é apenas que os homossexuais não devem se casar, mas que o homossexualismo é um crime, assim como o assassinato ou roubo, de forma que mesmo antes de considerar a união civil, devemos considerar o punir ou não aos homossexuais, com as possíveis punições, abrangendo desde a prisão à execução. Moralmente falando, a união civil e o casamento não deveriam nem sequer aparecer na lista de opções. Mesmo que a moralidade bíblica não requerisse castigo ou execução para o homossexualismo, certamente nenhum cristão deveria argumentar que os homossexuais têm o direito de ter união civil. Mas parece que a maioria dos cristãos não está suficientemente incomodada ou desgostosa com o homossexualismo.

Assim, por que o homossexualismo não é um crime? Por quê? Se eu permitir que a Bíblia defina o que é um crime e o que não é um crime, então, como eu posso não definir o homossexualismo como um crime? Mas, uma vez que alguém perguntar o porquê devo me submeter à definição da Bíblia, então, devemos ir além de uma confrontação sobre o homossexualismo somente, e entrar numa confrontação pressuposicional concernente às nossas diferentes cosmovisões. Assim, um debate ainda mais fundamental e produtivo poderá começar, e é um debate que podemos e devemos ganhar sempre.

Assim como em outros assuntos relacionados à apologética, os cristãos tendem a conceder muito terreno antes de traçar a linha delimitatória e permanecer firme. Assim, vigiem a si mesmos quando conversarem com incrédulos. Não conceda terreno nem permita premissas que você não tenha que conceder ou permitir. Embora as leis da nação possam não mudar para refletir o padrão bíblico, quando diz respeito a debates intelectuais sobre o assunto, não precisamos abrir mão de nada.

_____________________________________
Vincent Cheung é o presidente da Reformation Ministries International [Ministério Reformado Internacional]. Ele é o autor de mais de vinte livros e centenas de palestras sobre uma vasta gama de tópicos na teologia, filosofia, apologética e espiritualidade.

Fonte:http://www.guiame.com.br/noticias
Postei o artigo pra que meus amigos comentem, expressando sua opinião,
Grata,
Anja

Valdemiro desafia repórter a mostrar patrimônio de Edir Macedo

Rezende foi acusado de burlar pagamentopensão alimentícia



Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, desafiou o repórter Marcelo Rezende (foto), da TV Record, a mostrar o patrimônio de Edir Macedo, chefe da Igreja Universal e dono da emissora. 

No programa "Domingo Espetacular" desta semana, da Record, Rezende apresentou reportagem de 26 minutos na qual denuncia que Valdemiro comprou com dinheiro dos fiéis duas fazendas no Mato Grosso, pagando o total de R$ 50 milhões, incluindo gado e benfeitorias. 

Valdomiro disse que Rezende mentiu ao mostrar uma fazenda e aviões teco-tecos que não são da Mundial. Falou que o repórter “vai ter de provar tudo na Justiça”. 

“Você [Rezende] é burro. Como é que eu poderia ir até a África com um monte de teco-tecos?” O pastor tem pelo menos um avião com autonomia para voos internacionais.

O religioso falou que a TV Record vale R$ 4 bilhões, quantia que não veio de “dinheiro de cafezinho”. “Foi dinheiro da igreja (Universal)”, disse. “Chame o seu patrão e mostre o patrimônio dele.” 

O fundador da Mundial acusou Rezende de ter dois contratos empregatícios com a Record, um “por fora”, para pagar menos pela pensão alimentícia de seu filho. 

Disse que o profissional está sendo usado por Macedo e que um dia vai ser descartado. "É o seu último trabalho". Falou que está orando pelo repórter porque soube que ele está com Aids.

No "Domingo Espetacular", Rezende prometeu fazer nas próximas semanas outras revelações sobre o fundador da Mundial.

A reportagem ocorreu na sequência de uma série de ataques de Macedo a Valdemiro. Ambos são concorrentes em um segmento do mercado de fiéis evangélicos, o das classes C e D.

Com informação de vídeo do programa da Igreja Mundial.

Via Paulo Lopes 



segunda-feira, 26 de março de 2012

A MAIS DIVINA VISÃO (by Elienai Jr.)




O que do humano mais esperamos não passa de divinização cruel. O que chamamos de humanização, frequentemente, nada mais é que a idealização narcísea do outro. Bondade, paciência, justiça, polidez, bom senso, honestidade, equidade, pureza e todas as demais virtudes. Tudo muito lindo no meu discurso, mas um pesadelo nos ouvidos e na consciência dos que me rodeiam.

Imponho ao outro o que em mim imagino poderia ser perfeito. Exijo e puno todos a minha volta na proporção em que preciso esconder de mim mesmo a impossibilidade amarga de ser tão bom. O divino que me tortura é abrandado na medida em que culpabilizo o mundo. A gigante e divina moral me esmagaria se eu não o fizesse aos demais. Eis a origem dos conflitos.

Certamente foi esta imagem invertida que Jesus denunciou no moralismo dos fariseus. Chamando-os de guias de cegos, sepulcros caiados. Acusando-os de imporem aos demais o peso que eles mesmos não conseguiam carregar.

Aqui tropeçam secularmente as religiões e as políticas utópicas. Partem de universais que tem a autoridade do “ponto de vista do olho de Deus” (Richard Rorty) e com esta força moral idealizam um futuro imprescindível ao mundo mais humano, ou mais divino, no caso das religiões. E do alto desta perspectiva tornam-se o criadouro fértil dos discursos culpabilizadores e de seus filhos inevitáveis, os mecanismos de disfarces. Esgotados a utopia e seus moralismos e fracassados os simulacros coletivos, resta-nos ou o gosto insosso da apatia, ou o azedo do mais ácido pessimismo diante da realidade da vida humana.

Aqui entra a proposta de salvação trazida por Jesus. Sua resposta pelo que é verdadeiro e capaz de produzir salvação não está em uma utopia escatológica, nem em uma política revolucionária. Muito menos a salvação se apresenta em um conteúdo capaz de descrever a verdade, nem uma prescrição moral do “ponto de vista do olho de Deus”, esta sempre mata, dirá o Apóstolo mais a frente. A salvação não virá de Deus sobre a humanidade, já se tentou e não deu certo. A divina salvação virá da mais autêntica humanidade. Por isso Jesus diz de si mesmo: “eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.” Não como idealização da vida humana, mas como humanização da idéia divina.

A salvação humana não está em uma glória divina. A glória de Deus é a vida humana plena de si. “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1.14)

Não há um ponto de vista do olho divino que não seja uma grande ilusão. Em Jesus, o que há de mais divino tem plena visibilidade entre os humanos. “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido”. (Jo 1.18)

Jesus é o fenômeno humano experimentado sem tergiversações. Ele nasce em um mundo perigoso. Desenvolve-se na companhia de uma gente esmagada pelas políticas de dominação mundial. Cresce em um ambiente religioso tão intenso em sua devoção quanto o sofrimento e a humilhação de sua gente. Convive com a injustiça e a pobreza, com seus filhos miseráveis, as doenças do corpo e da alma. Mas levanta-se sob a autoridade de uma esperança profetizada e aguardada. Afirma-se o Cristo na medida em que realiza uma peregrinação libertadora.

No instante em que sua vida se torna um ingrediente de esperança, Jesus experimenta a mais cruel das manifestações de nossa humanidade, a injustiça. Sua influência também é um deslocamento de poder. E nada é mais temível para os poderosos que um jogo de poder que eles não saibam ou não possam jogar. Jesus inverte a moral dos conquistadores e chama de poderosos os mansos da terra, de legítimos herdeiros do Reino os pobres deste mundo, de bem aventurados os degredados pela desigualdade social. Relativiza as grandes doutrinas, volatiliza os ritos, elege os pequeninos como fonte de sabedoria e lhes confere o rosto divino. Aos poderosos só resta criminalizar alguém assim. Aos religiosos, reputá-lo herege e ameaça à fé. Criminoso e herege. Crucificado. Morto.

O percurso de sua morte não foi forrado por qualquer idealização. Foi um fim trágico e injusto e não se fingiu outra coisa. Nem Jesus aceitou qualquer movimento que escamoteasse a realidade dos fatos. Alertando aos discípulos sobre a confusão após sua prisão e morte, desconsiderou as palavras devotas e otimistas de Pedro: “Todos podem te abandonar, mas eu jamais te abandonarei”. Para a cura de Pedro Jesus deixou seu doce ceticismo: sua expressão de fé não duraria nem uma noite. “Antes que o galo cante…” Jesus também nos ensina a morrer.

Sob o testemunho de Jesus resta-nos retomar a pergunta pelo que nos humaniza, ou pelo que nos faz mais humanos. O humano não é uma divinização moral, já sabemos. Minha desconfiança é que o humano seja a própria liberdade. Que o humano seja a realidade de um ser que se descobre tão livre ante o seu destino quanto entregue ao absurdo de uma existência sem garantias excepcionais. Sua vida é assustadoramente provisória, mas esta também é sua salvação. Pois na vida os dissabores e insucessos também são provisórios. Sua fraqueza é sua força. A mesma fragilidade que o leva à tragédia é a flexibilidade que o leva à revolução. A suscetibilidade é a outra face necessária de sua liberdade. Suas conquistas podem ruir, mas Suas perdas também podem ser superadas.

Só existe outro nome além de liberdade capaz de nomear o fenômeno humano sem encapsulá-lo em uma moral asfixiante. Amor. A negação do humano, ou a desumanização, é todo e qualquer mecanismo que despreze a precariedade humana e finja uma divinização. É o cúmulo da indiferença. Mas a afirmação do humano, ou sua humanização,  é um testemunho de amor. É a recusa de todo e qualquer processo de indiferença e fuga, é o abraço à vida em sua plenitude. Amor. A abertura mais corajosa e radical ao fenômeno humano.

O que nos salva em Jesus é seu testemunho de amor. Ninguém jamais viu a Deus, e sempre que tentou falar de seu ponto de vista, desumanizou. O que de Deus vimos em Jesus é tudo o que de Deus se pode ver: o humano do ponto de vista do humano, a mais divina visão.

Elienai Jr.

domingo, 25 de março de 2012

Versões diferentes de uma mesma deficiência (by Franklin Rosa)




Baseado no Evangelho de Lucas cap. 12 vs. 13 ao 21

O relato de Lucas nos mostra dois indivíduos com falta de sensibilidade para fazer a diferenciação entre o que contribui e o que desestrutura a saúde da alma: O irmão desgostoso que está contrariado por conta da herança não apropriada, e o capitalista insaciável vítima de sua própria ganância e insegurança.

Quero definir saúde da alma aqui como a capacidade de discernir valores, a absorção de conteúdos que realmente importam e que contribuem para uma melhor qualidade de vida a curto, médio e longo prazo, que desemboca necessariamente numa melhor relação consigo mesmo, com o próximo e com Deus, e não simplesmente fazer uso desse texto com as lentes da exegesse e hermenêutica.

A descrição feita entre os dois personagens é pitoresca, intencionalmente co-relacionada para chamar a atenção a um ponto em comum na persona-espiritualidade deles: A falta de percepção.

O irmão desgostoso demonstra nitidamente sua insensibilidade, trocando realidades espirituais por valores materiais. Para ele, segurança, herança e estabilidade econômica, tinham mais atrativo e significado do que valores eternos que resolveriam a questão dentro de si.

Sua alma estava tão petrificada, que ele não percebe a profundidade do convite e a inversão de valores, pela casualidade da situação que é confrontada com um argumento inadiável: o sentimento de justiça que remediaria seu orgulho ferido.

A chamada à conversão aos valores do Reino, nem sempre acontece de maneira dramática ou espetacular, mas no chão da vida, e para percebê-la é necessário desarmar-se de alguns pressupostos de dignidade própria.

O desgostoso deixa de aproveitar a oportunidade de uma nova dimensão em sua vida, porque estava envolvido numa demanda neurótica desprezando o melhor: a oportunidade de entrar no Reino e do Reino habitar nele.

Já o capitalista insaciável se apresenta como obstinado e escravizado da sua própria pulsão, tornando-se vítima de si mesmo não diferenciando o bom do essencial.

Existem coisas boas com a chancela da legitimidade, que se não forem bem equacionadas e administradas no nosso interior, acabam assumindo prioridades em nossos corações estrangulando assim nossas emoções e pervertendo nosso caráter.

O que fica óbvio nesse indivíduo é uma insegurança manifesta com ares de ganância, que faz dele refém do auto-engano com pré-disposição ao narcisismo e hedonismo

Uma outra dificuldade observada no seu comportamento é o domínio da ingratidão para com Deus caracterizada nas entrelinhas da sua falta de humildade. O campo no qual ele se projeta com a auto-suficiência produz com abundância diz o vs. 16, mas ele não reconhece que era Deus quem proporcionava a dádiva e as condições para que a terra produzisse.

Para tentar lidar com esta questão que não é exclusividade dos dois indivíduos do texto, vale lembrar o conselho: E não vos conformeis com este mundo (sistema que subverte valores essenciais à vida), mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento (desenvolvendo percepção em relação ao que seduz e escraviza), para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.


sábado, 24 de março de 2012

Filosofia reversa (inventando jesus)


Por Ivani Medina

O temo filosofia se define etimologicamente no dicionário Houaiss como ‘amor da ciência, do saber, do conhecimento’, de philos ‘amigo, amante’ e sophia ‘conhecimento, saber’. Enfim, amor pela sabedoria ou conhecimento. O termo reverso, no mesmo dicionário, significa algo ‘que está ou parece estar em posição oposta à normal’. Como o normal na filosofia é a busca do conhecimento, quando uma filosofia se coloca em posição oposta à sua proposição original, se servindo das técnicas filosóficas para obstá-lo, torna-se uma filosofia reversa. Inventei isso apenas para ilustrar o meu pensamento.
O cristianismo é definido por alguns como uma filosofia popular ou feita para o povo. Algo do tipo “não conte às crianças”. Atualmente, coisa dos pequenos que gostam de parecer grandes diante da multidão. O pior é que há quem acredite sinceramente no cristianismo como algo benévolo cujos defeitos e efeitos são meramente acidentais. Por causa dessa filosofia religiosa reversa e milenar que passou a controlar tudo inclusive a história (é o que mais me incomoda), o surgimento do cristianismo é para a grande maioria dos seus adeptos uma parte vital da sua autobiografia intocável. Alguns acreditam que quem ousar mudar uma única das suas linhas terá que se ver com a ira de Deus.
Como até hoje tentam calar com argumentos filosóficos e teológicos (alegando razões humanitárias no cuidado com “as crianças”) quem comente a respeito do cerceamento da história, que para eles deve permanecer como está, mais uma vez recorro ao trombone. Há muito a história perdeu o direito a palavra. Toda vez que ela levantava o dedinho, a teologia e a filosofia reversa chegavam nela dizendo: O que pensa que vai dizer? Primeiro conversaremos a respeito. E assim seguiu-se até as primeiras horas da manhã do século XXI, limitada por um interesse que nunca foi dela, percebeu este modesto colunista e admirador o erro fatal: trazer Jesus Cristo do tempo mítico para o tempo histórico, fazendo dele o Jesus de Nazaré.  Uma inovação que vai custar caro porque o tempo histórico tem exigências incontornáveis.
A Judeia e a Galiléia eram produtoras de artigos procurados também para as boas mesas: tâmaras, frutas secas, romãs, maçãs, mel, azeitonas, azeite, peixe salgado e defumado, grãos, o conhecido vinho da Judéia etc. Lã, fiação e produtos acabados, como cobertores, mantas, tapetes, artesanato de luxo e perfumes encontravam igualmente boa aceitação em outros mercados além do mercado interno.
No constante vai e vem dos mercadores as notícias faziam o mesmo percurso, indo e vindo por intermédio daqueles que passavam por diversas vilas antes do destino final. Comerciantes tinham necessidade profissional de andarem bem informados, pois qualquer desatenção poderia ser perigosa para a segurança deles e causar-lhes grandes prejuízos. Assim era o dia todo, o tempo todo, o ano todo porque o dinheiro não dorme.
“E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoniados, os lunáticos e os paralíticos, e ele os curava”.  (Mt 4, 24)
“E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão.”  (Mt 4, 25)
Houvesse existido o Jesus histórico que de alguma forma (a menor que fosse) se aproximasse ao mito, junto com as mercadorias exportadas daquela região chegariam também às mesas romanas notícias a respeito deste personagem singular. Um bom assunto na hora da degustação. É certo que, pelo menos, algum escritor de Roma teria se interessado pela sua história. Lembremos de que naquela cidade, no primeiro século, havia uma avidez por leitura da parte da nova classe média, e por assuntos que despertassem a curiosidade dela da parte dos escritores. Plínio o Velho (23-79) foi um dos inúmeros a aproveitar a boa maré e escreveu sua História Natural, publicada em 77. Sobre Jesus e o cristianismo alegadamente existente na época, nem uma palavrinha da parte deles.

“Plínio era um leitor ávido que hauria com abundância em outras fontes para obter as informações que desejava registrar. Ele mesmo admite que o fazia e menciona cerca de cem fontes das quais extraiu os dados compilados no seu livro. Para o livro V, onde aparece o parágrafo sobre os essênios, Plínio reconhece ter usado cinquenta e nove fontes.” (VANDERKAM, 1995, p. 80)

Não é possível que um assunto desse não caísse na boca do povo, quando os essênios eram conhecidos. Pelas declarações de Plínio, está claro que havia um mercado editorial promissor no primeiro século. Não fosse a história de Jesus de Nazaré, ninguém engoliria as usuais desculpas por ela ter sido ignorada nos meios rural e urbano por um século inteiro.
A especulação que hoje se faz na busca do Jesus histórico pode igualmente sugerir o que teriam feito os gregos na construção deste personagem. Bem informados que teriam sido sobre os galileus e a situação difícil deles (pelos seus patrícios de Séforis e Tiberíades) as causas econômicas, políticas e sociais já estavam delineadas. Adversários dos romanos e dos judeus, essa gente ignorante e feroz defensora dos seus costumes era uma massa de manobra perfeita para ser usada por terceiros. Como os indo-europeus gregos, por exemplo, que não prezavam latinos nem judeus.

“Como os gregos de Alexandria, os helenos da Palestina eram notórios por seu anti-semitismo: foram de língua grega de Jabné e Achkelon que levaram a Calígula conhecimento de suas medidas antijudaicas. Ingenuamente, Roma insistiu em retirar seus procuradores da Judéia das áreas gentias de fala grega – o último, e o mais insensível deles, Géssio Floro, veio da Ásia Menor grega.” (JOHNSON, 1989, p.140)

Convertidos pelas espadas ashmoneanas ao judaísmo, apenas por conveniência política e estratégica, os galileus nunca foram considerados judeus pelos próprios, senão pelos de fora que desconheciam o judaísmo internamente. Em 78 da era antiga, os ashmoneanos conquistaram e absorveram Samaria, Edom, Moab, Galiléia, Iduméia, Transjordânia, Gadara, Pela, Gerasa, Ráfia e Gaza. O judaísmo e a circuncisão foi um processo que os descendentes dos ashmoneanos impuseram aos seus novos súditos pela força da espada.  (DURANT, 1971, p. 415) “A submissão asmonéia dos galileus e dos idumeus ao Estado-Templo de Jerusalém e às “leis dos judeusnão significava que eles estavam integrados no ethnos (nação/povo) judaico.” (HORSLEY, 2000, p.33). “[...]. Geralmente, porém, Josefo faz distinções claras entre os galileus e idumeus e os judeus como ethnoi ou povos distintos.” (HORSLEY, 2000, p. 33). Os judeus da Judéia desprezavam os galileus como sendo gente atrasada, como os galileus desprezavam os da Judéia como escravos manietados na teia da Lei. E havia também o perpétuo atrito entre judeus e samaritanos.  (DURANT, 1971. vol. III, p.415). A ideia que se criou de uma suposta opressão romana aos judeus é equivocada. Eram os galileus que eram oprimidos pelos romanos (impostos sobre a terra, produção, utilização de pontes etc.) e pelos judeus (impostos do templo). Judeus e romanos se davam bem e estavam bem, os galileus é que se ferravam.
 Portanto, na realidade, verifica-se uma distorção intencional na informação quando se diz que os zelotes (galileus revoltados e desejosos da guerra) constituíam um partido político judeu. O significado deste termo é “imitador” e não “aquele que tem zelo por Deus”. Como não havia sinagogas na Galiléia pode-se inferir pela falta de assistência cultural e orientação religiosa que fazia dos galileus imitadores de um ritual e observâncias cujas causas desconheciam.

“Não existiam sinagogas na Galiléia nos séculos I e II. Surgem só na metade do século III. (HORSLEY, 2000, p.121) [...].Os rabis, aparentemente descendentes dos primitivos escribas e sábios, mudaram-se da Judéia para a Galiléia na onda da segunda grande devastação causada pelos romanos para reprimir a revolta popular generalizada contra o domínio de Roma [...]. Eles finalmente se concentraram nas cidades da Galiléia que mais haviam romanizado/helenizado no decurso do século II.” (HORSLEY, 2000, p.158)

E, no templo, em Jerusalém, somente lhes era permitido o pátio dos gentios. Eram tratados como desprezíveis contribuintes estrangeiros e não como iguais. Eram odiados e odiavam os fariseus (FROMM, p. 28), razão do ataque visceral a estes nos evangelhos, especialmente no de Mateus. É o ódio galileu que transpira nos evangelhos, e não ódio absurdo de judeu contra judeu, como se fez crer, que comprometeu a segurança e o bem-estar do povo judeu condenando-o a um ódio eterno. É claro que judeu algum participou da redação da literatura cristã primitiva. Gregos assistidos por galileus mais instruídos no judaísmo, de posse da Septuaginta e de Antiguidades judaicas, de Josefo, fizeram isso. O fictício Paulo surgiu para tapar esse Sol com a peneira, traduzindo alegoricamente o esforço grego no processo de convencimento e resgate dos prosélitos.
Motivos para mágoas e ressentimentos sobravam aos galileus. Fica claro que galileu e judeu nunca foram sinônimos e ninguém disse isso abertamente porque não interessava. Até hoje no meio judaico “galileu” é sinônimo de bandido por causa das atrocidades que eles cometeram contra os judeus da Judéia e de Jerusalém, nos episódios da guerra de 66-70/3, quando saquearam casas, estupraram mulheres, assassinaram indistintamente seus habitantes e incendiaram os paióis de provisões da cidade.

Ao que parece, os pais da história, plantaram o romance do Jesus histórico antes daquela guerra porque Jerusalém foi destruída e incendiada e o templo (símbolo maior do judaísmo) eliminado juntamente com as “provas” de tal “existência”. Ficaria o dito pelo não dito. Fizeram então, os inimigos do judaísmo, do personagem galileu Jesus de Nazaré um messias judeu e pretenso “reformador” do judaísmo, religião na qual jamais seria admitido como membro de fato e de direito.

Os gregos estavam de olho na posse do Antigo Testamento para conter o proselitismo e reverter a influência judaica no meio pagão. O messianismo judaico, afirmado pelos cristãos e negado pelos judeus, era na verdade o messianismo desastroso dos simples galileus. A resistência camponesa deles assumiu o teológico messianismo libertador dos seus dominadores judeus, tomando-o ao pé da letra (o que lhes deveria facilitar a organização e o fomento da esperança na continuidade da luta). Os líderes desses movimentos eram chamados por eles de “rei” (HORSLEY, p. 37). Daí a imagem literária “Jesus, rei dos judeus”. Como solução, isto é, uma ponte constituída por um personagem Galileu entre o mundo grego e o judeu, para a ignorância pagã, estava de bom tamanho. Tendo em vista a sinterização de um antídoto para a definitiva submissão do judaísmo, Jesus de Nazaré passaria a ser também um problema difícil de resolver, como desarmar uma bomba relógio inexpugnavelmente blindada.

“Ouve-se falar de Nazaré, pela primeira vez, nas fontes que datam do século III. Ora, nos evangelhos Nazaré é chamada de ‘cidade’. (Mateus. II 33: Lucas, I, 26; II, 39, etc.) Não parece, portanto, que Nazaré tenha sido uma cidadezinha perdida que pudesse ser ignorada por todos os historiadores da Judéia. [...] Os autores dos evangelhos não conheciam a Judéia senão pelos textos do Antigo Testamento, e achando, visivelmente, que ‘nazareno’ significava originário de Nazaré, deram esse nome ao lugar do nascimento do Cristo, sem sequer suspeitar que semelhante localidade ou vila não existia na Judéia.” (LENTSMAN, 1963, p. 177)


Diz-se que os evangelhos canônicos são mencionados pela primeira vez pelo grego Pápias, apologista cristão da primeira metade do século II. O historiador da igreja, o grego Eusébio, no século IV, disse que Pápias criticava os evangelhos de Marcos e, em parte, o de Mateus (LENTSMAN, p. 180) o que pressupõe a existência desses evangelhos antes do século III. No entanto, as informações de Eusébio merecem confiança relativa e as evidencias não corroboram com a informação, no entanto, uma certeza que supera nossas dúvidas nós temos: ora, quem conta a história do cristianismo são os gregos.

Estudiosos especialistas garantem que não existiu original em aramaico da literatura cristã primitiva, língua das vilas e cidades judias interioranas. O grego era falado nas cidades mediterrâneas. Os evangelhos (tipo de literatura comemorativa grega, comemoravam o quê?) e especialmente Atos dos Apóstolos - que empresta a sensação mais elaborada de realidade à pretensão histórica - são literaturas religiosas que têm alimentado por séculos as discussões teológicas e a imaginação popular. Mark Twain disse com muita propriedade que a ficção precisa ser mais convincente do que a realidade. “O documento principal de que dispomos para conhecer as primeiras décadas da Igreja é constituído pelos Atos dos Apóstolos [...]. Quem escreve é grego e escreveu para gregos [...].” (DANIÉLOU; MARROU, 1966, p. 27)

A evidente origem pagã do cristianismo se vê nos elementos da sua própria construção literária. Não era o deus de Israel que tinha o hábito de sair emprenhando mulheres por aí. Era Zeus Pai, o Todo Poderoso. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Jesus de Nazaré como filho do deus de Israel é o maior absurdo sincrético e blasfemo da história da religião. Ainda que quisessem, nem os convertidos galileus forjariam isso por conta própria, por absoluta falta de condições. O cristianismo veio da Ásia Menor sob a desculpa de que o apóstolo João teria se instalado lá. “Um pescador da Galiléia poderia ter escrito a prosa elegante, sucinta e filosoficamente sofisticada deste evangelho [João]?” (PAGELS, 2004, p.68). Até mesmo entre os historiadores cristãos há certo escrúpulo com essas histórias burlescas.

Para a história secular independente não há um único judeu metido nisso. Não é admissível que a declarada transição do judaísmo para o mundo grego, além de tudo, não tenha deixado, ao menos, nomes que pudessem ser explorados nesse vínculo supostamente existente entre o cristianismo que conhecemos e o seu afirmado passado. São inúmeras as evidencias que tal vínculo não existiu para quem quer percebê-las, evidentemente. Como é difícil admitir que durante tanto tempo tanta gente fosse enganada com a própria cumplicidade. Ninguém pode ser enganado por tanto tempo sem o próprio consentimento.

[...] Nunca ocorreria às suas cabeças fabricar mentiras tão colossais e eles não podem acreditar que outros possam ter a imprudência de distorcer a verdade tão infamemente. Mesmo que os fatos que provem que tal foi o que ocorreu possam ser apresentados claramente às suas mentes, eles, mesmo assim, duvidarão, hesitarão e continuarão pensando que deve haver uma outra explicação.” (Adolf Hitler, Mein Kampf, vol I, ch X)

Agora, mais desconfortável ainda é a percepção dos dados da caixa preta da história. Quantos corações partidos e interesses poderosos contrariados com a perda dessa confiança. Aos judeus sionistas, certamente, isso não interessa. A não ser que o Ocidente aceite a ascendência espiritual judaica incondicionalmente. Do contrário, preferem que tudo fique como está. O Vaticano e as igrejas em geral, especialmente aqueles que fizeram fortunas se aproveitando dos bons sentimentos alheios, nem se fala. Sabem todos que só podem contar com a resistência do crente a admitir-se iludido e com a própria habilidade na manipulação da filosofia reversa, para conservar os crentes como estão e o mundo como está.




Referencias
DANIÉLOU, Jean; MARROU, Henri. Nova história da Igreja: dos primórdios a São Gregório Magno. Petrópolis: Vozes, 1966.
DURANT, Will. César e Cristo. Rio de Janeiro: Record, 1971.
FROMM, Erich. O dogma de Cristo. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
HORSLEY, Richard A. Arqueologia, história e sociedade na Galiléia. São Paulo: Paulus,  2000.
JOHNSON, Paul. História dos judeus. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
LENTSMAN, Jacó Abramovitch. A origem do cristianismo. São Paulo: Fulgor, 1963.
VANDERKAM, James C. Os manuscritos do Mar Morto hoje. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.






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